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DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO QUE ESTÁ ATUANDO NA mídia e INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO
As ciências humanas e o discurso do primitivo
Eliane Colchete
07/12/2012
O espaço deste blog intitulado "romance de juventude" havia sido a princípio destinado a um texto cuja postagem fora sustada pelo provedor. Assim, corresponde a uma tentativa de postar o mesmo texto. Mais tarde pude recuperar o espaço daquela postagem e o blog correspondente - se bem que não tendo podido ser totalmente paragrafado - intitula-se "Vem você também vencer", sendo "romance de juventude" o subtítulo (gênero prosa de ficção).
A segunda tentativa, que correspnde ao presente blog, foi ainda mais sabotada, pois a postagem não foi feita - curiosamente, o bloco de notas do próprio blog ostentava um trecho, ainda que nada constasse como"visualização".
Assim agora estou reaproveitando este espaço para textos que, como registrei alhures, tenciono publicar, não de prosa (ficção), mas de teoria. Versam sobre a relação das ciências humanas com a construção discursiva da oposição centro-margem que atualmente não mais se mantem como apenas um postulado especulativo, mas ordena o planisfério como realidade geopolítica do "terceiro mundo" abaixo da "linha de pobreza" que cinde o planeta em dois hemisférios, Norte e Sul, não por uma circunstância de natureza - trata-se do conceito oriundo da geografia "humana".
Reaproveitar o espaço se deve ainda a que obter "endereço" de novos blogs está singularmente dificultado.
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a) Paul Hirst e o juízo marxista da teoria social
Tratando da particularidade das ciências humanas em relação às ciências da natureza, a vinculação das Humanities
entre qualquer forma de classificação ou de tipologia social e uma
teoria subjacente que não pode deixar de ser explicitada na
apresentação mesma da forma, está bem ressaltado em Paul Hirst
(“Evolução social e categorias metodológicas”, 1977). A
ênfase cabe a esse componente coercitivo ou restritivo.
É claro que
sempre, em ciências, todas as formas de classificação
são “o produto de teorias que constituem os objetos
especificados”. É o mesmo para as da natureza e as humanas.
Mas nas primeiras cabe um relato – nos termos de Hirst, uma
“história” – das formas de classificação que se
apresentam sucessivamente. Esse relato equivaleria à história da
própria ciência, como na teoria das espécies em zoologia, que
seria o produto da sucessão contínua de Lineu, Cuvier e o
evolucionismo. Não ocorre assim nas segundas.
Em ciências humanas não há “sequências definidas”, pois “as formas principais de teoria e classificação estão co-presentes”. Resultaria no “inventário de um número considerável de teorias sociais” qualquer tentativa de apresentar um “exame exaustivo das formas de classificação dos objetos sociais”. O projetado “panorama geral das classificações” logo se transforma “numa análise da posição da teoria nas ciências sociais.”
Essa
restrição vem sublinhada pela anedota a propósito do livro. Hirst
fôra solicitado a escrevê-lo pelo editor da série em que foi
lançado. O texto requerido seria “sobre tipificações
das sociedades e classificações sociais.” Mas
a rubrica revela-se impossível de ser preenchida. Pois, se como
vimos isso depende de um exame geral das teorias humano-científicas,
o problema da classificação iria inevitavelmente situar-se num
plano meramente derivado, não essencial. Além disso, mesmo que se mudasse a expectativa,
o tema de um empreendimento assim teria que extrapolar os limites de
um texto padrão da série – não mais que umas 150 páginas, pelo
que deduzimos do resultado efetivo.
A opção de Hirst foi “restringir a atenção a algumas teorias sociais específicas e às formas de classificação que elas produzem”. Na verdade, trata-se de uma introdução onde se apresentam conceitos de evolução a partir dos quais se cumpre o objetivo de desvincular o marxismo do evolucionismo social. A partir daí centra-se a obra numa crítica da teoria de Weber por seu contraste às perspectivas do marxismo.
Ou
seja, há nitidamente uma série de pressupostos que não estão
explícitos, como não o parecem estar nem para o autor, nesse trecho
onde aparentemente temos a mais clara explicitação da metodologia
que se vai empregar na construção da obra. Nessa explicitação
subverte-se o intuito original do editor: “uma tese geral
será apresentada e ilustrada através de casos específicos”, e
“ultrapassa o tema da classificação”
o foco marxista de avaliação, seja de Weber, seja das teorias
evolucionistas do século XIX.
A opção de Hirst foi “restringir a atenção a algumas teorias sociais específicas e às formas de classificação que elas produzem”. Na verdade, trata-se de uma introdução onde se apresentam conceitos de evolução a partir dos quais se cumpre o objetivo de desvincular o marxismo do evolucionismo social. A partir daí centra-se a obra numa crítica da teoria de Weber por seu contraste às perspectivas do marxismo.
Ora,
quando se retorna ao contraste das classificações científicas, da
natureza e humanas, vemos que um paradigma narrativo da história,
subjacente ao modo como Hirst considera a continuidade
em zoologia, resulta, inversamente, em que se pode, tratando-se das
primeiras, lidar com cada classificação separadamente, mas não
quando se trata das segundas. Podemos estudar uma classificação em
ciências da natureza sem tocar na epistemologia ou na história das
ciências. O limite máximo aqui é a atualidade da teoria aceita.
Não teria muito sentido estudar Lineu ou Cuvier por si mesmo, nos
dias de hoje, quando se trata do neoevolucionismo, já num âmbito
genético. Em compensação, não há necessidade de nenhum deles
para entender o neoevolucionismo, ou vice-versa.
Em
contraste, a opção de Hirst frente à adversidade das purezas
taxinômicas decorrente do modo de ser das humanities não
tem nada de fortuita. Se “Aristóteles, Montesquieu e
Weber continuam a existir”,
desses três ele só se ocupa de Weber quando se trata de uma
relevância crítica em prol do marxismo. De modo algum se poderia
escolher de outro modo. E como ressaltei acima, e o próprio Hirst
demarca, um caso, o do evolucionismo seja como biologismo, seja como
teoria social à Terray ou Morgan, é “estabelecer a
diferença entre o marxismo e as teorias consideradas”,
mas outro caso, o de Weber, é “questionar a posição
da teoria como alternativa para o marxismo”.
O que está subjacente é o que permanece indiscutido como se pudéssemos relegar à categoria simples do indefinido, o que sempre se poderia por outro lado admitir como um heteróclito que seria desejável não haver. Tanto o seria que, do sorteio de pontos de vista inúmeros e coexistentes, ressalta ainda mais a conveniência de uma objetividade demonstrável na anulação do acaso, tão bem que se o pudesse explicar, ao acaso mesmo, como o espaço da flutuação ideológica. Ora, o indiscutido – e assim tornado indiscutível – é o complemento nominal. Aquilo de que as classificações são formas, a saber, dos “objetos sociais”.
Se
de fato eles são a pluralidade social, decorrente na
história do saber de um
acontecimento capital, o da emergência ao pensável da pluralidade
cultural, nada disso resta desde
já tematizável. Uma unidade objetiva deslocou a pluralidade dos
“objetos”. Não houve uma palavra sobre que se trata agora,
apenas, de um termo operacional, “sociedades”, para
o que de fato não sabemos o que seja, apenas que não mais
são não-sociedades,
além de constituírem-se como organizações culturalmente estáveis,
aqueles grupamentos humanos que se encontram fora dos limites da
tradição étno-cultural do que sabemos desde sempre ser a sociedade
europeia.
O que está subjacente é o que permanece indiscutido como se pudéssemos relegar à categoria simples do indefinido, o que sempre se poderia por outro lado admitir como um heteróclito que seria desejável não haver. Tanto o seria que, do sorteio de pontos de vista inúmeros e coexistentes, ressalta ainda mais a conveniência de uma objetividade demonstrável na anulação do acaso, tão bem que se o pudesse explicar, ao acaso mesmo, como o espaço da flutuação ideológica. Ora, o indiscutido – e assim tornado indiscutível – é o complemento nominal. Aquilo de que as classificações são formas, a saber, dos “objetos sociais”.
O fato capital, pois, é bem recente, tendo sua eclosão em
princípios do século XIX, marcada pela falência das teorias do
contrato social que representaram a última forma da
objetividade da “sociedade” tal que pudesse restringir-se a uma
realidade intra-europeia.
Que
o objeto das ciências humanas emerge esvaziado de objetividade, que
por isso elas não são
teorias extensíveis a Aristóteles e que isso torna bastante
problemático, por exemplo, o estatuto histórico-epistemológico de
Montesquieu, não é passível de ter por consequência a afirmação
de um seu subjetivismo intrínseco.
Tem, sim, a consequência de que antes de qualquer opção
que se queira esclarecer qual seja e que metodologia instaura, é
preciso tematizar a natureza do objeto – as sociedades humanas
espalhadas pelos cinco continentes, que são basicamente desprovidas
de características generalizáveis quanto ao modo de sua
apresentação ao observador; e a restrição da observação que se
compõe não só de inúmeros testemunhos presenciais, que podem ou
não estar de posse de instrumentos categoriais conceituados na sua
observação; mas que se resolvem em documentos registrados desses
testemunhos, aos quais se somam outros tipos de documentos, aqueles
hauridos na pesquisa “arqueológica” (etnologia) estendendo-se o termo para
quaisquer recolha de produtos culturais oriundos da própria
sociedade estudada.
Acresce-se a isso que os testemunhos presenciais tendem a
ser interessados de uma forma bastante determinada, como europeus:
viajantes envolvidos com o empreendimento colonial ou cientistas
sociais envolvidos com ambos, tanto os requisitos culturais do
ocidente quanto com o empreendimento neocolonial ou em todo caso,
geopolítico.
Assim
a “natureza” do objeto é ela mesma histórica, mas de um modo
que não pode ser modelado pela noção de “relato”. Até o
século XIX, um grupamento humano fora da Europa, ou do que era
conhecido pela Europa como extensões institucionais semelhantes aos
seus como os impérios asiáticos, não era
uma sociedade. Nesse “fora” do social, como do cultural ou da
“civilização” estavam, pois, os contingentes aborígines
americanos, desde que foram descobertos pelos europeus.
Antes
dessa descoberta, não havia a questão do
objeto, pois só havia o conhecido europeu, e isso então podia ser
sem mais designado o humano.
Quando ocorre a descoberta, levanta-se a questão da natureza do
descoberto, mas não se encaixa na possibilidade dessa natureza, ser
ela a de uma sociedade.
Natureza e sociedade são, sintomaticamente, os dois conceitos que se entre -excluem, desde os descobrimentos até o século XIX. Após os acontecimentos da independência das colônias americanas, em princípios deste século, os constituintes das novas nações passam a ter que ser considerados como sociedades assim como elas mesmas o são desde que ostentam o estatuto da nacionalidade que define modernamente uma sociedade no sentido mais geral do termo. Quando, em princípios do século XX, os domínios territoriais africanos começam a ser franqueados pelo neocolonialismo europeu, os grupamentos aborígines daquele continente já tem que ser considerados sociedades, não precisam esperar conquistar um estatuto nacional pós-colonial, mediado pois pela cultura europeia, para isso.
Natureza e sociedade são, sintomaticamente, os dois conceitos que se entre -excluem, desde os descobrimentos até o século XIX. Após os acontecimentos da independência das colônias americanas, em princípios deste século, os constituintes das novas nações passam a ter que ser considerados como sociedades assim como elas mesmas o são desde que ostentam o estatuto da nacionalidade que define modernamente uma sociedade no sentido mais geral do termo. Quando, em princípios do século XX, os domínios territoriais africanos começam a ser franqueados pelo neocolonialismo europeu, os grupamentos aborígines daquele continente já tem que ser considerados sociedades, não precisam esperar conquistar um estatuto nacional pós-colonial, mediado pois pela cultura europeia, para isso.
Não há nenhuma continuidade entre esses três grandes
domínios de inteligibilidade social europeia: pré-descobrimento,
mundo colonial anterior ao século XIX, e depois. Os acontecimentos
que precipitam a ruptura de cada um deles e a surgência do outro são
extrínsecos a tudo o que ocorre no domínio assegurado por qualquer
deles. Podemos designá-los períodos “antigo”, “moderno” e
“contemporâneo” de uma “história” da inteligibilidade
sócio-antropológica europeia (“ocidental”).
2)
A terminologia de Nietzsche a propósito da
saúde e da doença não é habitualmente tematizada com a
importância que merece. Aqui será considerada suficiente para
demonstrar, por um lado, a unidade metodológica que podemos atribuir
ao que designaremos “Realismo” e que enfeixa o conteúdo
criticado por essa terminologia. O Realismo assim como está sendo
considerado, pode sim esclarecer a homogeneidade de opções no
entanto bem variáveis, que se abrigam na história das ideias sob o
rótulo de “evolucionismo”. O que nos coloca numa perspectiva
crítica em relação ao intuito relacionado à discussão de Hirst.
A noção realista e positivista
implicitamente criticada por Nietzsche por meio dessa terminologia,
não esgota a intenção do seu emprego. A terminologia é, ou se
concebe, como um novo modo de pensar, ou ao menos novo em relação à
voga que critica, mais típica de décadas anteriores aos anos
setenta-oitenta do século XIX, período produtivo típico de
Nietzsche. Mas o “positivismo” não se esgotou apenas por ter
sido deslocado como uma dominância esclarecida como aquela
homogeneidade.
Ocorre que de fato esses rótulos são indispensáveis numa história que não é só de ideias, mas que pelo modo como se desenvolve o Ocidente “contemporâneo” - mais facilmente designado “modernidade” - implica um entrelaçamento geo-político. Todos os rótulos de época desde o Romantismo são ao mesmo tempo que práticas culturais adjacentes e mais ou menos heteróclitas desenvolvendo-se neles, juízos capitais do Ocidente a propósito da modernização como processo que amalgama industrialismo e cientificidade determinando um juízo mais geral sobre a diferença social que isso implica. Essa diferença é o cerne geopolítico que define toda a implicação desses itens a uma auto-posição do Ocidente frente aquilo que a ele se opõe doravante por não protagonizar o processo de modernização e inversamente, apenas dever ser dele a repetição.
A modernização não ocorre no interior da Europa sem ser ao mesmo tempo de natureza internacional e impregnada aí de um componente de dominação ocidental. O imperialismo se desdobra por um a priori da universalidade virtual do processo de modernização. As sociedades não modernizadas, o que significa não-ocidentais ou ao menos não tipicamente ocidentais (europeias) são sociedades que se modernizarão por alinhamento ao processo ocidental, conforme o pressuposto. Esse alinhamento é inevitável pela natureza internacional do que o Ocidente opera como modernidade: o capital de livre circulação e a ciência.
Ora, quando Nietzsche enuncia sua concepção de que saúde e doença não devem ser pensados como parâmetros de um critério extrínseco que é como a lei cujo correlato se põe pelo funcionamento do corpo saudável, ele está coibindo que se modelize o pensamento. A avaliação livre desse critério é um ponto de vista: ora da saúde que avalia a doença, ora da doença que avalia a saúde. Ambas são estados intrínsecos ao corpo. Um paradigma extrínseco ao corpo, somente, seria de que se derivaria qualquer critério de um dever-ser modelar do corpo.
Inversamente, a homogeneidade das produções típicas das décadas anteriores, entre os anos quarenta-sessenta, além de serem críticas do Romantismo, está no que se ostenta como podendo caucionar essa crítica, a saber, a noção mais geral de Lei como correlato do funcionamento que modeliza o fenômeno tal que por analogia ao corpo, esse funcionamento seria o saudável, isto é, circularmente, aquilo que deveria ser. Entre o realismo-positivismo e Nietzsche, o presente ocidental deriva de um a priori legal – como as coisas deviam ter vindo a ser - a uma apreensão de sua alteridade: como entre tantas coisas que vieram a ser, também isso veio.
Ao asseverar
repetidamente que Morgan , típico antropólogo positivista, não lida com qualquer a priori de lei,
Hirst chega à contradição consigo mesmo. À página 34 do livro citado, lemos que
“A
sequência Selvageria, Barbárie e Civilização não é função de
alguma 'lei' evolucionista teleológica que ordena determinado fim ou
finalidade para a humanidade”. Já
à página 47, em polêmica com Terray, Hirst riposta: “Na
verdade, a história de Morgan não se torna obrigatória em virtude
de alguma 'finalidade', mas se torna coerente e é explicada
teleologicamente pela referência à 'mente humana' “. A
tradução de que disponho sendo a da Zahar editores.
Já na exposição de Spencer ele registra que o próprio não
se concebeu como procedendo uma teleologia, “porque o progresso
é um processo objetivo que envolve toda a Natureza”.Mas para
Hirst “apesar disso, a posição de Spencer é teleológica –
a teleologia é essencial a qualquer concepção de progresso”.
Explica a discrepância com base em que para Spencer teleologia
implica uma ação propositiva, portanto implica um agente
determinado.
Creio que um dos problemas da argumentação de Hirst, desenvolvendo-se em meio às suas informações bem escritas sobre as importantes teorias que examina, é justamente a oscilação entre as noções de teleologia e finalidade.
Assim, para ele só existem duas posições. O teleológico é tudo o que subentende a submissão da “natureza inteira a um princípio universal, que produz mudanças intencionais”. Não teleológico é o que não postula um princípio assim, como por exemplo a seleção natural de Darwin, onde só há a variação indivíduo-meio. Mas acrescenta Hirst um outro tipo de teleologia, a dos “propósitos humanos”, chamando-a weberiana e aplicada à sociedade.
Ora, a noção de Lei natural-universal-racional, que arrolo como o a priori epistemológico “realista-positivista”, não precisa ser derivada de qualquer princípio universal conceituado como intencional. Só precisa autorizar um mecanicismo natural - enquanto "objetivo" - determinista do fenômeno inteiro como do seu desenvolvimento.
Evidentemente há uma oposição conceitual, não entre Evolução Geral e Específica, mas entre transformismo e evolucionismo. nessa acepção positivista Este é determinista-mecanicista, aquele não. O Romantismo desconhece o evolucionismo nessa acepção. Nem por isso ele deixa de apresentar interpretações da transformação das espécies lamarkiana, em termos filosóficos. Não devemos crer que apenas o fato da defasagem da teoria de Lamarck em relação à de Darwin, implique o positivismo, mas sim que este deriva das limitações de um darwinismo anterior a descobertas como da genética e a práticas epistêmicas como o trabalho de campo em antropologia.
O que Spencer procedeu foi uma interpretação do evolucionismo, isto é, subentendendo que a transformação das espécies se submete a uma lei independente justamente da intenção de qualquer dos componentes que ela move. Obtendo-se a lei natural-objetiva, o que se legitima é o presente da transformação. Este não se restringe à presença de si. O Romantismo vê na presença de si o fenômeno mesmo a se interpretar. O Realismo-positivismo vê nisso uma mera presença de si, e o presente legitimado é algo mais do que o estar aí do que pode restar conjuntamente.
A lei de Spencer é a
diferenciação: a transformação é sempre do menos ao mais
heterogêneo, ou seja, de um meio indistinto a estruturas distintas
do meio e internamente organizadas. A lei de Darwin é a adaptação,
e por isso se pode falar no mais
apto, ainda que por
relação apenas à variação do meio. Em Nietzsche, ainda que não
procedendo interpretações como a dos românticos, não se poderia
falar desse “mais apto”
de forma alguma. Assim, para Nietzsche é niilismo justamente aquilo
que Hirst se apressou a negar que fosse. Conforme Hirst, a prova de
que Darwin não é teleologia, é dada pela asserção de que na sua
teoria “a história da
vida na terra é apenas um caso definido da operação das leis da
seleção natural”.
Esse “apenas”
não poderia conter maior dose de niilismo em linguagem nietzschiana,
cuja tradução seria aquele
mecanicismo que Hirst
mesmo atribuiu à teoria de Darwin: “é
uma teoria geral do mecanismo
pelo qual as espécies se transformam e, diferentemente de uma
generalização histórica, não se limita a um conjunto dado de
transformações”.
A caracterização de
Morgan como uma História também é contraditória, posto que como
vimos, sustenta-se por uma lei do desenvolvimento mental. Uma vez que
a disposição é de “fases”, como se transcreve de Ancient
Society, o resultado é
à “Divina Providência” como a que se deve agradecer a
Civilização.
O ponto para Hirst é que isso implica que conforme
Morgan, poderia
não ter ocorrido esse resultado. O que Hirst não alcança é que o
determinante epistemologicamente é poder
subentender-se o
resultado como “nossa
presente condição, com os seus inúmeros meios de segurança e
felicidade”, sendo
devida “às lutas, aos
sofrimentos, aos esforços heroicos e à labuta manifesta de nossos
ancestrais bárbaros e, mais remotamente, selvagens”.
