sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ciências Humanas e Evolução Social


        AVISO A POLÍCIA ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA MEXEM NOS CONTROLES, ALTERAM ARQUIVOS

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 DENUNCIE O FASCISMO BRASILEIRO QUE ESTÁ ATUANDO NA mídia e  INSTITUIÇÕES DE ESTADO COMO RIO DE JANEIRO

 As ciências humanas e o discurso do primitivo

                                              Eliane Colchete

    07/12/2012

          O espaço deste blog intitulado "romance de juventude" havia sido a princípio destinado a um texto cuja postagem fora sustada pelo provedor. Assim, corresponde a uma tentativa de postar o mesmo texto. Mais tarde pude recuperar o espaço daquela postagem e o blog correspondente - se bem que não tendo podido ser totalmente paragrafado - intitula-se "Vem você também vencer", sendo "romance de juventude" o subtítulo (gênero prosa de ficção).
         A segunda tentativa, que correspnde ao presente blog, foi ainda mais sabotada, pois a postagem não foi feita - curiosamente, o  bloco de notas do próprio blog ostentava um trecho, ainda que nada constasse como"visualização".
          Assim agora estou reaproveitando este espaço para textos que, como registrei alhures, tenciono publicar, não de prosa (ficção), mas de teoria. Versam sobre a relação das ciências humanas com a  construção discursiva da oposição centro-margem que atualmente não mais se mantem como apenas um postulado especulativo, mas ordena o planisfério como realidade geopolítica do "terceiro mundo" abaixo da "linha de pobreza" que cinde o planeta em dois hemisférios, Norte e Sul, não por uma circunstância de natureza - trata-se do conceito oriundo da geografia "humana".
          Reaproveitar o espaço se deve ainda a que obter "endereço" de novos blogs está singularmente dificultado.


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a) Paul Hirst e o juízo marxista da teoria social




   

                  Tratando da particularidade das ciências humanas em relação às ciências da natureza, a vinculação das Humanities entre qualquer forma de classificação ou de tipologia social e uma teoria subjacente que não pode deixar de ser explicitada na apresentação mesma da forma, está bem ressaltado em Paul Hirst (“Evolução social e categorias metodológicas”, 1977). A ênfase cabe a esse componente coercitivo ou restritivo.
            É claro que sempre, em ciências, todas as formas de classificação são “o produto de teorias que constituem os objetos especificados”. É o mesmo para as da natureza e as humanas. Mas nas primeiras cabe um relato – nos termos de Hirst, uma “história” – das formas de classificação que se apresentam sucessivamente. Esse relato equivaleria à história da própria ciência, como na teoria das espécies em zoologia, que seria o produto da sucessão contínua de Lineu, Cuvier e o evolucionismo. Não ocorre assim nas segundas.
           Em ciências humanas não“sequências definidas”, pois “as formas principais de teoria e classificação estão co-presentes”. Resultaria no “inventário de um número considerável de teorias sociais” qualquer tentativa de apresentar um “exame exaustivo das formas de classificação dos objetos sociais”. O projetado “panorama geral das classificações” logo se transforma “numa análise da posição da teoria nas ciências sociais.”


                Essa restrição vem sublinhada pela anedota a propósito do livro. Hirst fôra solicitado a escrevê-lo pelo editor da série em que foi lançado. O texto requerido seria “sobre tipificações das sociedades e classificações sociais.” Mas a rubrica revela-se impossível de ser preenchida. Pois, se como vimos isso depende de um exame geral das teorias humano-científicas, o problema da classificação iria inevitavelmente situar-se num plano meramente derivado, não essencial. Além disso, mesmo que se mudasse a expectativa, o tema de um empreendimento assim teria que extrapolar os limites de um texto padrão da série – não mais que umas 150 páginas, pelo que deduzimos do resultado efetivo.
               A opção de Hirst foi “restringir a atenção a algumas teorias sociais específicas e às formas de classificação que elas produzem”. Na verdade, trata-se de uma introdução onde se apresentam conceitos de evolução a partir dos quais se cumpre o objetivo de desvincular o marxismo do evolucionismo social. A partir daí centra-se a obra numa crítica da teoria de Weber por seu contraste às perspectivas do marxismo.
              Ou seja, há nitidamente uma série de pressupostos que não estão explícitos, como não o parecem estar nem para o autor, nesse trecho onde aparentemente temos a mais clara explicitação da metodologia que se vai empregar na construção da obra. Nessa explicitação subverte-se o intuito original do editor: “uma tese geral será apresentada e ilustrada através de casos específicos”, e “ultrapassa o tema da classificação” o foco marxista de avaliação, seja de Weber, seja das teorias evolucionistas do século XIX.
              Ora, quando se retorna ao contraste das classificações científicas, da natureza e humanas, vemos que um paradigma narrativo da história, subjacente ao modo como Hirst considera a continuidade em zoologia, resulta, inversamente, em que se pode, tratando-se das primeiras, lidar com cada classificação separadamente, mas não quando se trata das segundas. Podemos estudar uma classificação em ciências da natureza sem tocar na epistemologia ou na história das ciências. O limite máximo aqui é a atualidade da teoria aceita. Não teria muito sentido estudar Lineu ou Cuvier por si mesmo, nos dias de hoje, quando se trata do neoevolucionismo, já num âmbito genético. Em compensação, não há necessidade de nenhum deles para entender o neoevolucionismo, ou vice-versa.

               Em contraste, a opção de Hirst frente à adversidade das purezas taxinômicas decorrente do modo de ser das humanities não tem nada de fortuita. Se “Aristóteles, Montesquieu e Weber continuam a existir”, desses três ele só se ocupa de Weber quando se trata de uma relevância crítica em prol do marxismo. De modo algum se poderia escolher de outro modo. E como ressaltei acima, e o próprio Hirst demarca, um caso, o do evolucionismo seja como biologismo, seja como teoria social à Terray ou Morgan, é “estabelecer a diferença entre o marxismo e as teorias consideradas”, mas outro caso, o de Weber, é “questionar a posição da teoria como alternativa para o marxismo”.
            O que está subjacente é o que permanece indiscutido como se pudéssemos relegar à categoria simples do indefinido, o que sempre se poderia por outro lado admitir como um heteróclito que seria desejável não haver. Tanto o seria que, do sorteio de pontos de vista inúmeros e coexistentes, ressalta ainda mais a conveniência de uma objetividade demonstrável na anulação do acaso, tão bem que se o pudesse explicar, ao acaso mesmo, como o espaço da flutuação ideológica. Ora, o indiscutido – e assim tornado indiscutível – é o complemento nominal. Aquilo de que as classificações são formas, a saber, dos “objetos sociais”.
            Se de fato eles são a pluralidade social, decorrente na história do saber de um acontecimento capital, o da emergência ao pensável da pluralidade cultural, nada disso resta desde já tematizável. Uma unidade objetiva deslocou a pluralidade dos “objetos”. Não houve uma palavra sobre que se trata agora, apenas, de um termo operacional, “sociedades”, para o que de fato não sabemos o que seja, apenas que não mais são não-sociedades, além de constituírem-se como organizações culturalmente estáveis, aqueles grupamentos humanos que se encontram fora dos limites da tradição étno-cultural do que sabemos desde sempre ser a sociedade europeia.
             O fato capital, pois, é bem recente, tendo sua eclosão em princípios do século XIX, marcada pela falência das teorias do contrato social que representaram a última forma da objetividade da “sociedade” tal que pudesse restringir-se a uma realidade intra-europeia.

             Que o objeto das ciências humanas emerge esvaziado de objetividade, que por isso elas não são teorias extensíveis a Aristóteles e que isso torna bastante problemático, por exemplo, o estatuto histórico-epistemológico de Montesquieu, não é passível de ter por consequência a afirmação de um seu subjetivismo intrínseco.

           Tem, sim, a consequência de que antes de qualquer opção que se queira esclarecer qual seja e que metodologia instaura, é preciso tematizar a natureza do objeto – as sociedades humanas espalhadas pelos cinco continentes, que são basicamente desprovidas de características generalizáveis quanto ao modo de sua apresentação ao observador; e a restrição da observação que se compõe não só de inúmeros testemunhos presenciais, que podem ou não estar de posse de instrumentos categoriais conceituados na sua observação; mas que se resolvem em documentos registrados desses testemunhos, aos quais se somam outros tipos de documentos, aqueles hauridos na pesquisa “arqueológica” (etnologia) estendendo-se o termo para quaisquer recolha de produtos culturais oriundos da própria sociedade estudada.

            Acresce-se a isso que os testemunhos presenciais tendem a ser interessados de uma forma bastante determinada, como europeus: viajantes envolvidos com o empreendimento colonial ou cientistas sociais envolvidos com ambos, tanto os requisitos culturais do ocidente quanto com o empreendimento neocolonial ou em todo caso, geopolítico.

            Assim a “natureza” do objeto é ela mesma histórica, mas de um modo que não pode ser modelado pela noção de “relato”. Até o século XIX, um grupamento humano fora da Europa, ou do que era conhecido pela Europa como extensões institucionais semelhantes aos seus como os impérios asiáticos, não era uma sociedade. Nesse “fora” do social, como do cultural ou da “civilização” estavam, pois, os contingentes aborígines americanos, desde que foram descobertos pelos europeus.

            Antes dessa descoberta, não havia a questão do objeto, pois só havia o conhecido europeu, e isso então podia ser sem mais designado o humano. Quando ocorre a descoberta, levanta-se a questão da natureza do descoberto, mas não se encaixa na possibilidade dessa natureza, ser ela a de uma sociedade.
           Natureza e sociedade são, sintomaticamente, os dois conceitos que se entre -excluem, desde os descobrimentos até o século XIX. Após os acontecimentos da independência das colônias americanas, em princípios deste século, os constituintes das novas nações passam a ter que ser considerados como sociedades assim como elas mesmas o são desde que ostentam o estatuto da nacionalidade que define modernamente uma sociedade no sentido mais geral do termo. Quando, em princípios do século XX, os domínios territoriais africanos começam a ser franqueados pelo neocolonialismo europeu, os grupamentos aborígines daquele continente já tem que ser considerados sociedades, não precisam esperar conquistar um estatuto nacional pós-colonial, mediado pois pela cultura europeia, para isso.

           Não há nenhuma continuidade entre esses três grandes domínios de inteligibilidade social europeia: pré-descobrimento, mundo colonial anterior ao século XIX, e depois. Os acontecimentos que precipitam a ruptura de cada um deles e a surgência do outro são extrínsecos a tudo o que ocorre no domínio assegurado por qualquer deles. Podemos designá-los períodos “antigo”, “moderno” e “contemporâneo” de uma “história” da inteligibilidade sócio-antropológica europeia (“ocidental”).



2)

         A terminologia de Nietzsche a propósito da saúde e da doença não é habitualmente tematizada com a importância que merece. Aqui será considerada suficiente para demonstrar, por um lado, a unidade metodológica que podemos atribuir ao que designaremos “Realismo” e que enfeixa o conteúdo criticado por essa terminologia. O Realismo assim como está sendo considerado, pode sim esclarecer a homogeneidade de opções no entanto bem variáveis, que se abrigam na história das ideias sob o rótulo de “evolucionismo”. O que nos coloca numa perspectiva crítica em relação ao intuito relacionado à discussão de Hirst.
             A noção realista e positivista implicitamente criticada por Nietzsche por meio dessa terminologia, não esgota a intenção do seu emprego. A terminologia é, ou se concebe, como um novo modo de pensar, ou ao menos novo em relação à voga que critica, mais típica de décadas anteriores aos anos setenta-oitenta do século XIX, período produtivo típico de Nietzsche. Mas o “positivismo” não se esgotou apenas por ter sido deslocado como uma dominância esclarecida como aquela homogeneidade.
           Ocorre que de fato esses rótulos são indispensáveis numa história que não é só de ideias, mas que pelo modo como se desenvolve o Ocidente “contemporâneo” - mais facilmente designado “modernidade” - implica um entrelaçamento geo-político. Todos os rótulos de época desde o Romantismo são ao mesmo tempo que práticas culturais adjacentes e mais ou menos heteróclitas desenvolvendo-se neles, juízos capitais do Ocidente a propósito da modernização como processo que amalgama industrialismo e cientificidade determinando um juízo mais geral sobre a diferença social que isso implica. Essa diferença é o cerne geopolítico que define toda a implicação desses itens a uma auto-posição do Ocidente frente aquilo que a ele se opõe doravante por não protagonizar o processo de modernização e inversamente, apenas dever ser dele a repetição.
            A modernização não ocorre no interior da Europa sem ser ao mesmo tempo de natureza internacional e impregnada aí de um componente de dominação ocidental. O imperialismo se desdobra por um a priori da universalidade virtual do processo de modernização. As sociedades não modernizadas, o que significa não-ocidentais ou ao menos não tipicamente ocidentais (europeias) são sociedades que se modernizarão por alinhamento ao processo ocidental, conforme o pressuposto. Esse alinhamento é inevitável pela natureza internacional do que o Ocidente opera como modernidade: o capital de livre circulação e a ciência.
            Ora, quando Nietzsche enuncia sua concepção de que saúde e doença não devem ser pensados como parâmetros de um critério extrínseco que é como a lei cujo correlato se põe pelo funcionamento do corpo saudável, ele está coibindo que se modelize o pensamento. A avaliação livre desse critério é um ponto de vista: ora da saúde que avalia a doença, ora da doença que avalia a saúde. Ambas são estados intrínsecos ao corpo. Um paradigma extrínseco ao corpo, somente, seria de que se derivaria qualquer critério de um dever-ser modelar do corpo.
           Inversamente, a homogeneidade das produções típicas das décadas anteriores, entre os anos quarenta-sessenta, além de serem críticas do Romantismo, está no que se ostenta como podendo caucionar essa crítica, a saber, a noção mais geral de Lei como correlato do funcionamento que modeliza o fenômeno tal que por analogia ao corpo, esse funcionamento seria o saudável, isto é, circularmente, aquilo que deveria ser. Entre o realismo-positivismo e Nietzsche, o presente ocidental deriva de um a priori legal – como as coisas deviam ter vindo a ser - a uma apreensão de sua alteridade: como entre tantas coisas que vieram a ser, também isso veio.