Nós hoje não compreendemos assim, pois não há continuidade como história evolutiva, de povos como os americanos e europeus.
E desde o pós-positivismo, da época de Nietzsche em diante, não se pode montar qualquer cadeia universal linear de progresso entre as várias culturas independentes conhecidas.
Ou seja, o problema desse
argumento de Hirst é ter confundido lei e plano, de modo que para ele se não
há um plano, então não há determinismo, quando por finalismo
devemos entender esse determinismo não possivelmente prognosticável
por um plano, mas derivando-se atual e exclusivamente pela atuação
da lei. Por essa ordem de ideias de Hirst, calcada no marxismo que devemos lembrar ter sido produzido inteiramente nos quadros da antropologia positivista, deduzir ou pressupor um plano seria a tarefa da execrada
“Metafísica”. Mas ignorar a atuação
determinista e
inescapável da lei, igualmente. Repetindo, o determinismo de que se trata está no próprio Marx, e consequentemente Hirst comunga dele. É o que se vê quando discorre sobre o de fato complexo tema da teoria social de Weber. A dificuldade sobre esse assunto se relaciona à ambiguidade inevitavelmente gerada pela noção que em Weber é axial, a Racionalidade. Mas como para Hirst e o marxismo, é impensável que a Racionalidade não seja o bem maior presente – naquele sentido “legitimado” do termo – torna-se nítida a captura dos seus argumentos pelo campo de diagnóstico proporcionado por Weber.
Contudo, o que espero mostrar é que o pós-positivismo não eliminou o discurso teleológico que assinala a modernidade ocidental como horizonte das sociedades humanas, por outro lado isso implicando um passado em relação ao ocidente que é o "primitivo" numa condição de oposição ao passado do ocidente.
3
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Pode ser que Morgan tenha sido mais sutil que Spencer foi ao se pronunciar sobre os "primitivos" nos termos citados por Hirst: “A traição e a índole vingativa que os bosquímanos ou os australianos revelam entre si e para com os europeus acompanham a inimizade permanente que existe entre eles e os habitantes das selvas”.
Mas se Morgan limita-se a demonstrar como de nenhum modo a condição diversa da civilização – cujo ápice é a modernidade ocidental – pode ser suposta mais do que inferior a ela, Marx é ainda mais direto que Spencer. Fala da “consciência de carneiro, tribal” que é a dos inícios do homem, “tão animal quanto a própria vida social desse estágio” - segundo a tradução de que disponho de A ideologia alemã ( Ianni O. Teorias da estratificação social: leituras de sociologia; capítulo 4, parte1; São Paulo, companhia editora nacional, 1978).
O primitivo segundo Marx é “simples consciência gregária”, e a diferença dele ao carneiro é apenas de que o primitivo pode ter lampejos de consciência, ainda que, como o carneiro, em si seja só instinto.
Hirst se indaga a
propósito, se as coisas são como Spencer diz, de como é que se
teria evoluído de um estado tão brutal ao da humanidade atual.
Acrescenta então que segundo Spencer “a
pressão populacional obriga o homem a melhorar a produtividade dos
meios de subsistência e a reduzir a fertilidade da espécie”.
A divisão de trabalho e a cooperação típicas da civilização são
os fatores de que resultam a produtividade. A influência de Malthus
é interpretada por Spencer como o fator da diferenciação
A ideologia alemã
nos informa, do mesmo modo, que “Esta
consciência de carneiro, tribal, recebe seu desenvolvimento e seu
aperfeiçoamento ulteriores com o aumento da produtividade, o aumento
das necessidades e o aumento da população que está na base dos
dois precedentes. Assim se desenvolve a divisão do trabalho...”
que a princípio foi sexual (entre homens e mulheres) e ao termo da
evolução se encontra entre “trabalho
material e intelectual.”
Aqui, segundo a anotação que a edição citada conserva, Marx
pensou o nascimento da ideologia : “coincide
a primeira forma dos ideólogos, padres”.
Particularmente a guerra é algo que a civilização detesta e o selvagem adora, na concepção de Spencer, o que se compreende se a cooperação é o índice do mais adaptado frente ao menos.
O instinto ou “natureza sanguinária e predatória” está na origem da humanidade que vai se transformar num homem civilizado que teria a maior relutância no morticínio:”ele tem prazer em ver prazer e sente dor em ver dor”, o que torna Spencer aproximável por Hirst ao utilitarismo.
Entre o menos e o mais adaptado, um óbvio juízo de valor subsiste: “A guerra, a selvageria dirigida pra fora por um grupo social, livra a Terra das raças inferiores”, finalidade a que segundo Hirst serviu a guerra nas fases intermédias da evolução. Se Hirst não menciona Comte, este é o prognóstico típico dele. Segundo Comte, o pai do positivismo em sentido estrito, o militarismo é a fase anterior ao cientificismo.
Marx e Engels, no texto que estamos examinando, intentam desmistificar a guerra no sentido de desvincular a explicação de sua existência de algum componente subjetivo. E de fato a “consciência de carneiro, tribal”, não o é, mas sim apenas decorrência da inexistência de relações sociais acima da mera gregaridade.
A guerra é já “uma forma normal de relações” decorrente da “necessidade de novos meios de produção” imperiosamente decretada pelo “crescimento da população”. Forma substituída sucessivamente pelo escravismo, pela servidão feudal e pelo trabalho assalariado na modernidade, segundo Marx e Engels.
Não obstante as diferenças,
o sedimentado pelo evolucionismo social em questão, de Spencer e
Marx, é a legitimação do presente
moderno-ocidental como telos (finalidade).
Essa base é duradoura, e na atualidade está subjacente a
toda discussão em torno do “desenvolvimento”,
termo que substituiu “progresso”
, este o que vinha desde o realismo do século XIX sendo mantido como
sinonímia de evolução social – assim como no dístico comteano
da bandeira brasileira (“Ordem e Progresso”).
Vemos que o termo
desenvolvimento só se afirma desde o horizonte da problemática de
diferenciação internacional gerada pelo imperialismo. O país é
desenvolvido não apenas se ele é “rico”, mas se ele não é
“dependente”. Ou seja, toda a problemática transcorre na
imanência do fato
econômico-tecnológico da modernidade ocidental, e vemos que é somente dessa base que se desdobram após Hegel e como críticas dele, as conceituações da transformação sócio-política correspondente, a emergência do Estado de direitos ("sociedade liberal")
As formas de dependência se
traduzem, porém, na teoria social corrente, não imediatamente pelas
formas imperialistas históricas de impedimento da independência da produção dos
países classificáveis “dependentes”. A classificação tende a
traduzir-se como “atraso”, de modo que as formas de dependência
pesquisadas o são a fim de que se identifiquem os componentes cuja
presença são os fatores internos
do “atraso”.
Por outro lado, não se fala no país desenvolvido como “normal”
- se ele é o oposto do país “atrasado”. E sim deles como países
“avançados”.
Ao longo do predomínio do positivismo, essa mesma
estruturação “epistemológica” esteve atuante, apenas muito
simplificadamente, pois não se precisava pesquisar para definir o
fator interno do atraso. Pela própria lei do progresso social, esse
fator eram os primitivos e os miscigenados entre nós. O outro
determinante do equacionamento da diferenciação moderno-ocidental,
além da redução geral do suplemento ao atraso, é a identificação
do governo suplementar como uma instância atribuída de uma tarefa
única, a de prover o plano da superação do atraso.
O plano em si não é o
governo que supre, se sua concepção deriva da natureza mesma do que
é o atraso. O governo tem apenas que fornecer os meios materiais de
execução do plano. O governo não é, assim, a garantia da legalidade e da cidadania como resultante impensável não já consubstanciado e como se desde sempre, da natureza da composição social local. Cada governo vai iniciar a legalidade, a partir do plano de cópia do processo desenvolvido - burguês ou marxista.
Por exemplo, à época do Positivismo, o fator do atraso
significava a matriz étnica, o não-branco, o não-europeu. O plano
só podia já estar compactado como a eliminação dessa matriz, mas
os meios é que o governo local primeiro-republicano devia forjar.
Antes da República não havia mentalidade de governo propriamente
nacional, o Império era o atravessador entre a Inglaterra
exportadora de manufaturados e as classes latifundiárias que a
serviam de matérias-primas. Sua incumbência era, portanto, evitar a
formação da grande manufatura local.
A política primeiro-republicana de atração de
imigrantes europeus foi o meio universalmente consagrado. Já a
consideração do papel da educação da matriz étnica não-europeia
não obteve qualquer consenso, sendo geralmente mais habitual, não
obstante, a posição de que essa matriz seria incoativa aos
investimentos nesse sentido.
Era um fator de inércia que
só o branqueamento progressivo por via da imigração, com
eliminação progressiva do não-branco, especialmente dos miscigenados, iria poder superar. A
imigração trouxe o marxismo militante em inícios do século XX, e
como o estudo de Konder (“A derrota da dialética” ) registrou,
essa interpretação habitual aqui é também a que os primeiros
marxistas fizeram.
Eles consideraram o elemento miscigenado o “mestiço moral” incapaz de valores éticos e objetividade coerentes com a Racionalidade. Condenavam especialmente o que consideravam tendências lascivas – a frequência a bailes, a expressão da sexualidade. Com isso, anteciparam de algumas décadas o que W. Reich (“A revolução sexual”) descreveu como a trajetória da política sexual na URSS desde os tempos libertários da Revolução ao fechamento conservador dos comitês encarregados do controle de moldagem do comportamento sexual das massas conforme o que se decidisse ser o interesse estatal, e da produção de instituições sociais que atuassem esse controle (propaganda, orientação médica, mecanismos de desincentivo, etc.).
Eles consideraram o elemento miscigenado o “mestiço moral” incapaz de valores éticos e objetividade coerentes com a Racionalidade. Condenavam especialmente o que consideravam tendências lascivas – a frequência a bailes, a expressão da sexualidade. Com isso, anteciparam de algumas décadas o que W. Reich (“A revolução sexual”) descreveu como a trajetória da política sexual na URSS desde os tempos libertários da Revolução ao fechamento conservador dos comitês encarregados do controle de moldagem do comportamento sexual das massas conforme o que se decidisse ser o interesse estatal, e da produção de instituições sociais que atuassem esse controle (propaganda, orientação médica, mecanismos de desincentivo, etc.).
Essa conjugação insólita
de caráter
moral e característica racial é o que se pode atrelar sem dúvida
ao realismo-positivismo como um cenário de predominância de
concepções científicas que emergem tipicamente da transição de
Lamarck a Darwin, isto é, de um transformismo que independe de leis
formalmente autônomas podendo ser explicado pela
ação, a um
evolucionismo que se estrutura unicamente como a elucidação dessas
leis.
A confusão de Hirst me parece dever-se a uma tematização insuficiente do cenário transformista
pré-darwinista: “Darwin
não apenas introduziu a noção de modificação evolucionista em
uma morfologia até então estática – ele destruiu essa morfologia
e a concepção das espécies que nela se baseava”.
Mas há um interregno bastante rico em termos teóricos, entre a concepção de “natureza como uma entidade consumada, cujos elementos estavam todos unidos entre si, constituindo o todo” que conceitua bastante bem o cenário fixista, e o darwinismo. Esse interregno é o Romantismo e na atualidade a problemática retorna a alguns dos seus aspectos, pela superação do percurso único meio-indivíduo característico do determinismo darwinista.
O Romantismo é o ambiente de interpretação desse real perfeitamente insólito - e impensável - para toda longa trajetória da Metafísica, a saber, da ação imanente à natureza. Não existe essa ação pensável desde o Realismo-positivismo, pois ela foi deslocada pela lei como objeto da ciência a explicar toda aparência de “história”, toda aparência de ação imanente existente por si.
Mas há um interregno bastante rico em termos teóricos, entre a concepção de “natureza como uma entidade consumada, cujos elementos estavam todos unidos entre si, constituindo o todo” que conceitua bastante bem o cenário fixista, e o darwinismo. Esse interregno é o Romantismo e na atualidade a problemática retorna a alguns dos seus aspectos, pela superação do percurso único meio-indivíduo característico do determinismo darwinista.
O Romantismo é o ambiente de interpretação desse real perfeitamente insólito - e impensável - para toda longa trajetória da Metafísica, a saber, da ação imanente à natureza. Não existe essa ação pensável desde o Realismo-positivismo, pois ela foi deslocada pela lei como objeto da ciência a explicar toda aparência de “história”, toda aparência de ação imanente existente por si.
Em contrapartida, Hirst não apreende a mudança das
concepções científicas que instauram o cenário ulterior ao
realismo-positivismo, e onde vem a emergir a teorização de Weber.
Aqui é justamente a conexão de caráter – seja algo intrínseco à
natureza do ente num estágio evolutivo (Spencer), seja algo derivado
unicamente do estágio da “inteligência pública” ou “social”
(Marx; Morgan) – e característica biológica, o que se torna
inviável em função estritamente das ciências especializadas.
A problemática da
diferenciação moderno-ocidental foi assim inteiramente
transformada desde o pós-positivismo, na transição ao século XX. Mas não a ponto de elidir o a priori de sua
instauração. Para o bem ou para o mal, com exceção de Nietzsche
que expressamente quis posicionar-se além de ambos, um presente
continuava legitimado como ulterioridade a todo outro conhecido fato
humano, o presente moderno-ocidental.
Ora, o marxismo como uma interpretação desse presente em
termos transitivos em vez de definitivos, não seria a novidade que
foi se essa transição não fosse por ele explicada em vez de apenas
algo possível mas indefinido, como em Morgan. Mas se ele deveria
transformar-se a si mesmo ao equacionar as transformações epistêmicas, na
verdade o que assistimos, ao par de sua grande expansão e
pluralidade de tendências resultante, são recusas desse
equacionamento e formas expressas dessa recusa.
Como já assinalei, o ponto
chave da transformação em humanities
é o que incide sobre a mudança na concepção de Racionalidade –
e já é assim desde Nietzsche. Aquilatar a extensão dessa mudança
é bastante complexo pois implica não só a consideração de cada
foco, dentre os inúmeros em que se expressa, e especialmente é o
caso da sociologia compreensiva e Weber, mas também de uma ruptura
muito profunda e abrangente que se designa geralmente como a
“linguistic turn”: emergência do pragmatismo a partir de Peirce, da lógica simbólica como em Boole, e da linguística saussuriana.
Por um lado, declínio do Ocidente e crítica da Razão ante-linguística; por outro, novo contexto teórico-revolucionário ocidental, o dessa estrutura ou linguagem, com poderes universalizante-explicativos muito maiores do que jamais se apresentara.
Por um lado, declínio do Ocidente e crítica da Razão ante-linguística; por outro, novo contexto teórico-revolucionário ocidental, o dessa estrutura ou linguagem, com poderes universalizante-explicativos muito maiores do que jamais se apresentara.
Nesse ponto convém mostrar como
o marxismo contorna essas implicações para manter-se como a opção
racionalizante da ocidentalização
ou modernização
objetivadas em termos do processo ininterrupto de alinhamento
internacional desde o Romantismo (início do século XIX). A seguir
tornamos a esse ponto de ruptura para desenvolver os focos
importantes e especialmente tratar a sociologia de Weber.
===============
Mas Lacoste está salientando que a condição de não industrialização ou de fraca industrialização não é mais aplicável ao terceiro mundo. Assim é interessante que nessa tacada ele expressamente esteja ao mesmo tempo atingindo análises weberianas e marxistas, porque a sociedade pouco ou não-industrializada tenderia a ser em todo caso caracterizada como a “tradicional” da classificação da sociologia compreensiva weberiana.
Mas o resultado a que chega é um tanto dúbio, posto que Lacoste não se descarta afinal da terminologia do subdesenvolvimento. Ele circula a alternativa de “crise dialética” para “o que é (o que se convencionou chamar) o subdesenvolvimento”, mas não substitui uma coisa por outra e o texto continua a grafar “subdesenvolvimento”.
Na verdade, ele está mais acentuando o caráter problemático e contraditório da matéria do que tencionando apresentá-la como algo já solúvel – o processo mesmo da modernização é contraditório e no terceiro mundo isso apenas se acentua. Não deixa, porém, de proporcionar um viés que julga pertinente na condução da problemática e é nisso que se antagoniza ao que posiciona como o dos marxistas.
Podemos ver que os marxismos estão, contudo, cindidos quanto a esse problema e a posição de Lacoste não se afasta muito de um dos lados dessa cisão. A evidenciação dessa cisão é factível pelo contraste de leituras da história brasileira recente, como entre por um lado Werneck Sodré e um certo consenso dos manuais escolares, e por outro lado apresentações como de Paul Singer e Warren Dean.
Pois, como me parece historicamente substancial, há de fato um “fracasso do imperialismo do século XIX” - que traduzo como fim do capitalismo clássico europeu – podendo ser postulado a partir da emergência do neocapitalismo norte-americano com seu imperialismo peculiar e irredutível ao europeu.
Ora, a questão é justamente a democracia como o que Weber está afirmando inviável ou colocando em questão como tal, pelos a prioris sociais decorrentes não diretamente da economia capitalista, mas do processo histórico em que uma economia de tipo capitalista – que Weber define erradamente a meu ver, como de livre empresa no sentido de não entravada pelos a prioris sociais tradicionais patrimoniais– tornou-se ela mesma também possível.
Tanto Weber quanto Marx me parecem terem se enganado nisso, posto que a livre empresa de inícios do século XIX realmente nada tem a ver com o capitalismo neocolonial-monopolista de princípios do século XX, muito menos com o neocapitalismo norte-americano que se desdobra na "globalização" mundializando-se.
Mas se o conceito de democracia, como governo representativo, fosse apenas um poder de imposição indiscriminada da vontade da maioria sobre o indivíduo, como parece supor Hirst, então não teríamos nada mais que o conceito de fascismo.
Não é outra coisa que um poder de controle sobre os sujeitos, o que vemos ser defendido por Samir Thabet como o fator necessário à superação do atraso do terceiro-mundo, como o que os governos dos países dependentes deveriam prover.
Ao exigir “uma maciça campanha publicitária” que possa usar “todos os meios de comunicação e todas as vantagens da tecnologia” a fim de convencer da necessidade de que o sistema educacional seja mudado a fim de se tornar técno-científico, Thabet salienta não tratar-se apenas do que deve positivamente se tornar constante nos currículos. Trata-se também do que se deve coibir. “A atitude científica precisa ser incutida num primeiro estágio, ao invés de encorajar-se uma perspectiva poética, literária e sonhadora da realidade. Nossa juventude precisa aprender a ser exata, firme e criteriosa”.
E do mesmo modo, um estilo textual ou poético ligeiro e expressivo não autoriza ilações de que a personalidade do autor é nervosa ou arrojada. Apenas autoriza deduzir suas informações estéticas e suas opções culturais e sócio-políticas por sua vez relacionadas às suas informações e inserção históricas.
A
posição do marxismo com relação à arena da modernização, o
mundo do subdesenvolvimento, não é facilmente definida.
Não obstante, há um
consenso expandido a propósito do “desenvolvimento” que podemos
rastrear intocado desde as expectativas sociológicas marxistas.
“Os países
subdesenvolvidos”, de
Yvez Lacoste (ed.Difel), tenciona preliminarmente relativizar a
dicotomia entre o desenvolvimento e sua insuficiência. Mostra que há
vários conceitos de subdesenvolvimento, mas nenhum deles é
plenamente coerente com a realidade à época da guerra fria. Quando
se trata do conceito na sua versão marxista segundo Lacoste, tende a
definir-se como decorrência da exploração colonial e neocolonial
de modo que seriam os “mecanismos”
da “troca desigual”
o que impediria a industrialização dos países do terceiro mundo.
Mas Lacoste está salientando que a condição de não industrialização ou de fraca industrialização não é mais aplicável ao terceiro mundo. Assim é interessante que nessa tacada ele expressamente esteja ao mesmo tempo atingindo análises weberianas e marxistas, porque a sociedade pouco ou não-industrializada tenderia a ser em todo caso caracterizada como a “tradicional” da classificação da sociologia compreensiva weberiana.
Mas o resultado a que chega é um tanto dúbio, posto que Lacoste não se descarta afinal da terminologia do subdesenvolvimento. Ele circula a alternativa de “crise dialética” para “o que é (o que se convencionou chamar) o subdesenvolvimento”, mas não substitui uma coisa por outra e o texto continua a grafar “subdesenvolvimento”.
Na verdade, ele está mais acentuando o caráter problemático e contraditório da matéria do que tencionando apresentá-la como algo já solúvel – o processo mesmo da modernização é contraditório e no terceiro mundo isso apenas se acentua. Não deixa, porém, de proporcionar um viés que julga pertinente na condução da problemática e é nisso que se antagoniza ao que posiciona como o dos marxistas.