             Ao asseverar repetidamente que Morgan , típico antropólogo positivista, não lida com qualquer a priori de lei, Hirst chega à contradição consigo mesmo. À página 34 do livro citado, lemos que “A sequência Selvageria, Barbárie e Civilização não é função de alguma 'lei' evolucionista teleológica que ordena determinado fim ou finalidade para a humanidade”. Já à página 47, em polêmica com Terray, Hirst riposta: “Na verdade, a história de Morgan não se torna obrigatória em virtude de alguma 'finalidade', mas se torna coerente e é explicada teleologicamente pela referência à 'mente humana' “. A tradução de que disponho sendo a da Zahar editores.
          Já na exposição de Spencer ele registra que o próprio não se concebeu como procedendo uma teleologia, “porque o progresso é um processo objetivo que envolve toda a Natureza”.Mas para Hirst “apesar disso, a posição de Spencer é teleológica – a teleologia é essencial a qualquer concepção de progresso”. Explica a discrepância com base em que para Spencer teleologia implica uma ação propositiva, portanto implica um agente determinado.
            Creio que um dos problemas da argumentação de Hirst, desenvolvendo-se em meio às suas informações bem escritas sobre as importantes teorias que examina, é justamente a oscilação entre as noções de teleologia e finalidade.
            Assim, para ele só existem duas posições. O teleológico é tudo o que subentende a submissão da “natureza inteira a um princípio universal, que produz mudanças intencionais”. Não teleológico é o que não postula um princípio assim, como por exemplo a seleção natural de Darwin, onde só há a variação indivíduo-meio. Mas acrescenta Hirst um outro tipo de teleologia, a dos “propósitos humanos”, chamando-a weberiana e aplicada à sociedade.
           Ora, a noção de Lei natural-universal-racional, que arrolo como o a priori epistemológico “realista-positivista”, não precisa ser derivada de qualquer princípio universal conceituado como intencional. Só precisa autorizar um mecanicismo natural - enquanto "objetivo" -  determinista do fenômeno inteiro como do seu desenvolvimento.
             Evidentemente há uma oposição conceitual, não entre Evolução Geral e Específica, mas entre transformismo e evolucionismo. nessa acepção positivista Este é determinista-mecanicista, aquele não. O Romantismo desconhece o evolucionismo nessa acepção. Nem por isso ele deixa de apresentar interpretações da transformação das espécies lamarkiana, em termos filosóficos. Não devemos crer que apenas o fato da defasagem da teoria de Lamarck em relação à de Darwin, implique o positivismo, mas sim que este deriva das limitações de um darwinismo anterior a descobertas como da genética e a práticas epistêmicas como o trabalho de campo em antropologia.
             O que Spencer procedeu foi uma interpretação do evolucionismo, isto é, subentendendo que a transformação das espécies se submete a uma lei independente justamente da intenção de qualquer dos componentes que ela move. Obtendo-se a lei natural-objetiva, o que se legitima é o presente da transformação. Este não se restringe à presença de si. O Romantismo vê na presença de si o fenômeno mesmo a se interpretar. O Realismo-positivismo vê nisso uma mera presença de si, e o presente legitimado é algo mais do que o estar aí do que pode restar conjuntamente.

              A lei de Spencer é a diferenciação: a transformação é sempre do menos ao mais heterogêneo, ou seja, de um meio indistinto a estruturas distintas do meio e internamente organizadas. A lei de Darwin é a adaptação, e por isso se pode falar no mais apto, ainda que por relação apenas à variação do meio. Em Nietzsche, ainda que não procedendo interpretações como a dos românticos, não se poderia falar desse “mais apto” de forma alguma. Assim, para Nietzsche é niilismo justamente aquilo que Hirst se apressou a negar que fosse. Conforme Hirst, a prova de que Darwin não é teleologia, é dada pela asserção de que na sua teoria “a história da vida na terra é apenas um caso definido da operação das leis da seleção natural”.
             Esse “apenas” não poderia conter maior dose de niilismo em linguagem nietzschiana, cuja tradução seria aquele mecanicismo que Hirst mesmo atribuiu à teoria de Darwin: “é uma teoria geral do mecanismo pelo qual as espécies se transformam e, diferentemente de uma generalização histórica, não se limita a um conjunto dado de transformações”.

             A caracterização de Morgan como uma História também é contraditória, posto que como vimos, sustenta-se por uma lei do desenvolvimento mental. Uma vez que a disposição é de “fases”, como se transcreve de Ancient Society, o resultado é à “Divina Providência” como a que se deve agradecer a Civilização.
           O ponto para Hirst é que isso implica que conforme Morgan, poderia não ter ocorrido esse resultado. O que Hirst não alcança é que o determinante epistemologicamente é poder subentender-se o resultado como “nossa presente condição, com os seus inúmeros meios de segurança e felicidade”, sendo devida “às lutas, aos sofrimentos, aos esforços heroicos e à labuta manifesta de nossos ancestrais bárbaros e, mais remotamente, selvagens”.
          Nós hoje não compreendemos assim, pois não há continuidade como história evolutiva, de povos como os americanos e europeus. E desde o pós-positivismo, da época de Nietzsche em diante, não se pode montar qualquer cadeia universal linear de progresso entre as várias culturas independentes conhecidas.
          Ou seja, o problema desse argumento de Hirst é ter confundido lei e plano, de modo que para ele se não há um plano, então não há determinismo, quando por finalismo devemos entender esse determinismo não possivelmente prognosticável por um plano, mas derivando-se atual e exclusivamente pela atuação da lei. Por essa ordem de ideias de Hirst, calcada no marxismo que devemos lembrar ter sido produzido inteiramente nos quadros da antropologia positivista, deduzir ou pressupor um plano seria a tarefa da execrada “Metafísica”. Mas ignorar a atuação determinista e inescapável da lei, igualmente. 
            Repetindo, o determinismo de que se trata está no próprio Marx, e consequentemente Hirst comunga dele. É o que se vê quando discorre sobre o de fato complexo tema da teoria social de Weber. A dificuldade sobre esse assunto se relaciona à ambiguidade inevitavelmente gerada pela noção que em Weber é axial, a Racionalidade. Mas como para Hirst e o marxismo, é impensável que a Racionalidade não seja o bem maior presente – naquele sentido “legitimado” do termo – torna-se nítida a captura dos seus argumentos pelo campo de diagnóstico proporcionado por Weber.
          Contudo, o que espero mostrar é que o pós-positivismo não eliminou o discurso teleológico que assinala a modernidade ocidental como horizonte das sociedades humanas, por outro lado isso implicando um passado em relação ao ocidente que é o "primitivo" numa condição de oposição ao passado do ocidente.
        