Podemos ver que os marxismos estão, contudo, cindidos quanto a esse problema e a posição de Lacoste não se afasta muito de um dos lados dessa cisão. A evidenciação dessa cisão é factível pelo contraste de leituras da história brasileira recente, como entre por um lado Werneck Sodré e um certo consenso dos manuais escolares, e por outro lado apresentações como de Paul Singer e Warren Dean.
Por esse viés de Lacoste,
não seria numa abrangência planetária ou internacional (“de
país para país”), ou
seja, na configuração da troca desigual, que se iria compreender a
problemática política da modernização no terceiro mundo, pelo
motivo mesmo que impede supor haver aí uma condição de ausência
de indústria. A industrialização de fato já está em adiantado
estágio no terceiro mundo, mas ela foi feita pela penetração de
poderosas firmas multinacionais por meio de alianças formadas com
minorias autóctones que assim obtiveram um papel de dominação
sobre o restante da população contra cujos interesses a
industrialização foi feita, já que esta se ordena somente segundo
os interesses das multinacionais.
Se é assim, o ataque à condição de subdesenvolvimento
não é uma luta contra algo vago demais chamado capitalismo, mas
contra um imperialismo concretamente aparelhado pelas grandes firmas
atuantes em cada Estado por meio da pseudo-representação daquelas
minorias autóctones. É em cada Estado, conforme suas condições
nacionais estritas -históricas, econômicas, populacionais, etc. -
que a luta deve se empreender, não numa escala planetária. Até por
que, entre os tópicos de crítica às noções que se amontoam por
detrás da palavra “subdesenvolvimento”, está a evidenciação de
que se tratam de países cujas realidades são muito diferentes entre
si para formar um todo homogêneo como base de uma luta comum, segundo Lacoste.
A meu ver a esse exame
teríamos que acrescentar os acontecimentos que transformaram o
problema do terceiro mundo num item a mais na agenda da problemática
ecológica planetária – como se poderia equacionar pela referência
aos encontros que se sucedem desde a posição do empresariado agremiado no Clube de Roma, onde o
desenvolvimento tornou-se função de uma demanda energética que não
pode ser mundialmente
suprida, e assim na posição desse empresariado primeiro-mundista, deveria ser formalmente sustado para os países que ainda não o
haviam atingido.
A polarização dos representantes destes países - ainda não desenvolvidos - em torno da opinião contrária
ao Clube de Roma é ao mesmo tempo bastante compreensível, porque nós precisamos nos desenvolver já que nossas sociedades não estão mais organizadas como antes da colonização; e performática da impossibilidade da teleologia que estamos conceituando, posto que o limite ecológico não pode realmente ser ignorado por uma pretensão qualquer.
Entre as duas pontas do dilema do terceiro mundo, encena-se o discurso do primitivo como redução das histórias localizadas a meros capítulos da grande narrativa designada "progresso" (desenvolvimento tecnológico/civilização). O pós-moderno é um cenário em que a narrativa está desfeita, mas a recusa da confrontação dessa realidade tem vários aspectos incontornáveis, cuja contradição precisa sempre mais ser tematizada.
Vejamos o contraste da apresentação de Lacoste com aquela de
Paul Singer ("Economia
política da urbanização"),
onde, pelo contrário, a disposição da penetração multinacional
no terceiro mundo – como citado de Castells e de Quijano – no
cenário da guerra fria, é criticada exatamente como algo
sustentável em função de um contraste com o que seria a
industrialização nacional.
Singer, quanto a isso,
repete o que vemos com Warren Dean (A
industrialização de São Paulo, ed. Bertrand, 1991).
O que ambos tencionam é desconstruir as conhecidas versões de
alguma divergência profunda de interesses entre empresariado local e
internacional.
Pelo contrário, esses
interesses seriam maximamente convergentes, segundo eles, tratando-se sempre de
capitalistas. Se
houvesse “efeitos
disruptores”
provenientes do “capitalismo
em si” presentificado
pelos monopólios internacionais, por que eles seriam desencadeados
somente no terceiro mundo, e não nas potências centrais de onde
eles provém?
Ambos não colocam o problema social da diferenciação
local de um grupo autóctone mas internacionalmente alinhado contra o resto da população.
Pensam que em todo caso, o capitalismo é essa mesma estrutura
conflitiva de classes, sem perceber que no Centro a estrutura resulta na
“emancipação' como na mobilidade social, e na margem,
inversamente, resulta no imobilismo social e na proliferação de
dispositivos de impedimento da “emancipação”, não obstante o
discurso do alinhamento como acesso possível a ela, futuramente, ou
seja, como condição de superação do “atraso”.
Mas de que forma a indústria
nacional não era capitalista, antes da penetração dos monopólios,
admitindo que houvéssemos tido algo assim à época das duas grandes
guerras, favorecidos pela neutralização da indústria europeia
devido a elas? Sendo-o indubitavelmente, não há como explicar,
segundo Singer, porque os efeitos disruptores não deveriam decorrer
também de um capitalismo nacional. Pois a
causa segundo ele é que todas as
decisões dos capitalistas obecedem
a uma estratégia de mercado, não
sendo relacionável a preocupações sociais.
O que me parece importante é
que não obstante as divergências que assinalam o caráter lacunar
do saber histórico recente na margem - ainda não é generalizada a
concepção de Dreyfuss sobre o golpe militar dos sixties como intervenção historicamente
documentada dos Eua -
em todo caso trata-se da modernização como o que se deveria obter,
ainda que tornando-a isenta das características indesejáveis, do
capitalismo em si e/ou da dominação imperialista.
Mas o elo
profundo entre ambos é o que fica ambíguo, como se pode demonstrar
mais ainda por uma posição como a de Dean e Singer. Pois,
criticando o capitalismo em si, não se o define senão como
estratégia de mercado e no entanto não há possibilidade dessa
estratégia na escala em que ela se objetiva, para ser mais que
apenas “livre empresa”, sem a consequência dela ser
internacional e
assimétrica - criando necessariamente uma margem a partir de um processo historicizado do capitalismo central, o capital fundador, de onde se difunde o processo de modernização planetário. Aí o elo com a tecnologia, a ciência, a modernização do Estado, como decorrentes de uma história somente ocideental, se torna o conteúdo material do discurso teleológico.
Por exemplo, Dean encena o
insipiente industrial paulista de inícios do século XX, um sujeito isolado tentando idilicamente obter
informação sobre o que precisa para tornar-se fabricante de tubos
de dentifrício. Essa imagem folclórica obviamente nada tem a ver
com o fabricante inglês do século XIX, cujo governo estava, pouco mais de cinquenta
anos antes que o paulista citado, promovendo a guerra do Paraguai para
garantir-lhe o mercado comprador em grande escala, conforme
o estudo de Leon Pommer que registra a documentação diplomática
inglesa a propósito do seu juízo desfavorável sobre o
desenvolvimento da industrialização paraguaia em função dos
interesses dos industriais britânicos.
Esse fabricante europeu
servido abundantemente pela tecnologia, igualmente em grande escala,
no ramo dos bens de produção (máquinas e utensílios), e agindo
desde essa época com vistas ao domínio de mercado (cartelização),
nunca um sujeito agindo isoladamente, era portanto assistido por um governo que não agia sobre a sociedade local, mas como agente do imperialismo internacional do capital que, uma vez garantido seu mercado externo, agiria livremente, não por qualquer plano de governo.
O aventureirismo do sujeito
isolado pertence, na Europa, ao cenário ante-capitalista da empresa
colonialista –
portanto, mesmo sendo
aventureiro, tendo uma perspectiva de exploração no terceiro mundo
e por isso não restrito à limitação de um mercado comprador
local, mas articulado ao grande capital associado de empresas de
exploração de matérias-primas em grande escala.
Assim, estudando “O
mundo atual”, Pierre
George é mais abrangente ao falar de “proletarização
dos fabricantes” do
terceiro mundo, o
que extrapola consideravelmente tanto os quadros explicativos de Marx
quanto os de Weber. Pois, como me parece historicamente substancial, há de fato um “fracasso do imperialismo do século XIX” - que traduzo como fim do capitalismo clássico europeu – podendo ser postulado a partir da emergência do neocapitalismo norte-americano com seu imperialismo peculiar e irredutível ao europeu.
Ora, é a característica
da irredutibilidade em questão que vemos como o ponto polêmico
acima apontado, portanto o que se torna esclarecido pelo exame do
neocapitalismo: multinacional, mas não “monopolista” como
tipicamente a empresa europeia do século XIX. Seria um capitalismo
tecnológico, que independe de haver ou não a posse
de territórios ou de unidades de produção no terceiro mundo, a
divisão do trabalho opera entre a produção de
produtos e de processos
de fabricação. O domínio da produção de processos tende a ser
conjuntamente o da invenção
dos produtos.
Há assim, por outro lado, a geração de um
capitalismo subalterno na margem, cujo fenômeno é o que reconstitui a
problemática do terceiro mundo numa abrangência irredutível à que
poderia ceder as teorias calcadas na modelização do capitalismo
clássico europeu.
Nesse ponto é mais oportuno
deter-se não tanto na diferenciação do capitalismo
norte-americano, mas no consenso geral da modernização como a
priori de
desenvolvimento. É assim que encontramos um mesmo discurso, em Hirst
e em Samir Thabet cuja temática no entanto é precisamente a
dependência tecnológica do terceiro mundo.
Ao criticar Weber por ter contrastado a capacidade
imediata de realização do homem às exigências altamente
especializadas das burocracias, Hirst argumentou que isso não
impediria a princípio que as massas fossem o sujeito beneficiado da
produção convertida de capitalista em socialista, assim como o
regime o seria de uma gestão administrativa cega a uma democracia
plena.
Ora, a questão é justamente a democracia como o que Weber está afirmando inviável ou colocando em questão como tal, pelos a prioris sociais decorrentes não diretamente da economia capitalista, mas do processo histórico em que uma economia de tipo capitalista – que Weber define erradamente a meu ver, como de livre empresa no sentido de não entravada pelos a prioris sociais tradicionais patrimoniais– tornou-se ela mesma também possível.
Tanto Weber quanto Marx me parecem terem se enganado nisso, posto que a livre empresa de inícios do século XIX realmente nada tem a ver com o capitalismo neocolonial-monopolista de princípios do século XX, muito menos com o neocapitalismo norte-americano que se desdobra na "globalização" mundializando-se.
O argumento de Hirst é
então que “ a ideia de
que a instrução popular poderia proporcionar a todo operário um
diploma em algum ramos de engenharia, ou que uma sociedade socialista
poderia compelir burocratas e professores de Heidelberg a fazerem
trabalho manual e aceitarem salários de operários nunca passou pela
cabeça de Weber.”
Mas é exatamente
esse tipo de controle
obviamente
anti-democrático porque totalmente alheio às decisões pessoais dos
assim compelidos –
porque o operário não
pode escolher livremente um diploma de outra especialização que não
tecnologicamente
relacionada - o
que Weber asseverou ser o esperável do estado de coisas
pós-tradicional onde se dão conjuntamente a produção capitalista
e as gestões sócio-administrativas burocráticas. Ou seja, para Weber, a propaganda pela qual o primitivo como tradição - onde o sujeito não pode ser senão o que lhe predetermina a sociedade - teria sido superado pela sociedade industrial e democrática, seria falacioso, porque é contraditório a noção de democracia com burocracia industrial.Mas se o conceito de democracia, como governo representativo, fosse apenas um poder de imposição indiscriminada da vontade da maioria sobre o indivíduo, como parece supor Hirst, então não teríamos nada mais que o conceito de fascismo.
Não é outra coisa que um poder de controle sobre os sujeitos, o que vemos ser defendido por Samir Thabet como o fator necessário à superação do atraso do terceiro-mundo, como o que os governos dos países dependentes deveriam prover.
Ao exigir “uma maciça campanha publicitária” que possa usar “todos os meios de comunicação e todas as vantagens da tecnologia” a fim de convencer da necessidade de que o sistema educacional seja mudado a fim de se tornar técno-científico, Thabet salienta não tratar-se apenas do que deve positivamente se tornar constante nos currículos. Trata-se também do que se deve coibir. “A atitude científica precisa ser incutida num primeiro estágio, ao invés de encorajar-se uma perspectiva poética, literária e sonhadora da realidade. Nossa juventude precisa aprender a ser exata, firme e criteriosa”.
Nessas colocações de
Hirst e Thabet, o espantoso é o modo como se pensa identicamente
coisas tão irredutíveis quanto exigências puramente técnicas,
funcionais a uma instituição, como estudar certas matérias
relativas a uma formação ou aceitar valores salariais; e escolhas
condicionadas por fatores inevitavelmente subjetivos, como “ser
engenheiro” ou ter uma personalidade adequada a um estereótipo
do que é o “cientista”
- totalmente defasado em relação aos cientistas reais de hoje, como
Prigogine, Feyerabend ou Feynman, que inversamente, tem uma imagem
sonhadora, poética, humorística.
O paradigma de Thabet mostra-se defasado em relação ao
enfático investimento na mudança da imagem dogmática da ciência,
desde os anos setenta. Mas é o que temos visto constantemente repetido no discurso do atual governo brasileiro - como tenho constatado no PCN (parâmetros curriculares nacionais)para a filosofia do segundo grau, e nos textos que compõem provas de Enade.
Quanto a Feynnam, esteve no Brasil onde se pôs
a criticar, a pedidos, os manuais de física escolares,
considerando-os com erros e pouco sistemáticos na exposição dos
assuntos. Sua impressão subjetiva – conforme a auto-biografia –
foi de que toda a imagem da ciência estava algo
errada.
A questão não é filosófica a ponto de termos que
decidir se há ou não “Sujeito” substancial. Mas já está bem
demonstrado que nem todos tem as mesmas tendências ou possibilidades
intrínsecas de performances intelectuais. Não há possibilidade de
se induzir performances num sujeito desprovido das estruturas
necessárias a serem desenvolvidas. Não há qualquer demonstração
de que o acesso a estímulos estéticos interfere com o
desenvolvimento mental, ao contrário, a ausência deles trai
ambientes onde não há por outro lado compreensão adequada do
desenvolvimento cognitivo.
Não há relação de traços de personalidade com performance intelectual.
Não há como se munir de antemão do conhecimento de
que performances criativas implicam ou inibem aquelas performances
formalmente associadas com o raciocínio. É errado tentar deduzir de
resultados condicionados por fatores de formação estruturais,
traços de personalidade. O desenho das crianças, por exemplo, está
condicionado por limites bem precisos de sua coordenação, assim
como o de um adulto o estaria pelos seus conhecimentos técnicos ou
engajamentos programático-estilísticos. Nada tendo a ver com a
personalidade deles. E do mesmo modo, um estilo textual ou poético ligeiro e expressivo não autoriza ilações de que a personalidade do autor é nervosa ou arrojada. Apenas autoriza deduzir suas informações estéticas e suas opções culturais e sócio-políticas por sua vez relacionadas às suas informações e inserção históricas.
Não há como garantir que apenas a posse das estruturas
mentais necessárias, e o consequente exercício profissional do que
condicionam, proporcione ao sujeito mais do que um desempenho
medíocre e insatisfatório, neurotizando-o, quando outros tipos de
ocupação o fariam mais produtivo e feliz consigo mesmo.
Uma sociedade só de engenheiros é um ideal tão fantasioso
quanto a suposição de que há algum nexo necessário e constante
entre personalidade e capacidade cognitiva. E se todos os operários
tem diplomas de engenheiro, onde é que se iriam obter quaisquer
outro tipo de profissionais? Uma fantasia indesejável, na verdade,
pois seria a de uma sociedade isenta de capacidades estéticas e
criticas, à exemplo daquela que impediu todo tipo de experimentação
artística (URSS) como uma questão de Estado.
É óbvio que os salários
valem pelo
que se pode obter com eles num meio social dado, não por sua
quantidade abstrata –
como Hume já demonstrara como a verdade do dinheiro. Numa sociedade
em que salários equivalentes proporcionam acesso satisfatório comum
aos bens circulantes não suscita o problema da diferença de status.
E se estão implementando cursos de ciências da natureza, esperam-se
as disciplinas correspondentes. Mas nada disso tem a ver com as
opções existenciais, profissionais ou afetivas. É a incapacidade
de discernir o que há de irredutível entre essas esferas decisórias
que me parece assustadora, mas bastante coerente com a índole da
modernização industrial-ocidental, e não apenas uma propriedade
peculiar ao marxismo que apenas, assim, perde a atribuição de ser
uma verdadeira crítica social.
Que diferença crucial pode
haver entre algo como o projeto camelô – onde a cia pre-escreveria
os textos didáticos do país dependente – e a censura estatal
marxista, onde poesia ou artes plásticas estão previamente
dispostas quanto aos resultados que podem apresentar conforme os
modelos clássicos veiculados pelas listas oficiais? Mas o que
determina a ambos, senão a preminência da produção -já
“tecnológica” - como redutor de todo sentido da vida humana?
Essa ciência da natureza e essa tecnologia foram, como vimos,
estereotipadas. A genética não pode ser desenvolvida no tempo do
stalinismo, porque não se coadunava com a premissa da dialética
aplicada à “natureza”.
A diferença restaria apenas no fato de que da parte dos
Eua a censura é muito explicitamente etnocêntrica, feita sobre as
margens que se explora e por isso domina, mas num mundo marxista ela
seria constitutiva de toda concepção socialmente
integradora. Foi a conclusão que os intelectuais de esquerda nas
margens decepcionadas pela irrupção ditatorial como pela estreiteza
de uma esquerda condicionada pelo estereotipado desenvolvimentismo, tiveram que
deduzir, como se constata por alguns textos típicos da década de
setenta, como os do círculo de Paulo Francis. Na Europa,
especialmente Antonio Liehm estudou o processo da burocratização social
pós-estalinista como um novo cenário de expurgo da capacidade
crítica.
É certo que Hirst critica o
marxismo ortodoxo, e exemplarmente o soviético, mas nada do que
apresenta na sua defesa do marxismo contra Weber poderia evitar o que
ocorreu na Russia. Aliás, é curioso que ao se jogar Marx contra
Stalin, fale-se usual e condenatoriamente de “marxismo ortodoxo”
quando o que se quer com
isso é referenciar um “marxismo” que distorce a intenção
original de Marx. Podemos assim conceder mais razão à letra.
O texto de Marx é bem
coerente com sua “ortodoxia”,
especialmente na sua defasagem histórica em relação às
problemáticas atualmente conhecidas - psicológica e
epistemológica, tanto quanto às exigências reais das burocracias
técnicas e administrativas - e tentar obscurecer esse fato acarreta
incoerência manifesta ou se deduz de informação falsa e
insuficiente. Essas problemáticas, porém, tornam-se conhecidas no
devir da própria modernização
ocidental, e do ponto de
vista da dominação cultural sobre o não-”ocidental”, que
estamos constatando estrutural a esse devir, elas são fatores
entrelaçados, o que posiciona a ciência (“humana”) num locus de
permanente crítica, mas não generalizadamente, e sim a crítica
situada como análise do discurso do “ocidente”, o que se
estrutura em função do não-ocidental.
Escusado lembrar que isso
não implica estar numa posição “foucaultiana”, isto é,
posicionando-se fora das ciências humanas por uma redução
epistemológica de todas elas ao um
da Representação. Justamente elas não representam o Homem, e sim
problematizam a diferença instaurada a partir do próprio campo do
seu Saber. Não estão
de forma alguma indiferentes ao fato cultural desse Saber como
exclusivamente Ocidental, o que é uma falácia, uma paralogia, pois o que estrutura tal Saber como grandes narrativas do progresso - positivismo, funcionalismo, estruturalismo - é o conteúdo assim designado da alteridade ao ocidente, o primitivo.
O que descobrimos até aqui
é que não há um, mas vários acessos ao discurso – como o que
diferencia o positivismo do cenário posterior weberiano, por
exemplo. Se a história como ciência expressa a formação egológica
do ocidente contemporâneo – que pode se posicionar como um ego da
história da civilização frente ao que assim se torna ou se
conceitua como o desprovido de “história” situado ao invés, na oralidade do mito - a sociologia com que
irrompe o positivismo e o cenário funcionalista que o sucede são
mais duas formas de discursos geo-egológicos que devemos, assim
situados, examinar.
==========
Ampliando a apresentação do contraste dos pontos de vista sobre a industrialização brasileira, vimos que para uma ala da esquerda, o cenário nacional podendo exemplificar com o encaminhamento de Werneck Sodré, que tem sido em geral a orientação dos manuais de história dos secundaristas, esse é um processo nacionalista.
Isso se deve a que a ruptura local não poderia ser para com uma feudalidade aqui jamais existente, mas sim para com o latifúndio articulado ao imperialismo.
O assim designado imperialismo como dominação econômica da margem pelo centro, transforma toda economia local num artigo de exportação único, barato como matéria-prima, à exemplo do café brasileiro, em troca do compromisso de uma potência central comprar regularmente esse produto. Em troca, o mercado da consumação local absorve os manufaturados (industrializados) caros dessa potência – aqui tendo sido o papel tipicamente da Inglaterra, após a independência, isto é, ao longo do século XIX.
A questão da industrialização local é historicamente reconstruída como a luta de um setor progressista-urbanizante contra essa junção de interesse internacional-progressista e interesse local retrógrado-latifundiário. O progressismo urbanizante só poderia portanto, ser ao mesmo tempo a construção de uma nacionalidade e de uma cultura nacional. O retrógrado latifundiário é a redução local à dominação cultural do Centro e os interessados na urbanização atrapalham os planos do latifúndio.
Ampliando a apresentação do contraste dos pontos de vista sobre a industrialização brasileira, vimos que para uma ala da esquerda, o cenário nacional podendo exemplificar com o encaminhamento de Werneck Sodré, que tem sido em geral a orientação dos manuais de história dos secundaristas, esse é um processo nacionalista.
Isso se deve a que a ruptura local não poderia ser para com uma feudalidade aqui jamais existente, mas sim para com o latifúndio articulado ao imperialismo.
O assim designado imperialismo como dominação econômica da margem pelo centro, transforma toda economia local num artigo de exportação único, barato como matéria-prima, à exemplo do café brasileiro, em troca do compromisso de uma potência central comprar regularmente esse produto. Em troca, o mercado da consumação local absorve os manufaturados (industrializados) caros dessa potência – aqui tendo sido o papel tipicamente da Inglaterra, após a independência, isto é, ao longo do século XIX.
A questão da industrialização local é historicamente reconstruída como a luta de um setor progressista-urbanizante contra essa junção de interesse internacional-progressista e interesse local retrógrado-latifundiário. O progressismo urbanizante só poderia portanto, ser ao mesmo tempo a construção de uma nacionalidade e de uma cultura nacional. O retrógrado latifundiário é a redução local à dominação cultural do Centro e os interessados na urbanização atrapalham os planos do latifúndio.
Outra ala da esquerda, como
em Paul Singer e Warren Dean, pelo contrário, como vimos, afirma que não há
cisão de interesses do insipiente empresariado local e classe
latifundiária. Como Frederick Jameson, pensam que uma revolução nacionalista
progressista na base dessa oposição é um erro político do país
pós-colonial, e que a revolução burguesa tem que ser conduzida
como na Europa, em bases que possam ser descritas por uma perspectiva
exclusivamente econômica.
Para esse pensamento, não há algo como
“problemas brasileiros”. Todos os conflitos decorrentes da
transição e afirmação plena da revolução burguesa, definição
de capitalismo, não seriam singulares, mas generalizados tais como
os conflitos urbanos estudados em Singer. Seriam tais como os
conceituados em estudos da cidade capitalista qualquer. Há como em
todo processo capitalístico, a oposição campo-cidade, mas ela não
é personificada por duas classes de interesses comerciais
antagônicos, e sim por uma classe heterogênea composta por todos os
interesses ligados à livre empresa, e uma aristocracia fundiária
cuja função proprietária no campo não é compreensível sem seu
papel social estruturante do poder da monarquia, ou como na expressão
de Weber, na economia “patrimonial”. Havendo aristocracia não há
qualquer livre empresa, porque a economia impede a iniciativa
privada.
Warren Dean acompanhou a
biografia de alguns dos empresários proeminentes do início da
industrialização paulista e acentuou dois fatores que aparentemente
impedem uma tese da dualidade antagônica empresariado industrial-latifúndio:
a) a
aliança do capital. Alguns
desses incipientes empresários começaram casando-se com moças de grandes
famílias latifundiárias e tendo assim o seu negócio capitaneado
pelo patriarca; outros casos são representações do próprio
capital do latifundiário em interesses empresariais coordenados ao
seu produto de cultivo; não
há continuidade entre o capital do empresariado-industrial
incipiente e a interessante figura do importador urbano
que até aí concentra o capital comercial em São Paulo, como
captador dos produtos de fora;
b) a oposição ao
proletariado; Dean mostrou que
não havia qualquer continuidade de interesses de um setor urbano tal
que ligasse o proletariado ao empresariado como um segmento único.
Pelo contrário, o incipiente industrial brasileiro (paulista) foi tão explorador da mão
de obra nas condições piores possíveis, nas décadas iniciais
do século XX, quanto o que se sabe da super-exploração do
operariado europeu no século XIX. Só não alcançou a mesma escala
de utilização. Além disso, tendeu ao impedimento de organização
da classe operária por meios de intervenção direta – como a
organização de uma lista de ativistas, circulada entre os
empresários, que punha fora da condição empregatícia os
registrados.
c) a defasagem de mercado: coforme Dean, não havia uma convergência de interesses da burguesia ao industrialismo. Pelo contrário, o mercado comprador se sentia lesado por qualquer política de impedimento de produtos importados em prol da mercadoria nacional.
c) a defasagem de mercado: coforme Dean, não havia uma convergência de interesses da burguesia ao industrialismo. Pelo contrário, o mercado comprador se sentia lesado por qualquer política de impedimento de produtos importados em prol da mercadoria nacional.
Mas a esse estudo de Dean podemos opor três fatores importantes. Primeiro, o fato de que há
muito se conhece a situação ambígua do empresariado paulista de
inícios de século, decorrente do êxito pela capitalização do
cultivo, na lavoura do café, enquanto alhures este continuava dentro
dos limites da agricultura insipiente do antigo escravocrata.
Assim a questão operária não poderia ser tangenciada sem
relação ao cenário político. Contrastando a documentação desse
estudo de Dean sobre a industrialização paulista, e a História da
burguesia brasileira, de Werneck Sodré, vemos que em Sodré a
documentação é farta sobre o que estava ocorrendo em nível de
legislativo e mais geralmente político, além de informação
econômica (estatística) um pouco divergente com Dean.
Há também
a questão cambial. Tem sido ensinado como um dogma que os interesses
na política cambial nacional, de latifundiário exportador de
matéria-prima e empresariado produtor de manufaturados para um
mercado interno, são antagônicos. A moeda forte não interessa ao
primeiro, que recebe em moeda estrangeira, mas sim ao segundo, que
vende em troca da moeda local.
Dean desmentiu esse dogma, mostrando
por meio de documentação que empresariado e latifundiários estavam
de acordo em suas petições ao governo a propósito da política
cambial. Tanto Dean como Singer são citados por autores de
esquerda, interessados na alavancagem da revolução capitalística
local, mas em prol da emergência do proletariado internacionalmente
integrado como uma força unida em torno do mesmo objetivo de
derrubada dos novos privilégios criados pelo capitalismo, se bem que
quanto a estes, não mais os historicamente ligados aos da
aristocracia.
Conforme a tese marxista, o proletariado deve nascer como reação organizada aos privilégios da burguesia. Ele não poderia surgir antes dela.
Conforme a tese marxista, o proletariado deve nascer como reação organizada aos privilégios da burguesia. Ele não poderia surgir antes dela.
A tese assim chamada
“asiocêntrica” – devido ao fato da revolução soviética não
ter respeitado esse princípio e ter feito a revolução direto
contra os privilégios de uma aristocracia agrária, de modo que
essa variante histórica seria adequada aos países pós-coloniais –
não entra na consideração dessa tendência, posto que a situação
local, desde a independência/República, não é geralmente da
aristocracia tradicional como na Russia, mas daquela aliança do
latifúndio com o mercado internacional onde ele é exportador.
Mas
na verdade a razão mais provável é que não existe confiança numa
força esclarecida
local para precipitar a revolução sem o interregno iluminista
como educação burguesa, pois os elementos localmente enraizados não
são tipicamente o sujeito de cultura que é o europeu.
O marxismo não me parece
ter sido desconhecido aqui antes do século XX. O socialismo utópico,
com toda certeza, não só era bem conhecido, como equacionado nas
lutas anti-imperialistas - não só anti-império, como demonstrou
Werneck Sodré - anteriores ao positivismo.
Se o positivismo e o
marxismo são inserções do determinismo teleológico da história,
o vimos em Marx, é notável como sua proposta de estar começando
a história local somente com a República
se coaduna com a tendência que estamos examinando. Fora do
determinismo histórico ou teleologia capitalista, não há cultura
na acepção de racionalidade, portanto não há processo histórico
relevante, não importando o que realmente se pode descrever ter
havido em termos de conflitos políticos, étnicos, ou relativo à realidade social e cultural.
Em todo caso, o que irei
designar a tese do determinismo histórico, de Jameson a Singer e
Dean, assim como da esquerda ortodoxa, ao confrontar o encaminhamento
nacionalista da problemática, elide o essencial em termos
de transformação histórica
do capitalismo – isto é, uma vez que se a descreve a partir do
processo pioneiro europeu, e também porque é interceptando-o em
algum ponto a partir do mercado internacional que um país
não-europeu desencadeia o seu processo capitalístico, nunca
por si mesmo.
Eles podem elidir esses elementos porque o conceito de
modo de produção marxista é um universal sociológico. Como já
assinalei, a sociologia posterior mostrou o equívoco desse conceito.
Mas o importante aqui é notar que mesmo estando contra Marx em muitos
pontos, até mesmo Foucault preservou a condição daquela lacuna. Entre o
Antigo Regime e a “modernidade”, creio que se pode notar que de fato não houve uma mudança
na hegemonia de classe, mas sim a transformação de uma sociedade estamental em uma sociedade de classes, com todas as profundas mudanças no campo do direito, que isso implica - nada menos que a emergência do sujeito privado como entidade jurídica.
O contrário é o que ensina o marxismo, definindo a modernidade como mudança da hegemonia, dos aristocratas aos burgueses, mas na
verdade nós podemos ver que por esse procedimento, logo se vai esbarrar
com a necessidade de equacionar transformações que são sociais e
culturais, não especificamente de classe.
Ora, o terceiro fator que podemos confrontar a Dean é justamente a equação da assimetria. O empresariado industrial no Centro está articulado desde o século XIX, ao comercial e principalmente, exportador em grande escala, como salientei. O fato de que na margem o que ocorre é o oposto, não só por alguma continuidade do capital latifundiário, mas porque não há aliança de comércio-indústria em ampla escala, é factualmente integrado ao modo como no Centro essa aliança foi montada.
Desde o início do século XIX, para exemplificar com o Brasil, temos um impedimento ao comércio local desenvolver-se livremente, sendo que o Império foi patrocinado pela Inglaterra pelas razões óbvias ressaltadas de sua ingerência garantida como potência.
Um dos tópicos das lutas por emancipação política dos autênticos elementos heterogêneos aqui, era a liberdade do comércio, restrito como estava ao colonizador. Na decorrência da independência como foi, nunca poderíamos ter tido uma política como a da industrialização-comercial paraguaia, e a frustração de Mauá pelo governo, atestada como tem sido, não deixa dúvida sobre isso. Assim se rupturas profundas de interesses não pudessem ser demonstradas entre capital industrial e latifundiário, não só por isso decorre que não se possa articular estruturalmente o isolamento local do comércio (importador) ao quadro inverso do capitalismo central. Devemos lembrar que a república, após o pequeno interregno de Floriano, foi um estado de exceção tão violento quanto havia sido o império e pelas mesmas razões, a aliança oligárquica da máquina governamental.
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Se o que houve na modernidade europeia foi a
transformação de uma sociedade de estamentos para uma sociedade de
classes econômicas – a grande questão para Weber é como
explicar que uma sociedade tenha surgido na histórica, possivelmente
extratificada apenas na condição econômica, posto que
evidentemente não é uma condição identitária estamental.
Todas as
sociedades que Weber estuda, são identitário-subjetivantes a partir
dos seus sistemas de estratificação social. Nelas, não há o sujeito pensado privado, porquanto o sujeito é função do estamento ao qual pertence - sua condição familiar de nobre ou plebeu, com exceção para a condição de sacerdote.
Em todo caso, mesmo que
não concordando com Weber que seja assim universalmente, e suspeitando que ele tenha
projetado esquemas identitários onde pode ser que se tratasse de
outra coisa como nas sociedades aborígines igualitárias, não parece ter havido sociedades unicamente de classes
econômicas fora do moderno capitalismo.
Mas a partir daí, Weber limitou o campo do mesmo modo
que Marx, ao juntar esses dois requisitos – estratificação de
classes e capitalismo – como uma coisa só e assim lançar-se numa
batalha a meu ver algo inútil, para provar que nunca houve
capitalismo antes, apesar de que a empresa comercial e internacional,
mais a indústria em grande escala, são realidades históricas desde
a Antiguidade, e não só na Europa. Sua divisão em patrimonialismo
e livre empresa depende dele colocar como algo apenas circunstancial
o fato de que letras de câmbio e demais formas de documentos de
transações impessoais, como a moeda, foram típicos do – assim
chamado por Rostovtzeff – capitalismo antigo, dos impérios
helenistas e depois romano.
Weber comete assim formalmente a mesma falácia que Derrida imputou a Austin a propósito da literatura em relação à fala cotidiana: afirmar como meramente circunstancial aquilo que só se justifica nessa posição por uma definição que, quanto a ela, depende de supor-se que o tal afirmado é meramente circunstancial.
A documentação, como a
mera existência, de transações econômicas impessoais, isto é,
sem a chancela
patrimonial de um símbolo de autoridade central como Imperador,
monarca, ou todos os tipos de ocupação dessa posição conforme a
cultura, seria para Weber a instrumentação do capitalismo a partir
da sua equivocada conexão desse tipo de transação ao a
priori nocional “classe social
econômica”, cuja realidade histórica é o Estado contemporâneo.
Ou seja, onde o governo não
tem poder sobre a livre iniciativa empresarial, apenas garante a
legalidade das transações que vão ser feitas livremente entre os
contratantes. Weber nem se dá o trabalho de explicar porque, sendo
assim, existia antes, na Roma antiga, a letra de câmbio e as
transações bancárias. Apenas diz que não importa, porque por
outro lado havia a autoridade-símbolo central (Estado patrimonial).
Ora, quando especificamos os
elementos ligados à emergência da sociedade de classes – assim
chamada “burguesa” - constatamos que se trata de uma
transformação de magnitude tal como se possa avaliar a emergência
do Sujeito pensável,
já a partir de sua figura como
referencial do direito contemporâneo. Até aqui o sujeito não é
pensável – deixo de lado a complicada questão da filosofia grega
não-platônico-oligárquica – na tradição assim designada
ocidental, a partir de uma realidade social oligárquica.
Atualmente tem sido, como vimos
já em Jameson, corrente o equacionamento do capitalismo como
surgimento do split público-privado. Isso é o que se tornou
habitual na teoria feminista e pode-se ver também utilizado no
Anti-Édipo. Em geral a rubrica histórico-literária do Romantismo
imbrica os dois temas: emergências da expressão
estilístico-temática do “eu” e ruptura do cânon (unidade)
clássica da cultura, de modo que o “eu” é relativo ao locus da
heterogeneidade cultural de sua proveniência formativa.
Na minha tese do
capitalismo como assimetria internacional do capital, a emergência
do Sujeito pensável não
é uma decorrência do que seriam os demais fatos da época. É a
transformação capital que pré-ordena a época em termos de
“modernidade' (“período contemporâneo”). Mas aqui devemos notar que na margem está ocorrendo a descolonização, e o sujeito só se torna pensável a partir do momento em que a cultura não pode mais ser fechada num universo único-centrado, o referencial clássico greco-romano europeu.
O sujeito é a diferença intersubjetiva, e ao mesmo tempo o Ocidente começa a determinar-se como agente de um processo de civilização histórico (mundial).
Pensar a sociedade como
composta de sujeitos, unidades existenciais independentes, implica
não mais abstrair sua heterogeneidade pessoal, em nível privado,
quando se trata da esfera da cultura. Mas ela é essencial, não
derivada como na dicotomia marxista – e como princípio
gramatológico, nenhuma
dicotomia fundamental-derivado se demonstra por si própria - porque
é nela que os elementos materiais
do exercício da cidadania de classes é composto: o livre
pensamento, por não haver coerção estatal/estamental possível dos
conteúdos de Saber, que está ligado ao universal do
“esclarecimento” como educação generalizada em termos da
instrumentação necessária
à compreensão da condição de cidadania, a qual por sua vez
implica estar num meio de mobilidade social, não
numa pertença a priori da condição social inamovível.
Ora, quando nos
aproximamos do processo na margem pós-colonial, vemos que nenhum
desses elementos se segue necessariamente. Pode ser que no Centro
esses elementos devam ser efetivamente articulados numa escala
variável de sua presença, entre zero e um não totalizáveis. Mas o
discurso da sociedade
de classes não pode subsistir sem eles, e é desse discurso que essa
sociedade haure ao mesmo tempo sua legitimação interna, sua
organização factual e sua centralidade geopolítica que estrutura a
assimetria internacional do capital como algo que não pode ser para
si definido em parte alguma – muito menos na margem – fora dessa
legitimação.
A centralidade é a exportação do capitalismo não
como o que se impõe desde o centro, e por mais que se o imponha, mas
como o que está sendo requerido vitalmente ser produzido localmente
desde a margem como repetição
do que foi feito no centro (“desenvolvimento”; “modernização”;
“emancipação”). A chave, portanto, é “emancipação”, que
une independência subjetiva em relação ao que ora se considera o
“estamento” local – sem importar se a sociedade local,
não-colonial, nunca
foi estamental – à independência do sujeito econômico da livre
empresa. Mas como vimos, esse sujeito da livre empresa local nunca
surgiu como uma classe formalmente
independente.
O próprio Dean o
demonstra, ao constatar a impossibilidade material
- historicamente efetiva - de uma classe de livre iniciativa
nacional, desatrelada das condições de impossibilitação do split
público-privado, isto é, da manutenção desse constitutivo do
capitalismo na margem, a “casta” do capital agrário,
a qual para manter-se depende de que não
exista mobilidade social, livre pensamento e sujeito privado de
direitos. Assim também vimos que esse empresariado misto, por assim
dizer, não acarretaria
a emergência de um proletariado organizado.
Há aqui um ciclo vicioso
propriamente cultural, pois no Centro a organização do proletariado
efetivamente está
interconectado à produção do livre-Saber, como “ciência social”
e “literatura”, lembrando que no século XIX o “marxismo” era
quase nada quanto ao peso de influência factual, mas é nesse
século, e já a partir dos anos trinta, que a organização das duas
classes sociais está articulada sem dúvida.
Não foi o rigor marxista que criou o proletariado, inversamente,
foram fatores sociais tanto quanto econômicos que contribuem para
uma consciência de classe – do problema social como
super-exploração de classe, isto é, “Socialismo”
– de que depende a emergência do marxismo. Asuper-exploração no centro foi desviada para a margem, com o neocolonialismo afro-asiático, desde a transição ao século XX, enquanto no Centro a organização social anti-exploração não foi somente de uma esquerda radical, mas da própria burguesia interessada no saneamento dos conflitos sociais - como na sociologia inglesa. Indagava-se nessa época na Europa, sobre que seria do vocabulário da Revolução, se em certo momento as instituições sociais se mostrassem de equivalência de direitos entre as classes.
Concomitantemente o neocolonialismo retalhava o continente africano em protetorados e regiões sob controle das nações europeias e na América Latina, o imperialismo estava tão bem sedimentado que era hábito dizer-se que o Brasil era uma colônia inglesa. Os reveses de guerra que arrebataram à Europa a supremacia econômica que se tornou norte-americana não alteraram nada dessa ordenação internacional-assimétrica.
Dean não acentuou o estudado por Werneck como o cômputo que a sociedade
esclarecida local e marcadamente socialista –
interlocutora de vários focos
importantes da teoria e literatura socialistas europeias, mas
produzindo teorias sócio-econômicas originais, como em Antonio
Pedro de Figueiredo -
já fazia do enorme
prejuízo econômico que é o sistema capitalista-agrário de
dependência total à potência europeia.
Contra essas
exigências políticas da liberação do mercado interno,
monopolizado pela manufatura inglesa, por que havia tamanho aparato
governamental – a ponto do Império e da República Velha,
definíveis como esse “contra”, terem sido na verdade estados de
exceção policiais, antes que “estabilizações” políticas?