    






3 -

          Pode ser que Morgan tenha sido mais sutil que Spencer foi ao se pronunciar sobre os "primitivos" nos termos citados por Hirst: “A traição e a índole vingativa que os bosquímanos ou os australianos revelam entre si e para com os europeus acompanham a inimizade permanente que existe entre eles e os habitantes das selvas”.
            Mas se Morgan limita-se a demonstrar como de nenhum modo a condição diversa da civilização – cujo ápice é a modernidade ocidental – pode ser suposta mais do que inferior a ela, Marx é ainda mais direto que Spencer. Fala da “consciência de carneiro, tribal” que é a dos inícios do homem, “tão animal quanto a própria vida social desse estágio” - segundo a tradução de que disponho de A ideologia alemã ( Ianni O. Teorias da estratificação social: leituras de sociologia; capítulo 4, parte1; São Paulo, companhia editora nacional, 1978).
            O primitivo segundo Marx é “simples consciência gregária”, e a diferença dele ao carneiro é apenas de que o primitivo pode ter lampejos de consciência, ainda que, como o carneiro, em si seja só instinto.


             Hirst se indaga a propósito, se as coisas são como Spencer diz, de como é que se teria evoluído de um estado tão brutal ao da humanidade atual. Acrescenta então que segundo Spencer “a pressão populacional obriga o homem a melhorar a produtividade dos meios de subsistência e a reduzir a fertilidade da espécie”. A divisão de trabalho e a cooperação típicas da civilização são os fatores de que resultam a produtividade. A influência de Malthus é interpretada por Spencer como o fator da diferenciação

           A ideologia alemã nos informa, do mesmo modo, que “Esta consciência de carneiro, tribal, recebe seu desenvolvimento e seu aperfeiçoamento ulteriores com o aumento da produtividade, o aumento das necessidades e o aumento da população que está na base dos dois precedentes. Assim se desenvolve a divisão do trabalho...” que a princípio foi sexual (entre homens e mulheres) e ao termo da evolução se encontra entre “trabalho material e intelectual.” Aqui, segundo a anotação que a edição citada conserva, Marx pensou o nascimento da ideologia : “coincide a primeira forma dos ideólogos, padres”.
           

           Particularmente a guerra é algo que a civilização detesta e o selvagem adora, na concepção de Spencer, o que se compreende se a cooperação é o índice do mais adaptado frente ao menos.
          O instinto ou “natureza sanguinária e predatória” está na origem da humanidade que vai se transformar num homem civilizado que teria a maior relutância no morticínio:”ele tem prazer em ver prazer e sente dor em ver dor”, o que torna Spencer aproximável por Hirst ao utilitarismo.
           Entre o menos e o mais adaptado, um óbvio juízo de valor subsiste: “A guerra, a selvageria dirigida pra fora por um grupo social, livra a Terra das raças inferiores”, finalidade a que segundo Hirst serviu a guerra nas fases intermédias da evolução. Se Hirst não menciona Comte, este é o prognóstico típico dele. Segundo Comte, o pai do positivismo em sentido estrito, o militarismo é a fase anterior ao cientificismo.            
             Marx e Engels, no texto que estamos examinando, intentam desmistificar a guerra no sentido de desvincular a explicação de sua existência de algum componente subjetivo. E de fato a “consciência de carneiro, tribal”, não o é, mas sim apenas decorrência da inexistência de relações sociais acima da mera gregaridade.
            A guerra é já “uma forma normal de relações” decorrente da “necessidade de novos meios de produção” imperiosamente decretada pelo “crescimento da população”. Forma substituída sucessivamente pelo escravismo, pela servidão feudal e pelo trabalho assalariado na modernidade, segundo Marx e Engels.

              Não obstante as diferenças, o sedimentado pelo evolucionismo social em questão, de Spencer e Marx, é a legitimação do presente moderno-ocidental como telos (finalidade). Essa base é duradoura, e na atualidade está subjacente a toda discussão em torno do “desenvolvimento”, termo que substituiu “progresso” , este o que vinha desde o realismo do século XIX sendo mantido como sinonímia de evolução social – assim como no dístico comteano da bandeira brasileira (“Ordem e Progresso”).
              Vemos que o termo desenvolvimento só se afirma desde o horizonte da problemática de diferenciação internacional gerada pelo imperialismo. O país é desenvolvido não apenas se ele é “rico”, mas se ele não é “dependente”. Ou seja, toda a problemática transcorre na imanência do fato econômico-tecnológico da modernidade ocidental, e vemos que é somente dessa base que se desdobram após Hegel e como críticas dele, as conceituações da transformação sócio-política correspondente, a emergência do Estado de direitos ("sociedade liberal")
              As formas de dependência se traduzem, porém, na teoria social corrente, não imediatamente pelas formas imperialistas históricas de impedimento da independência da produção dos países classificáveis “dependentes”. A classificação tende a traduzir-se como “atraso”, de modo que as formas de dependência pesquisadas o são a fim de que se identifiquem os componentes cuja presença são os fatores internos do “atraso”. Por outro lado, não se fala no país desenvolvido como “normal” - se ele é o oposto do país “atrasado”. E sim deles como países “avançados”.