As
vantagens pecuniárias inglesas eram inimagináveis, por receber o
café como apenas matéria-prima das mãos dos agricultores, e se
tornar o agente comercial da
distribuição desse produto no mercado internacional. O empresariado
paulista nunca se
tornou o comerciante do café lá fora.
Assim, existe
na economia e na sociologia do subdesenvolvimento, o locus tético da
peculiaridade objetiva das economias da margem pós-colonial. A tese
de Schumpeter é precisamente de que elas se caracterizam pela
inexistência do livre-empresariado. O governo, nesse caso, ocupa o
lugar da iniciativa privada, e os empresários devem seguir os planos governamentais, ao inverso do que ocorre nas nações desenvolvidas.
A história pátria é exemplar quanto a
isso. Wamireh Chacon aproveitou-se dessa característica para
produzir uma leitura weberiana da história local. Seria a trajetória
de um único Estado patrimonial, herdado da colonização,
imbricando-se à tendência em história portuguesa de ver nela a
singularidade da inexistência de feudalismo.
O antigo regime europeu monárquico, típico da “época
clássica” e pós-feudal nas nações mais historicamente
representativas europeias, na verdade sempre teria sido o caso
efetivo em Portugal, para esses estudiosos. Assim ele não se utiliza como proveitoso, de
qualquer tese de uma originalidade da nossa sociedade colonial, e
tende a minimizar todas as políticas efetivamente registráveis em
prol da livre iniciativa e contra o monopolismo
latifundiário-imperialista. Pensa que todas foram versões de patrimonialismo estatal. Mas assim ele não poderia explicar a
conexão da peculiaridade histórica da ex-colônia lusa às demais
economias pós-coloniais, como exemplificado em Schumpeter.
Uma tese de igual
importância sobre essas economias de margem é a exposta por
Alpha-Chiang, de sua dualidade intrínseca. É a terminologia do
“efeito-de-demonstração”. Um grupo social restrito concentra o
papel de “ponto de contato” com o Centro industrializado, sendo o
alvo da recepção de suas mercadorias importadas. Esse grupo é
restrito por seu esclarecimento, sua cultura europeizada. O outro
grupo é a “hinterlândia” cuja cultura, não sendo europeizada,
o mais das vezes é avessa aos valores da industrialização – tais
como a atração pela novidade antes que pela mera utilidade; a
atribuição de status subjetivo a
partir da afluência aos estilos da modernidade em vez de aprovação
pela observância dos rituais tradicionais devidos ao papel social.
Assim haveria um esquema pendular – pois a compra
de muitos produtos industrializados aumentaria os débitos na balança
de pagamentos, não obstante aquecerem o nível da movimentação
comercial, endividando o país, enquanto a compra de poucos produtos
implicaria a crescente defasagem local de algum porte econômico
pela preponderância da hinterlândia, força de inércia.
Na
verdade, como notou Hubbermann, o capitalismo não é em si atrativo.
Ele o observou do ponto
de vista do trabalhador. Se alguém puder continuar mantendo a posse
de seus instrumentos de produção – artesanais ou agrícolas –
por pouco que ganhe não
vai se atrair pela fábrica super-exploradora.
Ilustrou o fato com um
investidor que munido de dinheiro e instrumentos, não conseguiu
mão-de-obra numa região onde o pequeno agricultor não havia sido
desterrado antes pela escalada de concentração fundiária. Mas além
disso, o padrão do pobre não operário, longe da cidade, não é
por si mesmo consumista.
Um dos obstáculos que vários sociólogos
apontam ao desenvolvimento local até a metade do século XX, também
teimando ignorar as lutas já em trânsito desde bem antes, que
testemunham da heterogeneidade local que seus esquemas implicam abstrair, é
o que consideram conservação cultural dos costumes do senhorio
colonial, com a “casa grande” repugnando todo contato com o
exterior e valorizando somente o produzido no interior do assim
generalizado “feudo”, pela escravaria e depois pelos dependentes
dessa economia de subsistência a partir da lavoura
monocultora-exportadora.
É certo que essas teses
são anteriores à globalização, onde uma das consequências da
revolução tecnológica informática foi o descentramento da própria
produção. Não tem mais validez fundamental o esquema de venda de
matéria-prima e compra de industrializados, ou mesmo o esquema
sabidamente desvantajoso, mas tido como sine qua non
da modernização local, de importação de capitais
que teve lugar como interregno, entre o pós-guerras e os anos
noventa, protagonizado pelo novo agente imperialista, os Eua.
É a própria fábrica que
se exporta, na “globalização”, em troca das vantagens da mão
de obra local e outras formas de exploração do situamento
territorial – isenção de impostos, garantia de financiamento de
instalações, penetração política irrestrita, etc. A
multinacional com sede numa potência ou bloco econômico do Centro
(Europa/Eua/ Japão) não precisa exportar a fabricação integral de
um produto. A tônica é a fabricação de cada item da produção de
uma mercadoria determinada, no local do mundo onde o custo for mais
barato, a serem depois os itens reunidos para montagem em outro
local igualmente calculado dessa forma economicamente estratégica.
Além disso, a sociedade informatizada implica a necessidade
das pessoas estarem integradas às mercadorias eletrônicas, porque
do seu uso depende a integração informática. Não se trata do
efeito de demonstração como mediação na crueza apenas da
incitação à compra. Mas assim vemos como há dependência do investimento internacional local, em relação à situação política - invertendo o paradigma marxista.
Quanto a Schumpeter, portanto,
não há muita perda do potencial explicativo para o estado de coisas
que continua vigente, dado que todos esses fatores de atratividade da
fábrica multinacional dependem do governo local, e são o inverso da
emergência de um empresariado livre local. Mas quanto ao
efeito-de-demonstração, o curioso é que o capitalismo tardio, na
margem, não elide o
dualismo que estruturou o conceito. Isto é, pelo que tenho observado
na vigência da globalização, não ocorre, do mesmo modo, a
emergência do split público-privado tal que todos os elementos que
apontamos estejam co-presentes.
Pelo contrário, se nas ditaduras –
a de Vargas e a militar - havia controle oficial do Saber, o controle
de mercado pelo capital-midiático-informático permite uma amplitude do Poder censório
inimaginável antes. Sobre isso, torna-se importante o estudo de Stuart Hall sobre a intervenção cultural do neoliberalismo - ao contrário do que se apregoa como "Estado mínimo". Espero desenvolver mais esse tema oportunamente, à frente.
Por ora a referência a Hall nos permite salientar que mesmo no Centro à sociedade a consequência do imperialismo é indesejável. Configura efeitos de Poder que são antitéticos à democracia - como podemos ver pelos protestos, ignorados pelo governo, de multidões norte-americanas contra as ofensivas ao Vietnã e mais recentemente, ao Oriente Médio. A releitura da história como construção discursiva de uma assimetria do Poder paralela à dominação econômica do terceiro mundo, e como crítica dos grandes relatos, é assim não uma retórica revanchista ou radical de um ponto de vista unilateral.
Por ora a referência a Hall nos permite salientar que mesmo no Centro à sociedade a consequência do imperialismo é indesejável. Configura efeitos de Poder que são antitéticos à democracia - como podemos ver pelos protestos, ignorados pelo governo, de multidões norte-americanas contra as ofensivas ao Vietnã e mais recentemente, ao Oriente Médio. A releitura da história como construção discursiva de uma assimetria do Poder paralela à dominação econômica do terceiro mundo, e como crítica dos grandes relatos, é assim não uma retórica revanchista ou radical de um ponto de vista unilateral.
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Desde a emergência de um insipiente empresariado
local, o agente econômico típico local como vimos é dependente da
política governamental e misto de latifundiário e aplicador de
capitais, portanto não obtém visibilidade conceitual desde a
aplicação da teoria do capitalismo central, por que esta só
conceitua o livre empresariado no centro. Assim, Dean conduz o estudo
sobre o empresariado até o governo Vargas, para fazer desse ponto,
nisso um pouco ao modo de Sodré, o clímax do relato de modo a se
tornar compreensível o resultado histórico a que nenhum dos dois
pode se esquivar, a solvência de todo espaço possível de uma livre
iniciativa local num espaço de livre jogo do capital internacional, após Vargas.
Naturalmente devemos lembrar que Vargas não almejou a princípio uma democracia, mas quando ele se torna representativo nessa acepção, a circunstância internacional que havia permitido historicamente o seu incipiente desenvolvimentismo havia cessado - havia sido o fator guerra mundial, aglutinando a atenção das potências centrais que assim deixaram o campo livre para a ação nacional. Quanto à dependência do varguismo a esse fator, não existe qualquer ocasião para dúvida.
Mas enquanto Sodré trata esse capítulo do pós-varguismo como a “derrota” da burguesia nacional – que assim não chegou a formar-se não obstante toda a sua luta até aí – Dean interpreta como “incongruente e improfícua” qualquer tentativa que porventura chegasse a ser feita, de relações públicas do empresariado local.
Como examinamos acima, segundo Dean ele não tinha contiguidade ao seu próprio mercado: desprestigiava-o, porque o comprador se sentia inferiorizado com o produto nacional, e “carregava-o”, porque assim como os latifundiários, aproveitava-se de todos os modos do governo para burlar suas obrigações públicas e auferir garantias do dinheiro público.
Não havia portanto qualquer sentido histórico de separação de uma classe, ou revolução burguesa, nessa iniciativa insipiente de industrialização, na visão de Dean, contrariamente a Sodré.
Naturalmente devemos lembrar que Vargas não almejou a princípio uma democracia, mas quando ele se torna representativo nessa acepção, a circunstância internacional que havia permitido historicamente o seu incipiente desenvolvimentismo havia cessado - havia sido o fator guerra mundial, aglutinando a atenção das potências centrais que assim deixaram o campo livre para a ação nacional. Quanto à dependência do varguismo a esse fator, não existe qualquer ocasião para dúvida.
Mas enquanto Sodré trata esse capítulo do pós-varguismo como a “derrota” da burguesia nacional – que assim não chegou a formar-se não obstante toda a sua luta até aí – Dean interpreta como “incongruente e improfícua” qualquer tentativa que porventura chegasse a ser feita, de relações públicas do empresariado local.
Como examinamos acima, segundo Dean ele não tinha contiguidade ao seu próprio mercado: desprestigiava-o, porque o comprador se sentia inferiorizado com o produto nacional, e “carregava-o”, porque assim como os latifundiários, aproveitava-se de todos os modos do governo para burlar suas obrigações públicas e auferir garantias do dinheiro público.
Não havia portanto qualquer sentido histórico de separação de uma classe, ou revolução burguesa, nessa iniciativa insipiente de industrialização, na visão de Dean, contrariamente a Sodré.
O que ocorreu, porém,
com o governo Vargas é algo complexo do ponto de vista político, e
as relações dessa complexidade com a questão econômica da
industrialização não são esclarecidas por Dean. Ele apenas
registra a decisão governamental de tornar o Estado ele mesmo
industrial, construindo um parque estratégico nacional:
eletricidade, petróleo, veículos, aços, química, conforme o
recenseamento de Dean que emenda a isso apenas a transformação do
capital circulante empresarial.
Começa depois de Vargas, já em pleno pós-guerra e na euforia de um "ocidente" que renovou por esta o seu discurso liberal-civilizador, a entrar o dinheiro estrangeiro no país, investindo nas empresas já existentes e tornando-as assim de capital misto.
Logo obtém elas o controle do mercado produtor local. Dean não pensa que o empresariado nacional se sentiu insatisfeito com isso, afora uns poucos inexpertos. Pelo contrário, adaptaram-se rapidamente e esse contingente “se comprouve em receber novos recursos de capital e novos mercados”. Dean deixa em suspenso se isso representa um bem ou um mal para o país, mas obviamente esse é um recurso retórico, já que a causa desse resultado é a desarticulação total do empresariado incipiente, ou seja: seria impossível que houvesse um outro resultado. Afinal o governo – nem se diz qual – “se viu também obrigado, por falta de outra alternativa, a chamar o capital estrangeiro nas condições por ele impostas”.
Começa depois de Vargas, já em pleno pós-guerra e na euforia de um "ocidente" que renovou por esta o seu discurso liberal-civilizador, a entrar o dinheiro estrangeiro no país, investindo nas empresas já existentes e tornando-as assim de capital misto.
Logo obtém elas o controle do mercado produtor local. Dean não pensa que o empresariado nacional se sentiu insatisfeito com isso, afora uns poucos inexpertos. Pelo contrário, adaptaram-se rapidamente e esse contingente “se comprouve em receber novos recursos de capital e novos mercados”. Dean deixa em suspenso se isso representa um bem ou um mal para o país, mas obviamente esse é um recurso retórico, já que a causa desse resultado é a desarticulação total do empresariado incipiente, ou seja: seria impossível que houvesse um outro resultado. Afinal o governo – nem se diz qual – “se viu também obrigado, por falta de outra alternativa, a chamar o capital estrangeiro nas condições por ele impostas”.
Mas a história não é
assim tão simples. Seja como for que se interprete a trajetória do
comprometimento do governo ditatorial de Vargas ao longo da década
de trinta, com a industrialização, o fato é que se tornou um
projeto nacionalista de grande alcance político local quando do seu
segundo governo eleito democraticamente
a partir de uma aliança com as esquerdas, e inclusive com os
comunistas.
Wamireh Chacon e outros autores já notaram que o
governo ditatorial varguista havia sido pragmático – entre as
diplomacias do eixo e dos aliados, entre marcos alemães e dólares
estadunidenses, apenas se esgueirando para obter as maiores vantagens
sem comprometer-se demasiado, até que afinal houve a decisão de
colaborar militarmente com os segundos. Mas o fato é que a aliança
de governo e projeto industrializante era vantajosa a uma política
de substituição de importações devido à ausência da oferta
pelas potências durante a guerra.
Ora, o governo Vargas havia sido estruturalmente a
pioneira articulação de uma nacionalidade integrada na República.
Até aqui, o insulamento regional devido ao poder oligárquico era
insuperável. Por outro lado, estavam apenas os elementos socialmente
inassimiláveis pelo discurso positivista, os negros e miscigenados –
de forma espantosa, a maioria do contingente populacional.
Entre ambos, oligarquias e
povo, a expressão de uma classe esclarecida local remanescente dos
projetos nacionalistas ao longo do período romântico, vindos de
movimentos de libertação nacional autênticos que foram sufocados
pelo dinheiro inglês sustentando o Império que oficialmente fez a
independência, tem sido objeto da limitação histórica quanto à
sua reconstituição.
O modernismo, sem dúvida, tem aqui papel
similar ao do Romantismo na Europa, sendo o porta-voz da afirmação
da necessidade – quando não do exercício pleno – daqueles
elementos formativos de uma sociedade de classes, atuando portanto
como o porta-voz de uma incipiente burguesia, e ligada à iniciativa
econômica modernizadora pelos laços do seu financiamento a partir
das grandes famílias do empresariado paulista. Assim, a ambiguidade
do capital paulista – empresário e cafeicultor – não chega a
afetar essa aliança modernizante no sentido de expressar o seu
desejo de modernidade e afirmação nacional como classe a
gradualmente emancipar-se dos vínculos do dependentismo.
A ditadura varguista interfere com o modernismo,
certamente, sendo repressivo do seu liberalismo cosmopolita, e
desdobrando-se a partir daí uma segunda geração “regionalista”,
distanciada das rupturas essencialmente modernizantes – a estética
do arranha-céu e da São Paulo nova “metrópole” - da geração
pioneira.
O Estado novo varguista produziu essa unidade sócio-econômica do país por meio de aparelhamento tradicionalista e culturalmente repressivo das diferenças, mas “culturalista” – o “departamento de imprensa e propaganda" (Dip) estava alicerçado em estudiosos sociais, como os dessa “segunda geração”, que procuravam integrar toda oferta cultural que pudesse ser glamourizada como nacional por estar isenta de termos teoricamente radicais. É a fase do "regionalismo", em termos literários, como recusa da via cosmopolita dos pioneiros.
O Estado novo varguista produziu essa unidade sócio-econômica do país por meio de aparelhamento tradicionalista e culturalmente repressivo das diferenças, mas “culturalista” – o “departamento de imprensa e propaganda" (Dip) estava alicerçado em estudiosos sociais, como os dessa “segunda geração”, que procuravam integrar toda oferta cultural que pudesse ser glamourizada como nacional por estar isenta de termos teoricamente radicais. É a fase do "regionalismo", em termos literários, como recusa da via cosmopolita dos pioneiros.
O Estado Novo por vezes
comissionava para revistas estatais artigos daqueles mesmos
intelectuais que perseguia por motivos políticos – como Graciliano
Ramos. O “ideologema” por assim expressar, era
nacional-identitário, o Trabalhador que
agora integrava os antes impensáveis negro e miscigenado, na
“racionalidade” da oferta empregatícia em nível nacional e
urbano.
O Vargas do governo
posterior, democrático e esquerdista, reunindo gente que havia
prendido antes, como os comunistas, ampliou os meios para o mesmo
objetivo. Mas o suicídio de Vargas, devido à sua deposição imposta
pelas forças armadas por ter ele se tornado assim progressita, tem sido sempre relacionado ao
descontentamento da sua base conservadora e militar para com essa
extensão agora autenticamente
popular de sua política nacionalista.
Ele havia, antes, conseguido unir as oligarquias em torno de seu projeto de sustentação de todas por igual, dentro de uma base de controle sobre o elemento a assimilar do povo – paternalisticamente, o “pai dos pobres”, de um povo que não devia querer mais do que continuar na sua condição desigual, desde que alimentado - mas agora se tratava de um projeto de mudança social a partir da independência econômica do país, num cenário em que já isso implicava confronto com os interesses do Centro.
Ou seja, mais uma vez trata-se da evidência histórica da conexão entre necessidade de uma mentalidade nacionalista para a consecução local dos elementos determinantes da mobilidade de classes e direito privado - com emancipação do Sujeito - como garantias constitucionais reais. Vargas é uma figura complexa, cultivando Baudelaire na mocidade e sempre relacionado à capacidade de fazer convergir forças entre si antagônicas, mas não chega sua ação a ultrapassar os limites de uma ambição pelo Poder.
Ele havia, antes, conseguido unir as oligarquias em torno de seu projeto de sustentação de todas por igual, dentro de uma base de controle sobre o elemento a assimilar do povo – paternalisticamente, o “pai dos pobres”, de um povo que não devia querer mais do que continuar na sua condição desigual, desde que alimentado - mas agora se tratava de um projeto de mudança social a partir da independência econômica do país, num cenário em que já isso implicava confronto com os interesses do Centro.
Ou seja, mais uma vez trata-se da evidência histórica da conexão entre necessidade de uma mentalidade nacionalista para a consecução local dos elementos determinantes da mobilidade de classes e direito privado - com emancipação do Sujeito - como garantias constitucionais reais. Vargas é uma figura complexa, cultivando Baudelaire na mocidade e sempre relacionado à capacidade de fazer convergir forças entre si antagônicas, mas não chega sua ação a ultrapassar os limites de uma ambição pelo Poder.
O relato de Sodré conduz, portanto, até esse ponto
definindo-o como deposição das forças progressistas pelas
oligarquias militarmente amparadas. Isso implica ler a história
como a deposição definitiva do capital nacional pelo capital estrangeiro que
era o suporte dos interesses segregados dessa oligarquia – sem o
qual ela não teria sentido de luta contra a tendência progressista
A partir daí Sodré analisa com certa minúcia a realidade da penetração do capital estrangeiro – o fato de que as estatísticas não são disponíveis, quanto a remessa de lucros, para estudiosos, e quando são, mostram-se incongruentes. Mas também o fato de que o pouco que se pode haurir dos dados implica o mesmo quadro de grandes vantagens do capital estrangeiro contra enormes prejuízos da economia local que já se conhecia desde os tempos do café.
A partir daí Sodré analisa com certa minúcia a realidade da penetração do capital estrangeiro – o fato de que as estatísticas não são disponíveis, quanto a remessa de lucros, para estudiosos, e quando são, mostram-se incongruentes. Mas também o fato de que o pouco que se pode haurir dos dados implica o mesmo quadro de grandes vantagens do capital estrangeiro contra enormes prejuízos da economia local que já se conhecia desde os tempos do café.
Os outros livros de
Sodré datam geralmente de após o golpe militar dos sixties. Com referência ao História da burguesia brasileira, contudo, é importante notar que ulteriormente ao desacordo quanto à economia nacional, é um estudo que converge com a intenção de Singer em fornecer uma releitura da sociedade colonial em termos de um cenário já de autonomia do interesse local - em ambos, o papel do vaqueiro como trabalhador livre suplanta o tradicional esquema do escravismo, como da casa grande do senhor da plantation.
Vemos como até Chacon, inclusive, essa perspectiva era invectivada para manter a noção da ausência de história colonial pertinente. Em vez de um sujeito colonial singular, Chacon prefere a versão de Prado Junior, por onde além da plantation só havia trânsfugas trôpegos vagando pelo mato. Não creio que atualmente haja dúvidas sobre a validez da visão de Singer e Sodré.
Mas mesmo esta deve ser ampliada. Na verdade, a colônia tem cinco ambientes: a minoritária plantation; o conjunto pastoril disseminado pelo território; as vilas e pequenas cidades onde se concentram profissionais liberais, artistas como Aleijadinho e Gregório, e funcionários públicos; os quilombos; as comunidades aborígines.
(texto a revisar e paragrafar)
Quanto às publicações de Sodré, além da História da burguesia, frequentemente retornam ao período que medeia os dois acontecimentos, a deposição do governo democrático de Vargas e o golpe, por onde se esclarece que após Vargas houve um interregno de intensa luta nacionalista contra os identificados – a partir das forças que derrubaram a aliança das esquerdas varguista – agentes da desnacionalização. Identificados agora como não apenas os latifundiários, mas todos os setores interessados na oferta de penetração do capital estrangeiro, cuja liderança se personificou no presidente Juscelino Kubitchek. Esse foi o governo que pioneiramente integrou o capital estrangeiro no projeto de modernização local – ou seja, atuando esse capital, guardadas as distâncias, do mesmo modo que à época da unidade latifundiária da economia.
Vemos como até Chacon, inclusive, essa perspectiva era invectivada para manter a noção da ausência de história colonial pertinente. Em vez de um sujeito colonial singular, Chacon prefere a versão de Prado Junior, por onde além da plantation só havia trânsfugas trôpegos vagando pelo mato. Não creio que atualmente haja dúvidas sobre a validez da visão de Singer e Sodré.
Mas mesmo esta deve ser ampliada. Na verdade, a colônia tem cinco ambientes: a minoritária plantation; o conjunto pastoril disseminado pelo território; as vilas e pequenas cidades onde se concentram profissionais liberais, artistas como Aleijadinho e Gregório, e funcionários públicos; os quilombos; as comunidades aborígines.
(texto a revisar e paragrafar)
Quanto às publicações de Sodré, além da História da burguesia, frequentemente retornam ao período que medeia os dois acontecimentos, a deposição do governo democrático de Vargas e o golpe, por onde se esclarece que após Vargas houve um interregno de intensa luta nacionalista contra os identificados – a partir das forças que derrubaram a aliança das esquerdas varguista – agentes da desnacionalização. Identificados agora como não apenas os latifundiários, mas todos os setores interessados na oferta de penetração do capital estrangeiro, cuja liderança se personificou no presidente Juscelino Kubitchek. Esse foi o governo que pioneiramente integrou o capital estrangeiro no projeto de modernização local – ou seja, atuando esse capital, guardadas as distâncias, do mesmo modo que à época da unidade latifundiária da economia.
Mas esse foi um
entre os outros governos desse interregno, os quais estavam
disputando justamente por um dos dois partidos da condução
econômica. Assim, a antítese de Juscelino foi a eleição de João
Goulart, nos sixties. Ele foi um dos mais votados eleitos da história
do país, e representante típico da posição nacionalista que
significaria a mudança social. Na noite da véspera do golpe,
decretou no célebre comício da Central do Brasil (estação
ferroviária do Rio de Janeiro), a reforma agrária e a equiparação
digna do salário mínimo. Que essa revolução não era “comunista”
é um fato, e nota-se que no Chile, Allende era pessoalmente
comunista, mas seu governo não foi revolucionário nesse sentido,
funcionando na base da legalidade institucional representativa em que
havia sido eleito. O estudo de Rene Dreyfuss retraça os passos do
general da Cia, Hasslocher, encarregado de promover no Brasil o
discurso golpista entre as elites, principalmente na mídia, desde
três anos antes do golpe militar. A
princípio, não há razão para supor que os militares agiriam
contra Jango, pois a eleição dele foi significativa da maturação
das forças políticas nacionalistas culturalmente articuladas a
movimentos sociais de grande envergadura em prol da mudança
social – por exemplo,
abrangendo adesão de grupos católicos.
Pessoalmente
traumatizado, pois um dos perseguidos do regime e também um dos que
mais apostaram naquilo contra que o regime se impôs, Sodré analisa
em vários livros o período anterior ao golpe, e o que se seguiu.
Ele mesmo era um militar, se bem que como historiador sempre
envolvido com a causa nacionalista da emancipação econômica pela
evidência de que não haveria outro meio para a mudança social. A
produção cultural era o forte de sua colaboração ao projeto
nacional. Articulou, com vários outros personagens importantes,
instituições duradouras – como a Revista Civilização
Brasileira, e a publicação da
sua História Nova –
pivô da perseguição do regime ditatorial por ser uma leitura
nacionalista da trajetória do país desde a independência.
Não chegou a ser
fisicamente prejudicado pelo processo, diferentemente de vários
personagens de cujo tratamento abjeto ele mesmo testemunha, não com
tanto impacto quanto Frei Beto e alguns títulos do cinema nacional.
Essas publicações começaram a circular no período tardio da
ditadura, o começo dos anos oitenta. O importante quanto as
reconstituições de Sodré, vem a ser a manifesta ambiguidade a
propósito do que seria o livre pensamento estruturante da revolução
burguesa e/ou nacionalista local. Pois, o Saber esteve sempre, a
partir do Positivismo e com exceção do modernismo pioneiro, na
posição alienada de qualquer referencial da originalidade formativa
da cultura em relação ao
discurso de emancipação do Centro.
Esperava-se que houvesse produção de ideias local, mas ao mesmo
tempo já pressuposta a sua conexão discursiva.
4 )
É interessante notar a segmentação temática do texto
weberiano sobre a Ética protestante. Ele exibe um falso começo
explícito, mas depois um outro falso começo. Principia com o
documento ético de Franklin, de meados do século XVIII : Hints
to those that wound be rich; Advice to a young tradesman. Todo
esse trecho está focalizado na oposição da moralidade pessoal
protestante popular e da solidariedade de grupo
greco-romano-católico aristocrática. Entre ambas, a
diferença é entre a associação inusual entre interesse lucrativo
e disciplina como característica da primeira.
A solidariedade de grupo não é oposta ao interesse do
lucro. É apenas indisciplinada. Mas em sentido weberiano.
Obviamente não poderia, nos termos assim equacionados, significar
uma ganância privada, porque o indivíduo não age segundo
interesses privados, mas conforme os do seu grupo. Mas essa ganância
inspirada pela solidariedade de grupo não é limitável por valores
ulteriores – o valor supremo é o bem do grupo. Então pode haver,
assim como é inegável, em nível individual a ganância no sentido
mais habitual, irrefreável impulso de posse e acumulação.
Inversamente, o ethos privado protestante é
disciplinado uma vez que o desejo do lucro está associado aos meios
pelos quais ele deve ser obtido, e esses meios são a disciplina
mesma cristã do ascetismo, da vigilância sobre todos os aspectos da
empresa, e da poupança em vez da ostentação.
A dificuldade que o trecho manifesta enfrentar não é
aparente. Se há uma oposição tão nítida, historicamente
demonstrável, porque se hesita perante a “definição
final”(“deve ser deixada em suspenso”), com relação aos
termos dados: “capitalismo” ou “tradicionalismo”?
Quanto ao segundo, parece plenamente conceituado pelo que vimos. Mas
de fato, quanto a “capitalismo” o texto oscila, pois se
enfatiza um seu sentido estrito da empresa contemporânea, usa do
mesmo modo o termo para a ganância e os negócios antes do período
contemporâneo. Grafa também “pré-capitalismo”. O
sentido da oposição é construído independente disso, e a cesura
marcada pela hesitação que flagra como algo mais que perfunctório
a sua própria oscilação se torna surpreendente.
O que torna compreensível a dificuldade, quando o
texto a expressa em termos da inevitabilidade de sua indefinição
terminológica, é que a transformação histórica não se
tornou até aqui, ela mesma compreensível. Se em vez de
weltanschauungen pertencentes a períodos diferentes, como é
o caso em Weber onde a específica do capitalismo subsume “toda
uma filosofia de vida, rica em conteúdo histórico”, sua
intenção fosse como a de Parsons e se tratasse de definir “um
padrão formal de valores como o padrão da 'realização
universalista' “ que ele “coloca no centro da sua
análise”, conforme o contraste acentuado por John Rex, então
a dificuldade não teria sentido. Mas Weber está tratando algo que
irrompeu na história, em vez de apenas uma combinação de
fatores perspectivada como dada. Isso é algo importante. Pode
demarcar com maior amplitude sua originalidade teórica.
Por exemplo, Errandonea, ao analisar os fracassos
preditivos de Marx em relação ao capitalismo futuro, que sua
“sociologia de la dominacion” já grafa como
“neocapitalismo”, se expressa em termos de relativismo
histórico. Marx observou um outro contexto histórico, assim não
poderia compreender o nosso. Mas uma interpretação althusseriana de
Marx iria, inversamente, se basear em que o conceito marxiano de
“modo de produção” implica uma absoluta determinação do seu
objeto. Mais coisas poderiam ser agregadas, em termos de
circunstâncias históricas, mas não a ponto de alterar a substância
da predição.
Jameson (“O pós-modernismo e o mercado”)
pode acentuar a conexão muito mais visível desde o “capitalismo
tardio” (“late capitalism”), entre sociedade industrial e
“produtividade”, esta sendo definida como a racionalidade
subjacente a toda busca de meios de satisfação das necessidades
materiais humanas, e assim a economia de mercado sendo a etapa
necessária de uma evolução universal da excelência da
produtividade. Mas isso não altera o fato de que a profunda mudança
de natureza da produção no capitalismo tardio em relação às
formas de exploração capitalista até aqui, permanece analisável
nos termos deterministas da ideologia, e isso tanto mais que o
mercado tenha açambarcado todas as formas de produção cultural
por um lado, e se culturalizado por outro lado, ao “midiatizar”
toda produção e circulação de mercadoria.
Se podemos manter as coisas nesse esquema de causa ou
agente, o mercado; e efeito ou produto, a esquizofrenização da
produção cultural assim chamada “pós-modernismo”, conserva-se
a inteligibilidade do modo de produção em todo o esperável
potencial preditivo que nesse caso limita-se à explicitação da
coisa ela mesma. Mas é considerável a estreiteza dessa unidade a
todo custo, num cenário onde a cultura não se resume à
midiatização, mas coloca uma ruptura epistemológica pelo conceito
de heterogeneidade.
Errandonea, inversamente, está enfatizando que a
exploração de mercado não esgota a questão mais ampla da
dominação como restrição a alguns do poder decisório acerca do
que afetará a todos, e assim lança mão da noção de “assimetria”
entre grupos, de Stanislaw Ossowski, apenas para introduzir a
necessidade do conceito de dominação de Weber vir a ser introduzido
onde se limitava a problemática social à noção de exploração.
Esse conceito de assimetria entre grupos é interessante aqui, mas
não tem a abrangência estrutural que minha proposta da “assimetria
internacional do capital” requer, e eu não a conhecia antes de ter
formulado a proposta.
Ora, o que estamos constatando é que a sociologia de
Weber não objetiva a princípio senão constituir categorias
relativas a realidades que emergem historicamente. Como ela
poderia servir como esquema classificatório de estados de coisas
quaisquer e supostos homogeneamente dados?
Nesse ponto de cesura, o texto weberiano falseia,
portanto, uma sua leitura possível, decorrente porém de um viés
efetivo de sua escrita até aqui, o de ser um esquema classificatório
assim. Mas então ele enuncia um novo começo, pelo que um grupo
social real vai servir de amostra da mudança comportamental
que realmente houve, tratando-se dos trabalhadores.
Esse “começar por baixo”, em meio ao andamento já
adiantado, conduz a um novo conceito, o de “racionalidade”.
Este é obtido ao cabo de uma longa explanação que do ponto de
vista da redação do texto, semelha apenas aprofundar as
dificuldades tornando-as visíveis de um modo que poderia ficar
desapercebido até aí.
Já não se pode imaginar um intuito classificação
categorial, Weber se pronunciando decisivamente em torno do processo
histórico. Há o foco no item “vocação” que
distingue a relação pessoal do trabalhador protestante com o que
ele faz, dotando o serviço de uma qualidade racional de
concentração, contrastada à relação de simples utilidade
salarial ou à contingência do condicionamento pela força a partir
de políticas voltadas a tal fim, do trabalhador não protestante.
Mas cedo isso se mostra frágil, porque não poderia explicar a
hegemonia que uma dessas duas formas alcança – se pudesse ser
demonstrada apenas a do trabalhador protestante como típica do
capitalismo estrito, o que de fato o texto não obtém.
É “o espírito do capitalismo”, somente, o que
pode ser associado à vocação como forma do trabalho protestante.
Logo, dos trabalhadores somos conduzidos aos empresários como
portadores desse espírito, mas tudo o que se consegue, novamente é
o contraste entre uma atitude e outra.
A transformação é encenada. Uma empresa
lucrativa tradicionalista, capitalista em sentido amplo ou
pré-capitalista, ambos os termos aplicáveis, mantém todos nos seus
devidos lugares, apenas compra de produtores e artesãos por um lado,
e circula aos compradores interessados por outro. Mas um empresário
capitalista estrito organiza uma fábrica, concentra os meios
de produção, e opera na base dos princípios de “baixo preço”
e “grande giro” que são típicos da racionalização dos
negócios
O espírito do capitalismo, como unidade significativa,
vemos aqui oscilar. Essa organização sugere que os fins ou
objetivos foram mudados – não é mais a necessidade de ganhar
dinheiro e garantir-se com os seus, como nas limitações
tradicionalistas quaisquer, mas a perpetuação dos processos
produtivos e lucrativos, o que passa a importar.
Nesse ínterim, contudo, as limitações tradicionalistas
ventiladas não são mais qualquer solidariedade de grupo, pois se
trata de distinguir o empresário imbuído de espírito do
capitalismo dos empresários capitalistas historicamente atuantes
como “aventureiros” obviamente não comprometidos com
grupos de origem aristocráticos, mas muito ousados, intrépidos, e
de uma disponibilidade gideana.
A associação da ganância individualista com o bem de um
grupo a que se pertence é o que se inviabiliza a meu ver, para os
exemplos dos parvenues emergindo no que Weber chama as
“indústrias” desde o quinhentos, os quais não são
justamente da classe dos grandes príncipes, aristocratas ou
monopolistas que poderíamos juntar, nessa oposição, à empresa
capitalista-tradicionalista com que Weber caracteriza o
empreendimento de grande comércio inclusivo da exploração colonial
(“o comércio ultramarino de épocas inteiras”).
O que Weber está acentuando, inversamente, é a
independência dos elementos: o ethos seja qual for, e “a
forma capitalística de uma empresa”. O modo como uma
empresa é historicamente (factualmente) dirigida depende do ethos
dos seus diretores, mas essa relação “de adequação”
não é uma relação “de interdependência”, e parece que
Weber, com isso, quer expressar agora que a recíproca não é
verdadeira, e o ethos dos homens não predispõe que haja a forma
capitalística – de um tipo ou de outro - de uma empresa. Não
obstante, a grande empresa não poderia ser de outro modo que
tradicionalista, enquanto não houvesse um fator histórico que
mudasse as coisas.
Na verdade, ele afirma que o que houve foi o encontro feliz
do ethos protestante com a “empresa capitalista”: enquanto
nessa empresa o ethos encontra o horizonte mais adequado de sua
atuação, naquele ethos a empresa encontra “sua força
impulsora mais adequada”. Aparentemente, é aqui, em vez de na
encenação da transformação organizacional da empresa, que se
localiza a diferença como irrupção histórica, entre o
capitalismo tradicionalista e o que virá a ser o contemporâneo,
mas sendo já o protestante do ainda modesto Franklin.
A dificuldade é entender a proliferação das empresas
anterior ao capitalismo protestante, posto que não é mais o
individualismo que a este diferencia. Além disso, não coincide a
inversão de meios e fins provista pelo empresário imbuído daquele
espírito que o induz a produzir “seu próprio capital e seu
suprimento monetário como meios para seus fins, e não o inverso”,
e o que se diz dos trabalhadores motivados pelo que seria a mesma
mola espiritual, cuja “vocação” no entanto supõe um
trabalho que deve ser executado como “um fim” ou objetivo
“absoluto em si mesmo”.
A contradição se resolve como afinidade ética.
Trata-se da mesma disciplina dos trabalhadores
protestantes, que se traduz na fórmula do ethos de empresários
“completamente devotados aos seus negócios” e
introdutores da mudança decisiva .
Ora, a que essa mola religiosa-espiritual conduziu foi ao
seu contrário, ao espírito aufklaerung liberal. Aqui a
palavra nova é Weltanschauung – estando em tela, como que
repentinamente, a visão de mundo desses empresários já
liberais que desprezam qualquer fatores ulteriores à lógica dos
negócios, em termos do que orienta suas decisões., isto é,
desprezam fatores também religiosos
Mas o devotado organizador que os precede não era
especialmente protestante. Nem os camponeses que ele transformou em
operários. Em todo caso, a ideia motora do espírito do capitalismo
é esclarecida como o encarar da atividade dirigida para lucros como
uma vocação, para a qual o indivíduo se sentisse com obrigações.
Weber descarta como “insensato” que isso possa
ser “reflexo suprerestrutural ideal”, mas nesse ponto
mesmo conceitua a ideia motora como”racionalismo econômico”.
É então que a verdadeira tarefa a que o texto se devota é
enunciada, como o esclarecimento desse racionalismo. Vem assim o
verdadeiro começo da exposição.
No trecho precedente, contudo, à construção textual foi
fundamental dispor não só da encenação do anônimo e desconhecido
organizador, mas precipuamente da Cena estadunidense, já
que nela se antecipa segundo Weber, a vulgarização, a corrência
social, do espírito do capitalismo. É lá comum desde muito o que
na Europa permaneceu inaceitável até prevalecer a revolução
laicizante oriunda do Iluminismo. Weber simplesmente associa Eua e
protestantismo, o que é estratégico ao fato do capitalismo
industrial no sentido mais habitual de contemporâneo (séc,XIX e XX)
ser, de fato, como realidade europeia, apanágio das nações
protestantes.
Mas os Eua são um processo social bem irredutível ao
só fator religioso, dado o isolamento da comunidade branca local,
poderíamos antepor. Além disso, o texto de Franklin coincide
temporalmente com o que impulsiona o capitalismo industrial tornar-se
corrente na Europa, o liberalismo aufklaerung.
Já no trecho em que a tarefa enunciada está sendo
desenvolvida, ocorre o alinhamento como se houvesse sido
precedentemente justificado, de protestantismo, ascetismo e espírito
do capitalismo. O que no plano figurativo solve a diferença
inter-continental e o “protestantismo” é agora a filosofia de
vida inglesa. O texto focal torna-se a pregação de Baxter.
Nesse ínterim, ocorreu no entanto a desqualificação por
Weber, de qualquer possível conexão de capitalismo contemporâneo e
exploração colonial. Até aí, poderíamos pensar que ele, em
linhas gerais, reproduz o esquema histórico de Marx por onde o
capitalismo começa com a prática de enclosures na
Inglaterra, ao mesmo tempo reativando o comércio e expulsando os
servos do campo que assim se transformam em operários na cidade.
A meu ver, o modo de produção dos marxistas tropeça
nesse ponto, porque se ele é o esquema que permite selecionar apenas
o estruturante de um sistema social, fazendo assim da “história”
apenas a redução do “histórico”, nada mais que um
aparelhamento econòmico-sociológico, a sua acumulação
primitiva é na verdade a conceituação de uma transição,
ocorrendo entre os séculos XV e XVIII, não um
capitalismo real, o qual é definido somente em função da
sociedade industrial desde o século XIX. Mas na acumulação
primitiva, como se pode estruturalmente opor, senão por uma petição
de princípio, o monopólio colonial e a prática de enclosures?
Ora, o primeiro não é essencial ao modo de produção
por vir, mas o segundo, sim. Nenhum deles pode, contudo, integrar o
verdadeiro modo de produção precedente, o feudal. Por outro lado,
transições são definidas somente como a presença de elementos
pertencentes ao modo por vir, “nos poros” do modo presente.
Formalmente não pode haver um modo de transição, e a época
presente “de transição” é o domínio, ainda que assim
desafiado, do modo precedente.