                 Ao longo do predomínio do positivismo, essa mesma estruturação “epistemológica” esteve atuante, apenas muito simplificadamente, pois não se precisava pesquisar para definir o fator interno do atraso. Pela própria lei do progresso social, esse fator eram os primitivos e os miscigenados entre nós. O outro determinante do equacionamento da diferenciação moderno-ocidental, além da redução geral do suplemento ao atraso, é a identificação do governo suplementar como uma instância atribuída de uma tarefa única, a de prover o plano da superação do atraso.
                O plano em si não é o governo que supre, se sua concepção deriva da natureza mesma do que é o atraso. O governo tem apenas que fornecer os meios materiais de execução do plano. O governo não é, assim, a garantia da legalidade e da cidadania como resultante impensável não já consubstanciado e como se desde sempre, da natureza da composição social local. Cada governo vai iniciar a legalidade, a partir do plano de cópia do processo desenvolvido - burguês ou marxista.
               Por exemplo, à época do Positivismo, o fator do atraso significava a matriz étnica, o não-branco, o não-europeu. O plano só podia já estar compactado como a eliminação dessa matriz, mas os meios é que o governo local primeiro-republicano devia forjar.                 Antes da República não havia mentalidade de governo propriamente nacional, o Império era o atravessador entre a Inglaterra exportadora de manufaturados e as classes latifundiárias que a serviam de matérias-primas. Sua incumbência era, portanto, evitar a formação da grande manufatura local.
              A política primeiro-republicana de atração de imigrantes europeus foi o meio universalmente consagrado. Já a consideração do papel da educação da matriz étnica não-europeia não obteve qualquer consenso, sendo geralmente mais habitual, não obstante, a posição de que essa matriz seria incoativa aos investimentos nesse sentido.
                  Era um fator de inércia que só o branqueamento progressivo por via da imigração, com eliminação progressiva do não-branco, especialmente dos miscigenados, iria poder superar. A imigração trouxe o marxismo militante em inícios do século XX, e como o estudo de Konder (“A derrota da dialética” ) registrou, essa interpretação habitual aqui é também a que os primeiros marxistas fizeram.
                  Eles consideraram o elemento miscigenado o “mestiço moral” incapaz de valores éticos e objetividade coerentes com a Racionalidade. Condenavam especialmente o que consideravam tendências lascivas – a frequência a bailes, a expressão da sexualidade. Com isso, anteciparam de algumas décadas o que W. Reich (“A revolução sexual”) descreveu como a trajetória da política sexual na URSS desde os tempos libertários da Revolução ao fechamento conservador dos comitês encarregados do controle de moldagem do comportamento sexual das massas conforme o que se decidisse ser o interesse estatal, e da produção de instituições sociais que atuassem esse controle (propaganda, orientação médica, mecanismos de desincentivo, etc.).
            Essa conjugação insólita de caráter moral e característica racial é o que se pode atrelar sem dúvida ao realismo-positivismo como um cenário de predominância de concepções científicas que emergem tipicamente da transição de Lamarck a Darwin, isto é, de um transformismo que independe de leis formalmente autônomas podendo ser explicado pela ação, a um evolucionismo que se estrutura unicamente como a elucidação dessas leis.

              A confusão de Hirst me parece dever-se a uma tematização insuficiente do cenário transformista pré-darwinista: “Darwin não apenas introduziu a noção de modificação evolucionista em uma morfologia até então estática – ele destruiu essa morfologia e a concepção das espécies que nela se baseava”.
             Mas há um interregno bastante rico em termos teóricos, entre a concepção de “natureza como uma entidade consumada, cujos elementos estavam todos unidos entre si, constituindo o todo” que conceitua bastante bem o cenário fixista, e o darwinismo. Esse interregno é o Romantismo e na atualidade a problemática retorna a alguns dos seus aspectos, pela superação do percurso único meio-indivíduo característico do determinismo darwinista.
             O Romantismo é o ambiente de interpretação desse real perfeitamente insólito - e impensável - para toda longa trajetória da Metafísica, a saber, da ação imanente à natureza. Não existe essa ação pensável desde o Realismo-positivismo, pois ela foi deslocada pela lei como objeto da ciência a explicar toda aparência de “história”, toda aparência de ação imanente existente por si.
            Em contrapartida, Hirst não apreende a mudança das concepções científicas que instauram o cenário ulterior ao realismo-positivismo, e onde vem a emergir a teorização de Weber. Aqui é justamente a conexão de caráter – seja algo intrínseco à natureza do ente num estágio evolutivo (Spencer), seja algo derivado unicamente do estágio da “inteligência pública” ou “social” (Marx; Morgan) – e característica biológica, o que se torna inviável em função estritamente das ciências especializadas.

             A problemática da diferenciação moderno-ocidental foi assim inteiramente transformada desde o pós-positivismo, na transição ao século XX. Mas não a ponto de elidir o a priori de sua instauração. Para o bem ou para o mal, com exceção de Nietzsche que expressamente quis posicionar-se além de ambos, um presente continuava legitimado como ulterioridade a todo outro conhecido fato humano, o presente moderno-ocidental.
             Ora, o marxismo como uma interpretação desse presente em termos transitivos em vez de definitivos, não seria a novidade que foi se essa transição não fosse por ele explicada em vez de apenas algo possível mas indefinido, como em Morgan. Mas se ele deveria transformar-se a si mesmo ao equacionar as transformações epistêmicas, na verdade o que assistimos, ao par de sua grande expansão e pluralidade de tendências resultante, são recusas desse equacionamento e formas expressas dessa recusa.
              Como já assinalei, o ponto chave da transformação em humanities é o que incide sobre a mudança na concepção de Racionalidade – e já é assim desde Nietzsche. Aquilatar a extensão dessa mudança é bastante complexo pois implica não só a consideração de cada foco, dentre os inúmeros em que se expressa, e especialmente é o caso da sociologia compreensiva e Weber, mas também de uma ruptura muito profunda e abrangente que se designa geralmente como a “linguistic turn”: emergência do pragmatismo a partir de Peirce, da lógica simbólica como em Boole, e da linguística saussuriana.
         Por um lado, declínio do Ocidente e crítica da Razão ante-linguística; por outro, novo contexto teórico-revolucionário ocidental, o dessa estrutura ou linguagem, com poderes universalizante-explicativos muito maiores do que jamais se apresentara.
           Nesse ponto convém mostrar como o marxismo contorna essas implicações para manter-se como a opção racionalizante da ocidentalização ou modernização objetivadas em termos do processo ininterrupto de alinhamento internacional desde o Romantismo (início do século XIX). A seguir tornamos a esse ponto de ruptura para desenvolver os focos importantes e especialmente tratar a sociologia de Weber.

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                A posição do marxismo com relação à arena da modernização, o mundo do subdesenvolvimento,  não é facilmente definida. Não obstante, há um consenso expandido a propósito do “desenvolvimento” que podemos rastrear intocado desde as expectativas sociológicas marxistas.
             “Os países subdesenvolvidos”, de Yvez Lacoste (ed.Difel), tenciona preliminarmente relativizar a dicotomia entre o desenvolvimento e sua insuficiência. Mostra que há vários conceitos de subdesenvolvimento, mas nenhum deles é plenamente coerente com a realidade à época da guerra fria. Quando se trata do conceito na sua versão marxista segundo Lacoste, tende a definir-se como decorrência da exploração colonial e neocolonial de modo que seriam os “mecanismos” da “troca desigual” o que impediria a industrialização dos países do terceiro mundo.
           Mas Lacoste está salientando que a condição de não industrialização ou de fraca industrialização não é mais aplicável ao terceiro mundo. Assim é interessante que nessa tacada ele expressamente esteja ao mesmo tempo atingindo análises weberianas e marxistas, porque a sociedade pouco ou não-industrializada tenderia a ser em todo caso caracterizada como a “tradicional” da classificação da sociologia compreensiva weberiana.
             Mas o resultado a que chega é um tanto dúbio, posto que Lacoste não se descarta afinal da terminologia do subdesenvolvimento. Ele circula a alternativa de “crise dialética” para “o que é (o que se convencionou chamar) o subdesenvolvimento”, mas não substitui uma coisa por outra e o texto continua a grafar “subdesenvolvimento”.
            Na verdade, ele está mais acentuando o caráter problemático e contraditório da matéria do que tencionando apresentá-la como algo já solúvel – o processo mesmo da modernização é contraditório e no terceiro mundo isso apenas se acentua. Não deixa, porém, de proporcionar um viés que julga pertinente na condução da problemática e é nisso que se antagoniza ao que posiciona como o dos marxistas. 
            Podemos ver que os marxismos estão, contudo, cindidos quanto a esse problema e a posição de Lacoste não se afasta muito de um dos lados dessa cisão. A evidenciação dessa cisão é factível pelo contraste de leituras da história brasileira recente, como entre por um lado Werneck Sodré e um certo consenso dos manuais escolares, e por outro lado apresentações como de Paul Singer e Warren Dean. 

              Por esse viés de Lacoste, não seria numa abrangência planetária ou internacional (“de país para país”), ou seja, na configuração da troca desigual, que se iria compreender a problemática política da modernização no terceiro mundo, pelo motivo mesmo que impede supor haver aí uma condição de ausência de indústria. A industrialização de fato já está em adiantado estágio no terceiro mundo, mas ela foi feita pela penetração de poderosas firmas multinacionais por meio de alianças formadas com minorias autóctones que assim obtiveram um papel de dominação sobre o restante da população contra cujos interesses a industrialização foi feita, já que esta se ordena somente segundo os interesses das multinacionais.
            Se é assim, o ataque à condição de subdesenvolvimento não é uma luta contra algo vago demais chamado capitalismo, mas contra um imperialismo concretamente aparelhado pelas grandes firmas atuantes em cada Estado por meio da pseudo-representação daquelas minorias autóctones. É em cada Estado, conforme suas condições nacionais estritas -históricas, econômicas, populacionais, etc. - que a luta deve se empreender, não numa escala planetária. Até por que, entre os tópicos de crítica às noções que se amontoam por detrás da palavra “subdesenvolvimento”, está a evidenciação de que se tratam de países cujas realidades são muito diferentes entre si para formar um todo homogêneo como base de uma luta comum, segundo Lacoste.

                A meu ver a esse exame teríamos que acrescentar os acontecimentos que transformaram o problema do terceiro mundo num item a mais na agenda da problemática ecológica planetária – como se poderia equacionar pela referência aos encontros que se sucedem desde a posição do empresariado agremiado no Clube de Roma, onde o desenvolvimento tornou-se função de uma demanda energética que não pode ser mundialmente suprida, e assim na posição desse empresariado primeiro-mundista, deveria ser formalmente sustado para os países que ainda não o haviam atingido.
               A polarização dos representantes destes países - ainda não desenvolvidos - em torno da opinião contrária  ao Clube de Roma é ao mesmo tempo bastante compreensível, porque nós precisamos nos desenvolver já que nossas sociedades não estão mais organizadas como antes da colonização; e performática da impossibilidade da teleologia que estamos conceituando, posto que o limite ecológico não pode realmente ser ignorado por uma pretensão qualquer.
            Entre as duas pontas do dilema do terceiro mundo, encena-se o discurso do primitivo como redução das histórias localizadas a meros capítulos da grande narrativa designada "progresso" (desenvolvimento tecnológico/civilização). O pós-moderno é um cenário em que a narrativa está desfeita, mas a recusa da confrontação dessa realidade tem vários aspectos incontornáveis, cuja contradição precisa sempre mais ser tematizada.

            Vejamos o contraste da apresentação de Lacoste com aquela de Paul Singer ("Economia política da urbanização"), onde, pelo contrário, a disposição da penetração multinacional no terceiro mundo – como citado de Castells e de Quijano – no cenário da guerra fria, é criticada exatamente como algo sustentável em função de um contraste com o que seria a industrialização nacional.
          Singer, quanto a isso, repete o que vemos com Warren Dean (A industrialização de São Paulo, ed. Bertrand, 1991). O que ambos tencionam é desconstruir as conhecidas versões de alguma divergência profunda de interesses entre empresariado local e internacional.

             Pelo contrário, esses interesses seriam  maximamente convergentes, segundo eles, tratando-se sempre de capitalistas. Se houvesse “efeitos disruptores” provenientes do “capitalismo em si” presentificado pelos monopólios internacionais, por que eles seriam desencadeados somente no terceiro mundo, e não nas potências centrais de onde eles provém?
            Ambos não colocam o problema social da diferenciação local de um grupo autóctone mas internacionalmente alinhado contra o resto da população. Pensam que em todo caso, o capitalismo é essa mesma estrutura conflitiva de classes, sem perceber que no Centro a estrutura resulta na “emancipação' como na mobilidade social, e na margem, inversamente, resulta no imobilismo social e na proliferação de dispositivos de impedimento da “emancipação”, não obstante o discurso do alinhamento como acesso possível a ela, futuramente, ou seja, como condição de superação do “atraso”.
           Mas de que forma a indústria nacional não era capitalista, antes da penetração dos monopólios, admitindo que houvéssemos tido algo assim à época das duas grandes guerras, favorecidos pela neutralização da indústria europeia devido a elas? Sendo-o indubitavelmente, não há como explicar, segundo Singer, porque os efeitos disruptores não deveriam decorrer também de um capitalismo nacional. Pois a causa segundo ele é que todas as decisões dos capitalistas obecedem a uma estratégia de mercado, não sendo relacionável a preocupações sociais.

              O que me parece importante é que não obstante as divergências que assinalam o caráter lacunar do saber histórico recente na margem - ainda não é generalizada a concepção de Dreyfuss sobre o golpe militar dos sixties como intervenção historicamente documentada dos Eua - em todo caso trata-se da modernização como o que se deveria obter, ainda que tornando-a isenta das características indesejáveis, do capitalismo em si e/ou da dominação imperialista.
         Mas o elo profundo entre ambos é o que fica ambíguo, como se pode demonstrar mais ainda por uma posição como a de Dean e Singer. Pois, criticando o capitalismo em si, não se o define senão como estratégia de mercado e no entanto não há possibilidade dessa estratégia na escala em que ela se objetiva, para ser mais que apenas “livre empresa”, sem a consequência dela ser internacional e assimétrica - criando necessariamente uma margem a partir de um processo historicizado do capitalismo central, o capital fundador, de onde se difunde o processo de modernização planetário. Aí o elo com a tecnologia, a ciência, a modernização do Estado, como decorrentes de uma história somente ocideental, se torna o conteúdo material do discurso teleológico.

                Por exemplo, Dean encena o insipiente industrial paulista de inícios do século XX, um sujeito isolado tentando idilicamente obter informação sobre o que precisa para tornar-se fabricante de tubos de dentifrício. Essa imagem folclórica obviamente nada tem a ver com o fabricante inglês do século XIX, cujo governo estava, pouco mais de cinquenta anos antes que o paulista citado, promovendo a guerra do Paraguai para garantir-lhe o mercado comprador em grande escala, conforme o estudo de Leon Pommer que registra a documentação diplomática inglesa a propósito do seu juízo desfavorável sobre o desenvolvimento da industrialização paraguaia em função dos interesses dos industriais britânicos.
            Esse fabricante europeu servido abundantemente pela tecnologia, igualmente em grande escala, no ramo dos bens de produção (máquinas e utensílios), e agindo desde essa época com vistas ao domínio de mercado (cartelização), nunca um sujeito agindo isoladamente, era portanto assistido por um governo que não agia sobre a sociedade local, mas como agente do imperialismo internacional do capital que, uma vez garantido seu mercado externo, agiria livremente, não por qualquer plano de governo.