Os marxistas gostam de desfazer como a um mito, qualquer
proeminência estrutural da transferência de capitais das potências
coloniais à emergência do capitalismo na Inglaterra, o que teve
lugar por expedientes engenhosos ingleses à exemplo do tratado de
Metuen. Se a Inglaterra assim engana os lusos, que pensam ter obtido
com ela um escoamento seguro dos seus vinhos, mas na verdade estavam
se obrigando a comprar mais caro do que estavam vendendo, devido aos
produtos ingleses serem manufaturados, por outro lado, como se fez
ver, com isso a Inglaterra se obrigava realmente a não procurar
noutra parte a mercadoria que tinha de vir dos portugueses, e ela
poderia na verdade ter obtido maiores vantagens, sem a obrigação
definida. O capital oriundo das colônicas não poderia assim ser um
determinante extrínseco à Europa, do capitalismo. Isso não
resolve o problema apontado, apenas isola mecanicamente os enclosures
como o fator estruturante do capitalismo atuando nos poros do que
seria o modo anterior.
Outra forma de contorná-lo é argumentar, agora por um viés
weberiano, que o colonialismo não tem nada de novo em relação ao
regime já operando na potência europeia – Portugal pode nunca ter
sido feudal, posto que sempre vigorou lá o “absolutismo” típico
do monopólio colonial. Em todo caso, esse “absolutismo” não se
explica em termos marxistas como um modo de produção autônomo, e
sim típico da transição designada “acumulação primitiva”.
O viés weberiano desse argumento se emprega para
contestar que o subdesenvolvimento nas margens seja função de
alguma dependência da exploração colonial-imperialista do
capitalismo no centro, por definição desenvolvido. O
subdesenvolvimento é apenas a perpetuação do
patrimonial-absolutismo que marcou a colonização devido a ter sido
ibérica. Mas como poderemos constatar, provar a desvinculação do
surgimento do capitalismo com o fenômeno da exploração colonial é
o que não se fez satisfatoriamente.
Ora, de fato Weber está operando a disjunção de dois
capitalismos surgindo conjuntamente, o que chamou de “
'aventureiro', político ou especulativo”, agora nem associável à
ganância dos aristocratas, nem dos monopolistas coloniais, mas
típico dos judeus como exemplos de aventureiros parvenues;
e o da “organização racional do capital e do trabalho”,
típica dos puritanos (protestantes ingleses).
O texto nesse ponto é bastante confuso. Trata-se de um
giro rápido, tendente a evitar qualquer solvência da modernidade do
ethos puritano em algo prévio, digamos, um cristianismo primitivo
que estaria mais próximo do judaísmo que assim poderia ligar este à
economia característica do mundo contemporâneo. Não é nada disso
segundo Weber, que o justifica no entanto, apenas ao cabo de uns
poucos parágrafos.
O aventureiro já havia surgido, como vimos, e nessa forma
do “judeu”. Jacob Fugger citado como antítese exemplar de
Franklin, é contudo bem conhecido nos anais da história econômica,
por exemplo em Hubberman, onde se informa o verdadeiro vínculo das
companhias das Índias ocidentais, como empresas da exploração
colonial, com os países protestantes. Conforme ele, “Havia sete
companhias das 'Índias orientais', sendo as mais famosas a britânica
e a holandesa; havia quatro companhias das 'Índias Ocidentais',
organizadas na Holanda, França, Suécia e Dinamarca. Companhias do
'Levante' e companhias 'Africanas' também eram populares; e de
interesse particular para nós, na América, eram as companhias
'Plymouth' e 'Virginia' organizadas na Inglaterra”.
Ora, nada havia de diferente no regime absolutista
“patrimonial” (= “tradicionalista”), inglês dessa época ou
português desde sempre.
Fugger é associado, em Hubberman, à politica
absolutista muito acentuadamente dependente da exploração colonial.
Ali temos a descrição do já clássico em história “capital
comercial”, em termos de fusão das empresas de exploração do
comércio com o Oriente, multiplicado em seu potencial pelo
franqueamento das vias marítimas, com a dominação colonial. Mas o
importante a destacar em Hubbermann, contrastando fortemente com
Weber, é o caráter impessoal das transações: sociedades por
ações, letras de câmbio, todo o arcabouço do capital financeiro
contemporâneo já está atuante antes da era industrial, o que Weber
sempre desqualifica como descrição histórica relevante – é
dogma seu, na História geral da economia, que o capitalismo
racional só existe desde a segunda metade do século XIX, e que tudo
o que há antes, no Ocidente e alhures ou é outra coisa ou foram
“simples pródromos”.
Enquanto Hubberman enfatiza a natureza atual dessas
instituições , salienta que a grande companhia nesse período
colonial não é produto de grupos sociais orgânicos, mas formas
impessoais de associação de capital porquanto as empresas de
exploração requeriam investimentos acima dos valores individuais,
sendo associadas ao comércio ultramarino de longa distância e
grande periculosidade. Obviamente tratava-se de nada menos que a
ocupação pela força de todo o hemisfério Sul, além da rotina de
intercâmbio com os longínquos países orientais já conhecidos.
Weber, inversamente, salienta o “caráter
embrionário” dessa sociedade anônima onde a participação
individual era intransferível. Seu critério é que o capitalismo
racional existe desde que o funcionamento da sociedade dependa de sua
perpetuação. Considera que o capital comercial poderia ser
desativado sem que a sociedade do antigo regime colapsasse – o que
é impossível sustentar, pois a supremacia do Rei só ocorre de modo
pós-feudal hegemônico devido ao capital dessa burguesia
ante-industrial que financia seu exército, como se sabe, do
contrário só existe o poder das aristocracias. Assim também
argumenta que as empresas do capital comercial não tem continuidade
com as empresas do capital racional. Chama agora de “capital
irracional” a todas as formas de exploração lucrativa anteriores
à ocidental contemporânea.
Hubberman mostra as grandes companhias de banqueiros,
dentre as quais a de Fugger, sem relação específica com o fato de
serem familiares. É o dono que importa, e não se espera que não
tenha interesses na perpetuação do seu patrimônio, mas isso não
seria algo totalmente desvinculado com a imagem contemporânea do
empresário. O que importa em Hubberman é que não há uma natureza
do grupo interferindo com o andamento ou constituição da casa
bancária. Fugger é tão importante porque exemplar da associação
da burguesia com o Rei, de que decorre o absolutismo como um regime
centralizado, em que o Rei tem maior poder que sua aristocracia. O
dinheiro de Fugger define a coroa de um país, e ele tem poder
suficiente para cobrar o empréstimo, uma vez o seu financiado
estabelecido no trono.
Por outro lado, as monarquias - como a inglesa -
participam de forma não oficial das aventuras pessoais de
especuladores e piratas, o que o irrita não por algum prurido ético,
ao que parece, mas porque assim o fingimento da boa rainha Bess
(Elizabeth) entra como componente dos negócios e ele já não tem o
controle total da situação.
Em Weber, Fugger é citado de início, quando se trata de
Franklin, e o tema do judeu-aventureiro retorna quando se trata de
esclarecer sobre o racionalismo econômico nos termos do ascetismo
por um lado, e da conexão do lucro disciplinado com o bom caráter,
por outro lado. Vai-se mostrar que se ambos são típicos do ethos
protestante, primeiro ilustrado em Franklin, não há nenhum
“hebraísmo inglês”, agora todo o peso da ética protestante já
estando transportado para suportar a associação histórica da
emergência do capitalismo com a Inglaterra.
Esse retorno assinala a meu ver, o fato de que o texto de
fato não progride, a partir dessa correlação básica. Mas
pode ser que ele não tencionasse fazê-lo, como se verá a
partir dos comentários associados.
Ora, até aqui toda sede de lucro do
indivíduo“tradicionalista” era explicada como passível de ser
fantasiada por ele como um meio tão bom quanto qualquer outro para
se atingir o objetivo indeslocável como o bem do seu grupo, a
família ou o Estado. Então Fugger, rejeitando como opção covarde
qualquer aposentadoria, aferra-se ao trabalho como “expressão
da ousadia comercial e uma inclinação pessoal moralmente neutra”,
com que ilustra um “espírito” bastante “diferente”
do protestante
A observação de Fugger se faz no contraste bem marcado
do ethos de grupo que envolve o indivíduo, porém, na sua atividade
particular mesma, e o ethos protestante somente centrado em si. A
antítese com a moralidade dos motivos do aferrar-se no entanto à
mesma coisa, de Franklin, é o importante. Por isso, não se percebe
nesse início que Fugger não está de fato ilustrando a pertença ao
grupo, mas somente à sua índole pessoal.
Mais à frente, porém, é pelo contrário, o judeu antigo,
e não o apátrida moderno, que poderia por seu ascetismo
aproximar-se do ideal protestante moderno, como alguns tentaram
afirmar, ainda que a índole de ambas as escrituras, antiga e nova,
não seja a mesma segundo Weber. Ele está pesando os prós e contras
da afirmação, para negar que seja relevante, ainda que haja pontos
de contato do antigo judaísmo com o moderno protestantismo.
Ora, o judeu moderno, isto é, praticante de um
“capitalismo pária”, é somente o relevante, quanto ao
papel dos judeus no “desenvolvimento do ethos capitalista”
caracterizado, inversamente, como “organização racional do
capital e do trabalho”. Fica ambígua a situação do judeu
medieval, já que ambos, medieval e moderno, são citados como
distando do antigo-palestino cujo traço essencial ao argumento é
ser terra a terra o suficiente para das antigas escrituras o moderno
puritano poder tirar algo que se adaptasse ao seu propósito
racionalista.
Mas Weber não está opondo a pertença de grupo, por um
lado, desses dois tipos de judeu, ambos sendo do mesmo modo apegados
ao ethos de grupo e muito tradicionalistas.
Enquanto que, por outro lado, se é obviamente oponível o moderno, pelo caráter “pária” do seu “capitalismo”, ao antigo, fica obscuro o motivo do deslocamento de que decorre um tipo psico-social como Fugger, se não é seu desembaraço da moralidade tipicamente hebraica e talmúdica como observância da moral do grupo.
Enquanto que, por outro lado, se é obviamente oponível o moderno, pelo caráter “pária” do seu “capitalismo”, ao antigo, fica obscuro o motivo do deslocamento de que decorre um tipo psico-social como Fugger, se não é seu desembaraço da moralidade tipicamente hebraica e talmúdica como observância da moral do grupo.
O problema aqui é que toda essa demonstração, que assim
se mostra bastante frágil, na realidade poderia ser abreviada, como
de fato tem sido, se em vez de “ascetismo” a ênfase de Weber
fosse diretamente o “racionalismo”.
Como já se demonstrou, os países protestantes não tinham
inquisições vinculadas especialmente à vigilância da produção
científica. Mas um episódio como o do tratado de Metuem nos fornece
uma pista bem mais valiosa quanto ao problema do contraste das
trajetórias das potências coloniais (católico-latinas) e
capitalistas (protestante-nórdicas). Precisamente a diferença
tecnológica que condiciona a Revolução Industrial somente na
ambiência das segundas.
Pois, se Portugal fez ou não um negócio normal
com a Inglaterra, é todo o plano de desenvolvimento técnico que
deixou de ser facultado a ele por via da motivação econômica nesse
ínterim, já que estava restrito à produção agrícola. Sem esse
aguilhão da economia, que mais poderia forçar uma mentalidade
inquisitorial católica, onde o império escolástico é tão
importante na universidade quanto a observância da moralidade na
vida pública, a permitir a impulsão da pesquisa científica?
Que houve o impulso “renascentista” é historicamente
comprovado pelo fato mesmo da imposição do jesuitismo barroco ter
sido pontuada como um fato de repressão sobre políticas de
liberação já em marcha nas instituições portuguesas, não apenas
como uma continuidade automática das ordens medievais. Não obstante
a Espanha ter sido mais afetada pelo Renascimento italiano, também
lá o jesuitismo barroco prepondera. Mas a Italia não foi nem uma
potência colonial, nem uma das nações nórdicas que organizaram
comercialmente o empreendimento colonial para assim tornarem-se
beneficiárias da transferência da renda meramente “metalista”.
O fator óbvio do desencadeamento do capitalismo é
a junção da ciência empírica – a física “moderna”
(Galileu) e a biologia “contemporânea” (Lamark-Darwin) - com a
produção. Isso já está bem evidenciado por exemplo, em
Rostovtzeff. Parece-lhe claro ter havido um capitalismo antigo,
plenamente atuante no período helenístico, mas diferenciável, sem
margem para dúvidas, do capitalismo moderno por não apresentar
aquela junção. A questão do trabalho escravo é também
importante, e isso é o que ressalto, já que o contraste é direto
entre trabalho escravo e assalariado, não havendo para o manejo
conceitual a necessidade do servo e da explicação de um processo de
superação da condição servil. Mas o texto de Rostovtzeff denota
um caráter estrutural da técnica, de que a diferenciação do
trabalho não goza.
Ora, o problema apontado é que o único modo de
contornar a evidência do caráter fundamental do capital oriundo da
colonização à emergência do capitalismo clássico (tipicamente
europeu) é centrar o fenômeno de sua emergência na liberação à
disponibilidade econômica, da técnica oriunda do
conhecimento científico. Por que Weber acentuou o ascetismo? É
por esse motivo, seja qual for, que o judeu se torna importante nas
suas considerações, porque o racionalismo e a inteligência
científica evidentemente não é de forma alguma um traço ausente
do judeu moderno, enquanto o é do judeu antigo e de toda conexão
“bíblica” do cristianismo de tipo medieval.
O fato do processo ser histórico, e a irrupção precisar
ser impulsionada por um fator novo é o que se mostra essencial a
Weber. O protestantismo é novo, o judaísmo, não. Mesmo que se
desfaça a ignorância do judaísmo como uma unidade, do mesmo modo
que o cristianismo não é, as correntes da sua pluralidade histórica
não demarcam uma ruptura de consequências tais como a dos
protestantes em relação ao cristianismo medieval, segundo Weber.
Mas nesse ponto, efetivamente ocorre uma petição de princípio,
porque o judeu moderno deveria, sim, provir de uma ruptura tão
considerável quanto esta, e igualmente influente na condução dos
fatos da racionalização progressiva, e tanto mais que ele é
aventureiro e pessoalmente interessado.
Então a correlação moralidade-capitalismo é que se
torna central. Estranhamente, ela se define por oposição a um
ethos de grupo, como individualização extrema, quando na realidade
a pessoalidade da salvação do crente implica um ethos de revelação
conexo à igreja e suas observâncias, ainda que não mais seus
sacramentos.
É interessante que isso seja tão importante a Weber
como o registro de suas notas permite considerar. Primeiro, o tema de
Fugger implica essa raridade de Weber falar de Simmel – Abel diz
que eles nunca falam um do outro, não obstante terem sido
íntimos. Depois, Weber acentua que pesquisou pessoalmente a conexão
do protestantismo americano com a mentalidade antigo-judaica. O
ponto é importante pela semelhança da tese de Weber com a de
Sombart, sendo que este colocou realmente os judeus naquela posição
em que Weber havia posto os puritanos protestantes, isto é, como os
agentes da mudança histórica em termos de introdutores de um
“espírito do capitalismo” eivado de “prudência e
racionalidade”. Contudo, se Dobb, que assim se expressa, os
iguala como numa mesma escola “idealista”, é para mostrar
que nenhum deles resolve o “enigma” do surgimento do
próprio “espírito” na história, supondo que o espírito
descrevesse suficientemente o capitalismo.
Weber refere-se a Sombart como pensando, diferentemente
dele mesmo, que o aspecto ético empreendedor capitalista fosse um
resultado do capitalismo, em vez de uma causa. Não é assim que
aceitam Dobb e mesmo Parsons. Ambos atribuem um mesmo significado de
capitalismo como um ethos racional específico a Weber e Sombart, mas
Parsons sublinha o fato de que, como vimos, Weber também tem um
conceito irracional de capitalismo, como qualquer empresa visando
lucro, o que não ocorre em Sombart. Dobb cita essa observação de
Parsons e concorda com ela. É importante notar que isso implica
interpretar a categoria “capitalismo geral” ou irracional como
puramente econômica, enquanto a de capitalismo racional seria uma
categoria histórica.
Creio que a maior dificuldade enfrentada pela tese de
Weber, é a que Robertson (“Aspects of the Rise of Economic
Individualism”) permite apreender. Entre autores protestantes e
católicos em suas atitudes quanto ao livre comércio, não devia
haver real opção se o empreendimento monetário já podemos
atribuir existente entre os medievos, isto é, antes da Reforma. Esse
é o ponto em que o capitalismo irracional de Weber encontra eco em
historiadores como Pirenne e Rostovtzeff, que sustentam ser o
capitalismo vigente na exterioridade do período atual, mesmo que
eles não concordem com a fixação dessa vigência, e Pirenne o
pense apenas desde o século XII, a meu ver com menos consistência
que Rostovzeff. Mas isso não significa aceitar a tese weberiana de
ser esse capitalismo ante-moderno, um “irracionalismo”.
A resenha que Dobb procede no capítulo introdutório do
seu A evolução do capitalismo, de que não seria oportuno
registrar a valiosa extensão, é feita com a finalidade de
justificar a posição marxista do autor. Ao menos deve-se notar que
a resenha inclui os casos de rejeição – por alguns economistas e
alguns historiadores – do conceito de “capitalismo” como
relevante. A posição se justifica, após ter sido feita a defesa da
relevância do conceito, devido a que Marx teria apresentado a
conexão do fenômeno de transformação histórica da economia
moderna e a diferenciação de classes, de modo que a própria noção
de lucro se permite ser diferenciada, tornando-se agora exploração
de classe. Ou seja, descrevem-se relações objetivas de
produção, e elas são qualificadas historicamente. Outras formas de
obtenção de lucro, que não pela defasagem dos salários dos
operários em relação aos lucros dos donos dos meios de produção,
não são capitalismo.
Mas a gênese teria que ser explicada, da mesma forma. Isso
já vimos não ser possível por meio do modo de produção. Assim,
por exemplo, em Hubberman, que parece-me bem claramente tendendo à
teoria marxista, enfatiza-se como devido ao caráter de exploração
da empresa colonial, citando aliás o próprio Marx sobre a
brutalidade sem igual do processo na margem, mas ela não explicaria
por si só aquele “algo mais do que o capital acumulado”
necessário a que “a produção capitalista em grande escala
pudesse começar”.
Aqui coincidem os relatos marxistas clássicos, pois se
trata de mostrar os meios pelos quais os enclosures, na sua
segunda versão a partir do século XVIII já contando com o apoio do
governo e ressoando com mecanismos legais, expulsam os servos e por
vários meios obtém a mão de obra “operária” para a
superexploração – inclusive de mulheres e crianças, até as de
dois anos de idade, como Hubberman mostrou vigente em Conecticut,
Eua, ainda em 1934. Como se deve compreender, trata-se de fenômeno
histórico de grande magnitude no cenário ocidental.
Foucault trata disso em termos da conexão com a
população oriunda do grande internamento, todos os que à exceção
dos loucos são agora, com a Revolução Francesa, liberados dos
regimes de cárcere vigente desde o século XVII, para integrarem
exércitos de trabalhadores enquanto a triagem encaminhará os loucos
aos novos personagens médicos da psicopatologia.
Como Hubberman acentuou, esse capítulo é escrito, como
extensamente em Dobb, na base de que os trabalhadores não iriam
integrar tais exércitos de operários fabris por si mesmos. Eram
condições de trabalho verdadeiramente deploráveis. Ninguém o faz
enquanto puder conservar qualquer pedacinho de terra para cultivar,
ou seus próprios instrumentos de produção artesanal para produzir
qualquer coisa vendável por menor que seja o ganho em relação ao
gasto. Era preciso por meios determinados, obrigá-los. Assim vem a
força da interpretação de Marx a propósito da diferenciação
social de classe como o cerne da transformação histórica
contemporânea.
Mas Hubberman também não deixou de notar que a
princípio, os enclosures não foram feitos com a intenção
de se dispor de servos como operários. Não se pensou neles, mas
somente nos fantásticos lucros provenientes do fechamento – se não
fosse assim, não fechavam. Já no século XIX, até os soldados do
governo entravam em campo para garantir a expulsão comandada pelo
nobre, dos camponeses que secularmente formavam a comuna em suas
terras, a fim de transformá-las em pastagens.
Por outro lado, a integração dos antigos artesãos
nos sistemas fabril não foi repentina, massiva e violenta, mas
gradual, tentada por meios muito diferentes, até que a “revolução
industrial” estivesse a pleno vapor e o proletariado de antigos
artesãos e servos das comunas estivesse geralmente concentrado na
infecta cidade grande assim formada nessa época, com seus mocambos
de moradia de paupérrimos trabalhadores e suas chaminés esfumaçando
as anteriormente aprazíveis paisagens dos arredores.