           O aventureirismo do sujeito isolado pertence, na Europa, ao cenário ante-capitalista da empresa colonialista – portanto, mesmo sendo aventureiro, tendo uma perspectiva de exploração no terceiro mundo e por isso não restrito à limitação de um mercado comprador local, mas articulado ao grande capital associado de empresas de exploração de matérias-primas em grande escala.
            Assim, estudando “O mundo atual”, Pierre George é mais abrangente ao falar de “proletarização dos fabricantes” do terceiro mundo, o que extrapola consideravelmente tanto os quadros explicativos de Marx quanto os de Weber.
          Pois, como me parece historicamente substancial, há de fato um “fracasso do imperialismo do século XIX” - que traduzo como fim do capitalismo clássico europeu – podendo ser postulado a partir da emergência do neocapitalismo norte-americano com seu imperialismo peculiar e irredutível ao europeu.

             Ora, é a característica da irredutibilidade em questão que vemos como o ponto polêmico acima apontado, portanto o que se torna esclarecido pelo exame do neocapitalismo: multinacional, mas não “monopolista” como tipicamente a empresa europeia do século XIX. Seria um capitalismo tecnológico, que independe de haver ou não a posse de territórios ou de unidades de produção no terceiro mundo, a divisão do trabalho opera entre a produção de produtos e de processos de fabricação. O domínio da produção de processos tende a ser conjuntamente o da invenção dos produtos.  
           Há assim, por outro lado, a geração de um capitalismo subalterno na margem, cujo fenômeno é o que reconstitui a problemática do terceiro mundo numa abrangência irredutível à que poderia ceder as teorias calcadas na modelização do capitalismo clássico europeu.

            Nesse ponto é mais oportuno deter-se não tanto na diferenciação do capitalismo norte-americano, mas no consenso geral da modernização como a priori de desenvolvimento. É assim que encontramos um mesmo discurso, em Hirst e em Samir Thabet cuja temática no entanto é precisamente a dependência tecnológica do terceiro mundo.
           Ao criticar Weber por ter contrastado a capacidade imediata de realização do homem às exigências altamente especializadas das burocracias, Hirst argumentou que isso não impediria a princípio que as massas fossem o sujeito beneficiado da produção convertida de capitalista em socialista, assim como o regime o seria de uma gestão administrativa cega a uma democracia plena.
           Ora, a questão é justamente a democracia como o que Weber está afirmando inviável ou colocando em questão como tal, pelos a prioris sociais decorrentes não diretamente da economia capitalista, mas do processo histórico em que uma economia de tipo capitalista – que Weber define erradamente a meu ver, como de livre empresa no sentido de não entravada pelos a prioris sociais tradicionais patrimoniais– tornou-se ela mesma também possível.
            Tanto Weber quanto Marx me parecem terem se enganado nisso, posto que a livre empresa de inícios do século XIX realmente nada tem a ver com o capitalismo neocolonial-monopolista de princípios do século XX, muito menos com o neocapitalismo norte-americano que se desdobra na "globalização" mundializando-se.

               O argumento de Hirst é então que “ a ideia de que a instrução popular poderia proporcionar a todo operário um diploma em algum ramos de engenharia, ou que uma sociedade socialista poderia compelir burocratas e professores de Heidelberg a fazerem trabalho manual e aceitarem salários de operários nunca passou pela cabeça de Weber.”
             Mas é exatamente esse tipo de controle obviamente anti-democrático porque totalmente alheio às decisões pessoais dos assim compelidos – porque o operário não pode escolher livremente um diploma de outra especialização que não tecnologicamente relacionada - o que Weber asseverou ser o esperável do estado de coisas pós-tradicional onde se dão conjuntamente a produção capitalista e as gestões sócio-administrativas burocráticas. Ou seja, para Weber, a propaganda pela qual o primitivo como tradição - onde o sujeito não pode ser senão o que lhe predetermina a sociedade - teria sido superado pela sociedade industrial e democrática, seria falacioso, porque é contraditório a noção de democracia com burocracia industrial.
              Mas se o conceito de democracia, como governo representativo, fosse apenas um poder de imposição indiscriminada da vontade da maioria sobre o indivíduo, como parece supor Hirst, então não teríamos nada mais que o conceito de fascismo.
              Não é outra coisa que um poder de controle sobre os sujeitos, o que vemos ser defendido por Samir Thabet como o fator necessário à superação do atraso do terceiro-mundo, como o que os governos dos países dependentes deveriam prover.
            Ao exigir “uma maciça campanha publicitária” que possa usar “todos os meios de comunicação e todas as vantagens da tecnologia” a fim de convencer da necessidade de que o sistema educacional seja mudado a fim de se tornar técno-científico, Thabet salienta não tratar-se apenas do que deve positivamente se tornar constante nos currículos. Trata-se também do que se deve coibir. “A atitude científica precisa ser incutida num primeiro estágio, ao invés de encorajar-se uma perspectiva poética, literária e sonhadora da realidade. Nossa juventude precisa aprender a ser exata, firme e criteriosa”.

                Nessas colocações de Hirst e Thabet, o espantoso é o modo como se pensa identicamente coisas tão irredutíveis quanto exigências puramente técnicas, funcionais a uma instituição, como estudar certas matérias relativas a uma formação ou aceitar valores salariais; e escolhas condicionadas por fatores inevitavelmente subjetivos, como “ser engenheiro” ou ter uma personalidade adequada a um estereótipo do que é o “cientista” - totalmente defasado em relação aos cientistas reais de hoje, como Prigogine, Feyerabend ou Feynman, que inversamente, tem uma imagem sonhadora, poética, humorística.
            O paradigma de Thabet mostra-se defasado em relação ao enfático investimento na mudança da imagem dogmática da ciência, desde os anos setenta. Mas é o que temos visto constantemente repetido no discurso do atual governo brasileiro - como tenho constatado no PCN (parâmetros curriculares nacionais)para a filosofia do segundo grau, e nos textos que compõem provas de Enade.
            Quanto a Feynnam, esteve no Brasil onde se pôs a criticar, a pedidos, os manuais de física escolares, considerando-os com erros e pouco sistemáticos na exposição dos assuntos. Sua impressão subjetiva – conforme a auto-biografia – foi de que toda a imagem da ciência estava algo errada.