O que desejo salientar é o descompasso entre o que
ocorre em vários setores - o proprietário de terras, o organizador
da fábrica, o servo e o artesão. Estes últimos encontram no
organizador menos o explorador que os espera vir do seu comparsa
proprietário de terras, do que a absorção socialmente mediada de
sua disponibilidade. Além de todos estes, está o comerciante que
não opera conscientemente essa disponibilização, mas está à cata
de tecidos para distribuir enquanto por outro lado, também distribui
especiarias e produtos do Oriente na Europa. Assim, creio que Weber
trata esse assunto de forma que considero pertinente.
Ele não pensa que se trate, com o surgimento do
capitalismo, de um conflito de classes, mas de uma transformação de
classe. Ou seja, não há a estudar uma diferenciação substancial
de dois grupos sociais antagônicos e essencialmente
conceituáveis. E sim a transformação que fez dos representantes de
uma sociedade, a ocidental cristã, pessoas capazes de aderir a um
sistema de valores tal que nele todos os requisitos para a vigência
da sociedade industrial se considerassem normais.
Por outro lado, se a sociedade desse modo parece
sistemicamente reduzida, isto é, considera-se apenas o
ideal-tipo da ação racional a partir do ponto de vista de um
ator hipotético cuja identidade está sendo perspectivada
somente a partir do foco na classe dominante, devemos notar que o
proletário do próprio Marx deve considerar normal que os
tempos modernos impliquem a sua consciência - ou evolução - de
classe em termos dos mesmos valores de racionalidade industrial.
Outra coisa é de que modo o controle social dessa produção
deve decorrer.
Quando tomamos a sério a história do Brasil, vemos que
nela ocorre uma sociedade cujos valores são totalmente incoativos a
essa realização psíquica de tais valores como normalidade. Assim
se explica ordinariamente o porque da escravização negra: os índios
não se integravam no sistema do trabalho organizado da plantation,
ainda que à custa da própria vida.
Mas a racionalidade do ideal-tipo é universal à
sociedade considerada, e assim, se a decisão do controle importar no
socialismo, não se seguiria que ele fosse pensado pelo proletário
da sociedade industrial como nada menos que tão racional quanto
pretende estar sendo o controle pelos proprietários do capital.
Ninguém está disposto a retroagir ao antigo regime, ou à
sociedade primitiva assim estereotipada como “irracional”.
Aqui importa que o ator hipotético tenha sido
generalizado dos protestantes, porquanto eles eram mesmo,
inversamente aos judeus, o estrato historicamente representativo da
cultura das nações que lideraram a viragem à economia de mercado.
Hubberman salientou isso, ao referenciar aprovativamente a “ética
protestante e o espírito do capitalismo” de Max Weber,
destacando o Poor Richard's almanack de Franklin, como
exemplo do ajuste de retórica religiosa e as novas formas de
arrancar dinheiro, que tinham de ser sancionadas por algum sistema de
valores, já que haviam sido descobertas e estavam sendo praticadas
pela classe dominante.
Mas Hubberman cita um tanto ironicamente, a meu ver,
pois se trata para ele, sem sombra de dúvida, de mostrar que se “a
poupança e o investimento, praticamente desconhecidos na sociedade
feudal, se tornaram um dever na sociedade capitalista”, como
forma de louvar a Deus, isso ocorreu porque “o mundo dominado
pelos comerciantes, fabricantes, banqueiros exigiu um conjunto de
preceitos religiosos diferentes dos do mundo dominado pelos
sacerdotes e guerreiros”. Como Weber atribuiu a Sombart, ele
inverte a ordem da causalidade que é a de Weber, porque sua
problemática social não é a mesma que a deste.
Quanto à problemática econômica do capitalismo,
então sim podemos pensar que restou intacta. Aqui já salientei que
a meu ver nenhuma das posições consideradas tocou no cerne, que é
a produção de mercadorias em escala imaginável até a modernidade,
secundada pela tecnologia ou máquinas derivadas da aplicação
sistemática da pesquisa científica. Por que não se fizeram
simplesmente escravos, os antigos servos, já que aquelas classes
dominantes podiam tudo, e com efeito o podiam na margem onde os
negros estavam já escravizados? Pelo mesmo motivo que provocou,
quando a escala da produção alcançou o patamar próximo de massas,
a transformação do pensamento econômico, de mercantilismo em
liberalismo. Não há uma classe de número irrestrito de
compradores, é preciso aumentá-la. Mas a falência do capitalismo
clássico se deu por isso. É irônico, assim, que na discussão de
Rosa Luxenburgo e Lenin, sempre se diga que este a vencera, quando
pode ser que as coisas não sejam tão simples.
Como se sabe, a discussão gira em torno do
imperialismo, quando ninguém mais duvidava do seu caráter
fundamental ao capitalismo atual. Para Rosa Luxenburgo, isso
implicava um limite do capitalismo: algum dia, não haveria mais
mercado neocolonial a açambarcar. Lenin respondera que o capitalismo
sempre haveria de elaborar formas de perpetuar-se. Na verdade, o
capitalismo não se perpetuou, como parece. O clássico realmente
acabou, e o que temos hoje é o desenvolvimento das práticas
neocapitalistas estadunidenses – e depois toyotizadas, robotizadas,
etc. - que já vimos em todo caso irredutíveis à descrição
tradicional do capitalismo primeiro europeu
A ruptura essencial se mostra exemplarmente quando
da transferência do controle do petróleo iraniano, da empresa
inglesa ao capital norte-americano. O que o imperialismo europeu já
sabia, que era fundamental o acesso aos mercados do que hoje chamamos
terceiro mundo, ele porém não podia de fato obter além de um certo
limite, não pela limitação digamos geográfica dos continentes,
mas porque mesmo gastando o necessário para manter nos governos das
ex-colônias colaboradores conspícuos, ou os protetorados sob
controle das potências centrais, seria inevitável que as forças
produtivas localizadas se desenvolvessem a ponto de obter sua
emancipação política dessas forças externas impostas como se
fossem internas. Eis o quadro não somente da descolonização
afro-asiática, mas de emancipação econômica quase assegurada na
América Latina e OrienteMédio, após 1945.
Já o cálculo imperialista do neocapitalismo não é
feito apenas sobre a oferta de matérias-primas da margem, em troca
de industrializados, mas transfere a esta a incumbência do seu
abastecimento energético em vez de suprir-se a si mesmo, não
obstante o quanto possa pela natureza existente de suas reservas. Não
foi apenas mais o governo formal do país, mas a própria estrutura
do progresso econômico dele que o neocapitalismo assegurou
tornar dependente de si.
Os empréstimos estadunidenses não eram oferecidos,
desde então, à América Latina por exemplo, com vistas à
permanência de um governo, como por exemplo, o capital inglês o era
com relação ao império no Brasil do século XIX enquanto lhe foi
interessante manter. Mas sim ora com vistas a todo planejamento do
futuro local. Que as informações detalhadas desse planejamento e
submissão do controle dele, com permissão de mudá-lo à vontade,
pelos Eua, condicionam empréstimos e ajudas, está suficientemente
documentado pelos historiadores, como em Romanova se especifica mais
minuciosamente.
A globalização elevou essa forma nova e sistêmica de
dependência a um limiar irreversível, pois agora se trata da
implementação do próprio capitalismo pleno na margem, sem perigo
de que ele seja concorrencial a sério ao capitalismo no centro, se
ele lhe é estritamente complementar e controlado de lá por uma
miríade de formas possibilitadas pela informática e midiatização
do social – lembrando que as multinacionais não são realmente
descentradas pelo mundo, mas centradas a partir de suas sedes, assim
fala-se delas podendo ajuntar o complemento nacional conforme
a localização de sua sede.
Entre o neocapitalismo e a globalização o fator
determinante foram as ditaduras dos sixties, pois de forma
alguma os Eua teriam assegurado a total perpetração dessa forma
sistêmica de dependência sem a força bruta, apesar de tudo o que
já havia obtido com a política dos empréstimos e ajudas
condicionados, que exercitaram entre os anos quarenta e cinquenta.
Assim o neocapitalismo revela a conexão essencial de
todo capitalismo com a consumação, o mercado receptor
das mercadorias e/ou procedimentos, e a originalidade de Hubberman,
mesmo mantendo-se na linha de Marx, se mostra pelo fato dele estar
mais consciente desse fato. Assim ele percebeu claramente o limite do
que estamos designando o capitalismo clássico, mas anteriormente ao
rise do neocapitalismo norte-americano, limitou-se a especular
a crise por vir a partir do cenário de entre-guerras. É fato que
essas duas guerras foram motivadas pelo que parecia o meio de
resolver o limite, assegurando a alguma potência – Inglaterra ou
Alemanha - todo o controle dos mercados externos, de modo que nada
escaparia ao seu regime de força, na margem.
Mas isso era improvável de se conseguir – e vimos
que também Pierre George, no cenário de após essas duas guerras,
continuou na mesma linha atrelando qualquer futuro do capitalismo
europeu à unificação continental dos seus interesses. A força não
seria suficiente, não obstante, pois mesmo em escala nuclear, ela só
coloca a questão da permanência da própria humanidade. A força
foi usada como condição sine qua non, como vimos, pelo
neocapitalismo, mas para assegurar uma política viável que a
superprodução dos anos vinte mostrou não ser o caso do
capitalismo clássico europeu.
O cálculo de ajuste de um teto produtivo não deve
ser feito apenas contra uma quantidade determinada de mercado de
consumação, mas conta com os meios de reduzir os custos de
produção, integrados esses meios, se eles são postos na margem, à
própria condição sistêmica dessas economias periféricas que
assim também se tornam dependentes no seu próprio caráter
produtivo, do centro .
Assim, da obtenção de reservas energéticas,
sabendo-se que elas não são apenas extração e que, pelo
contrário, a extração fica por conta de toda a economia ocupada do
país, enquanto é o refino e o tratamento tecnológico aquilo que
assegura às “multinacionais” o controle local, foi a política
estadunidense quanto a isso, secundada na globalização pela
exportação fragmentária dos processos de fabricação planejados
vir de acordo com o levantamento dos recursos aqui localizados. Isso
pode ser obtido porque a indústria se desatrelou do que lhe era
imprescindível no século XIX, os fatores de localização ditados
pela proximidade de certas fontes de energia que agora se tornaram
obsoletas ou postas a explorar na margem, condições territoriais de
acesso à água e estradas, portos, etc. A indústria pode agora
emergir em praticamente qualquer lugar, a não ser que seja de um
tipo obsoleto. O avanço tecnológico não pode ser destrelado da
consecução das políticas de neocapitalismo e globalização.
Mas tudo isso implica um novo alcance da teoria social.
Ao marxismo, que vimos se aproximar o mais possível da questão
conflitiva da exploração, repugna a transformação da estrutura do
conflito, desde as classes no Centro à assimetria hemisférica,
posto que isso altera todo o seu parâmetro histórico-explicativo.
Por outro lado, nunca o pensamento “normal” – da sociedade de
dominação centro-tecnológica- precisou tanto de parâmetros que
fornecessem inteligibilidade e trânsito terminológico aos fatores
de integração sistêmica. Mas a própria crítica social está
defrontando uma realidade social de fato sistemicamente articulada. A
questão importante se torna aquilatar o potencial crítico da
influência de Weber, mas também apreender os fatores que implicam a
limitação do pensamento europeu em apreender a constutividade a si,
da margem.
6)
Os conceitos weberianos que devemos examinar agora
induzem a aceitar que a exposição a propósito da ética
protestante não limita a obra como uma filosofia da história.
Trata-se de uma Sociologia.
Mas quanto à “filosofia da história”, de fato não
é fácil a princípio, separá-la da “sociologia”. A exposição
de Hubberman o evidencia. O trecho vale ser transcrito:
“Que filosofia da história tem o
leitor? Acredita que os acontecimentos históricos são
principalmente uma questão de acaso, meros acidentes sem um tema de
ligação entre todos eles? Ou acredita que as modificações
históricas são devidas ao poder das ideias? Ou acredita que os
movimentos históricos podem ser atribuídos às influências dos
grandes homens? Se o leitor acredita em qualquer dessas
filosofias,não é um marxista. A escola de historiadores que tem em
Marx seu fundador e mais brilhante expoente explica os movimentos, as
modificações ocorridas na sociedade, como resultado -consequência
– das forças econômicas da sociedade.”
Outro aspecto que costuma ser entretecido ao exame de
Weber é o epistemológico, isto é, propriamente filosófico. Como o
ideal-tipo e o Verstehen são relacionáveis ao ambiente polêmico do
pós-positivismo, diretamente relacionado ao contexto das humanities
em sua transformação de época impulsionada pelos fatores que
já ressaltamos, eles tendem a ser visados como uma teoria do
significado. Alfred Schutz empreendeu toda uma interpretação da
sociologia de Weber, como evidencia Robert Gorman, com base nesse
pressuposto.
É que de fato a polêmica foi conduzida desde um horizonte
bastante discernível em história da filosofia, a partir do
neokantismo de Rickert e Dilthey. A tarefa seria depurar o kantismo
de qualquer “razão prática”, mas quanto à razão pura,
trazê-la para o âmbito da problematização do significado em
termos de valor. Culturalizando o significado, no entanto, o próprio
da filosofia é a condução à questão do sujeito, por um lado, e
inevitavelmente alguma filosofia da história, por outro lado. Com
alguma ousadia podemos pensar a história do ser heideggeriana como
uma filosofia da história em que pioneiramente se a reduz a um a
priori de sentido. Aqui não são os conteúdos de ideias evoluindo
com o tempo, o que conta, e sim o estruturante de qualquer ideia
possível o qual determina por sua vigência, a circunscrição de
uma época.
Não é que uma redução esquemática não houvesse já
sido feita, mas como assinalamos, se é o que demarca a emergência
do positivismo-realismo, toda redução feita era um determinismo, ou
ideal como em Comte, ou material-econômico, à exemplo de Marx.
Mas Weber exemplifica o requisito pelo qual se
compreende a emergência de um estruturante como o heideggeriano.
Ideia ou causalidade objetiva, essas coisas se apresentam como desde
sempre dadas e compreendidas. Nós não temos em relação a ela
nenhuma inquietude. São redutíveis ao que Kant – na sua tranquila
cisão de puro e prático – chamaria o significado transcendental.
As humanities nesse ponto, fazendo aceder o
Ocidente à confrontação da irredutibilidade cultural que não mais
estava podendo ser anulada em relatos “evolutivos” lineares,
afeta o transcendental. A irredutibilidade implica que ele não pode
ser resolvido nos termos da objetividade (universal). Resta a
questão de como lidar com os conteúdos de cultura não-ocidentais e
não modernos, de modo que o significado envolvido nesses conteúdos
não se sabe como definir não mais apenas em termos dos conteúdos,
mas de como se estruturam para funcionar como sentido para os
sujeitos de sua abrangência.
A crítica de Robert Gorman a Alfred Schutz, cuja sociologia
fenomenológica copia a de Weber por meio da filosofia de Husserl, é
pertinente a esse propósito, mostrando que o “mito da ciência
social fenomenológica” pode ser assim caracterizado por que a
crítica inicial ao objetivismo da ciência positiva afinal conduz à
identificação de “receitas” socialmente aprovadas, que seria
todo o conteúdo da consciência da pessoa normal, como o único
objeto da sociologia. Essa orientação metodológica então é
questionada por Gorman como sendo obviamente objetivista, e assim não
haveria motivos para circunscrevê-la como outra coisa que o tão
criticado positivismo. Mas devemos notar que a via de Schutz não é
minoritária.
O estudo de Lyotard sobre “O pós-moderno”
esquematiza o cenário atual ainda numa cisão tradicional entre
perspectivas positivista e hermenêutica. Mas se a partir dessa pista
quiséssemos ilustrar a via hermenêutica, um aporte bem referencial
seriam Berger e Luckman que se baseiam explicitamente em Schutz para
conservar a sociologia como tarefa de identificação dos elementos
formativos da “construção social da Realidade”.
Basicamente mostrar como as receitas sociais ou universos simbólicos
são interiorizados por aqueles que assim se tornam identidades
sociais. Nessa via, ambos consideraram a perspectiva estrutural um
equívoco que começa posicionando-se apenas como um modelo
esquemático, mas depois toma o esquema como lei universal. Não
obstante, eles também assim criticam outros parâmetros
funcionalistas, que diferem dos deles, por onde Schutz quer dizer a
confluência natural do amálgama único proveniente de Durkheim e
Weber. Ora, Lyotard está na verdade situando-se num parâmetro
“pós-moderno”, segundo ele ulterior ao dilema entre positivismo
e hermenêutica, ultrapassagem justificada por um motivo semelhante.
Os modelos “sistêmicos' (funcionalistas) que
geralmente sob a influência da fenomenologia-hermenêutica começam
por criticar a redução tecnizante dos positivistas, na verdade não
escapam de ser utilizáveis pelos “tecnocratas”, posto que a
ideia básica é a mesma, uma totalidade de funções sociais
formadas por papéis de identidade em que se integra realidade dos
indivíduos. Mas o marxismo não escapa ao dilema, segundo Lyotard.
Não só pelo que poderíamos notar, o fato dele ser variamente
influenciado ao sabor das “correntes”, mas pela prova histórica
de que onde se o adota, em partidos ou na União Soviética, tende a
coincidir com os objetivos do que nós chamamos ocidentalização, e
Lyotard designa “os reguladores do sistema”.
Assim, o outro horizonte de remodelação do
pensamento weberiano,alternativamente a Schutz é o próprio Parsons.
Ele está referenciado assim, como “o” parâmetro funcionalista,
e que chegou a beneficiar-se da cibernética, em Lyotard. Enquanto
que o pós-moderno ulterior ao dilema seria a crítica da identidade
como parâmetro do que realmente ocorre na interação social, e a
posição da contínua negociação interpessoal e
inter-institucional, junto à concepção do social sempre em devir,
em vez de uma totalidade de fatores identificáveis. Essa concepção
de negociação não reflete o universalismo racionalista da imagem
de linguagem
Assim, para Lyotard, negociação pós-moderna não é
buscar um termo identitário de maioria, mas forçar os limites
instituicionais ao ponto de podermos jogar os jogos de linguagem que
quisermos sem qualquer restrição institucional – cantar num
tribunal é possível? Por que? O ideal do horizonte sempre
franqueável do limite, contudo, se relativiza pelo fato de que na
instituição nossa participação também é mediada pelos jogos
nela correntes historicamente. Pode ser que essa posição
requeira mais coisas para se consolidar, pois que é que interfere
sócio-historicamente, com o fato de serem estes em vez de outros, os
gêneros que ora transitam, sabendo nós que são históricos em vez
de substanciais?
Nós estamos justamente examinando o modo como
neocapitalismo e globalização se relacionam a uma problemática
social onde o conflito não pode mais ser secundariamente tratado
como caso de degeneração dos processos identitários “normais”,
por outro lado restando o investimento da ciência social
expressamente com intuitos reacionários ou puramente
técno-empresariais – como quando se usa a psicologia para julgar o
melhor funcionário.
Como o próprio Lyotard observou, por mais que a “teoria
crítica” de Adorno e Horkheimer, ou o grupo Socialismo e
Barbárie dele mesmo e Castoriadis, tenham preservado alguma
linha do marxismo do destino de se tornar utilizado “à guisa de
elementos na programação do sistema”, na verdade já se podia
à altura da elaboração de “O pós-moderno” constatar
que era “o pilar social do princípio da divisão, a luta de
classes”, o que havia perdido a radicalidade.
Mas nesse trecho Lyotard é ambíguo. Ele afirma essa
perda em função de que a luta de classes só podia agora ser uma
utopia ou uma esperança, um protesto fosse em nome do homem, da
razão, da criatividade ou – eis o ponto obscuro – de um
improvável sujeito crítico a que se havia reduzido alguma categoria
social como os estudantes ou o terceiro mundo. Não fica claro se a
luta de classes se exaure porque não pode fornecer alguma
inteligibilidade a esses conflitos, ou se são eles que não tem uma
radicalidade tal que pudesse revitalizar o marxismo. De fato, essa é
a opção que na esquerda, a emergência de conflitos ulteriores aos
de classe social, suscitou.
Mas a índole do pensamento de Lyotard, que é desvincular
todo conflito de uma pré-concepção macro-identitária do que nele
se posiciona, parece vir ao encontro da opção que aderiu, em vez de
rejeitar como contrária aos interesses da luta de classes, a essas
lutas ulteriores à de classes, isso implicando não contar com o
aparelhamento conceitual de Marx. Não obstante, nesse aspecto o
“terceiro mundo” foi um item mais polêmico que outros como
“mulheres” e “minorias étnicas”.
[continua]
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