                      A questão não é filosófica a ponto de termos que decidir se há ou não “Sujeito” substancial. Mas já está bem demonstrado que nem todos tem as mesmas tendências ou possibilidades intrínsecas de performances intelectuais. Não há possibilidade de se induzir performances num sujeito desprovido das estruturas necessárias a serem desenvolvidas. Não há qualquer demonstração de que o acesso a estímulos estéticos interfere com o desenvolvimento mental, ao contrário, a ausência deles trai ambientes onde não há por outro lado compreensão adequada do desenvolvimento cognitivo.
                  Não há relação de traços de personalidade com performance intelectual.
                  Não há como se munir de antemão do conhecimento de que performances criativas implicam ou inibem aquelas performances formalmente associadas com o raciocínio. É errado tentar deduzir de resultados condicionados por fatores de formação estruturais, traços de personalidade. O desenho das crianças, por exemplo, está condicionado por limites bem precisos de sua coordenação, assim como o de um adulto o estaria pelos seus conhecimentos técnicos ou engajamentos programático-estilísticos. Nada tendo a ver com a personalidade deles.
                   E do mesmo modo, um estilo textual ou poético ligeiro e expressivo não autoriza ilações de que a personalidade do autor é nervosa ou arrojada. Apenas autoriza deduzir suas informações estéticas e suas opções culturais e sócio-políticas por sua vez relacionadas às suas informações e inserção históricas.

            Não há como garantir que apenas a posse das estruturas mentais necessárias, e o consequente exercício profissional do que condicionam, proporcione ao sujeito mais do que um desempenho medíocre e insatisfatório, neurotizando-o, quando outros tipos de ocupação o fariam mais produtivo e feliz consigo mesmo.
             Uma sociedade só de engenheiros é um ideal tão fantasioso quanto a suposição de que há algum nexo necessário e constante entre personalidade e capacidade cognitiva. E se todos os operários tem diplomas de engenheiro, onde é que se iriam obter quaisquer outro tipo de profissionais? Uma fantasia indesejável, na verdade, pois seria a de uma sociedade isenta de capacidades estéticas e criticas, à exemplo daquela que impediu todo tipo de experimentação artística (URSS) como uma questão de Estado.

              É óbvio que os salários valem pelo que se pode obter com eles num meio social dado, não por sua quantidade abstrata – como Hume já demonstrara como a verdade do dinheiro. Numa sociedade em que salários equivalentes proporcionam acesso satisfatório comum aos bens circulantes não suscita o problema da diferença de status. E se estão implementando cursos de ciências da natureza, esperam-se as disciplinas correspondentes. Mas nada disso tem a ver com as opções existenciais, profissionais ou afetivas. É a incapacidade de discernir o que há de irredutível entre essas esferas decisórias que me parece assustadora, mas bastante coerente com a índole da modernização industrial-ocidental, e não apenas uma propriedade peculiar ao marxismo que apenas, assim, perde a atribuição de ser uma verdadeira crítica social.

               Que diferença crucial pode haver entre algo como o projeto camelô – onde a cia pre-escreveria os textos didáticos do país dependente – e a censura estatal marxista, onde poesia ou artes plásticas estão previamente dispostas quanto aos resultados que podem apresentar conforme os modelos clássicos veiculados pelas listas oficiais? Mas o que determina a ambos, senão a preminência da produção -já “tecnológica” - como redutor de todo sentido da vida humana? Essa ciência da natureza e essa tecnologia foram, como vimos, estereotipadas. A genética não pode ser desenvolvida no tempo do stalinismo, porque não se coadunava com a premissa da dialética aplicada à “natureza”.

                  A diferença restaria apenas no fato de que da parte dos Eua a censura é muito explicitamente etnocêntrica, feita sobre as margens que se explora e por isso domina, mas num mundo marxista ela seria constitutiva de toda concepção socialmente integradora. Foi a conclusão que os intelectuais de esquerda nas margens decepcionadas pela irrupção ditatorial como pela estreiteza de uma esquerda condicionada pelo estereotipado desenvolvimentismo, tiveram que deduzir, como se constata por alguns textos típicos da década de setenta, como os do círculo de Paulo Francis. Na Europa, especialmente Antonio Liehm estudou o processo da burocratização social pós-estalinista como um novo cenário de expurgo da capacidade crítica.

                 É certo que Hirst critica o marxismo ortodoxo, e exemplarmente o soviético, mas nada do que apresenta na sua defesa do marxismo contra Weber poderia evitar o que ocorreu na Russia. Aliás, é curioso que ao se jogar Marx contra Stalin, fale-se usual e condenatoriamente de “marxismo ortodoxo” quando o que se quer com isso é referenciar um “marxismo” que distorce a intenção original de Marx. Podemos assim conceder mais razão à letra.

                   O texto de Marx é bem coerente com sua “ortodoxia”, especialmente na sua defasagem histórica em relação às problemáticas atualmente conhecidas - psicológica e epistemológica, tanto quanto às exigências reais das burocracias técnicas e administrativas - e tentar obscurecer esse fato acarreta incoerência manifesta ou se deduz de informação falsa e insuficiente. Essas problemáticas, porém, tornam-se conhecidas no devir da própria modernização ocidental, e do ponto de vista da dominação cultural sobre o não-”ocidental”, que estamos constatando estrutural a esse devir, elas são fatores entrelaçados, o que posiciona a ciência (“humana”) num locus de permanente crítica, mas não generalizadamente, e sim a crítica situada como análise do discurso do “ocidente”, o que se estrutura em função do não-ocidental.

                  Escusado lembrar que isso não implica estar numa posição “foucaultiana”, isto é, posicionando-se fora das ciências humanas por uma redução epistemológica de todas elas ao um da Representação. Justamente elas não representam o Homem, e sim problematizam a diferença instaurada a partir do próprio campo do seu Saber. Não estão de forma alguma indiferentes ao fato cultural desse Saber como exclusivamente Ocidental, o que é uma falácia, uma paralogia, pois o que estrutura tal Saber como grandes narrativas do progresso - positivismo, funcionalismo, estruturalismo - é o conteúdo assim designado da alteridade ao ocidente, o primitivo.

                O que descobrimos até aqui é que não há um, mas vários acessos ao discurso – como o que diferencia o positivismo do cenário posterior weberiano, por exemplo. Se a história como ciência expressa a formação egológica do ocidente contemporâneo – que pode se posicionar como um ego da história da civilização frente ao que assim se torna ou se conceitua como o desprovido de “história” situado ao invés, na oralidade do mito -  a sociologia com que irrompe o positivismo e o cenário funcionalista que o sucede são mais duas formas de discursos geo-egológicos que devemos, assim situados, examinar.
         
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          Ampliando a apresentação do contraste dos pontos de vista sobre a industrialização brasileira, vimos que para uma ala da esquerda, o cenário nacional podendo exemplificar com o encaminhamento de Werneck Sodré, que tem sido em geral a orientação dos manuais de história dos secundaristas, esse é um processo nacionalista.
           Isso se deve a que a ruptura local não poderia ser para com uma feudalidade aqui jamais existente, mas sim para com o latifúndio articulado ao imperialismo.
           O assim designado imperialismo como dominação econômica da margem pelo centro, transforma toda economia local num artigo de exportação único, barato como matéria-prima, à exemplo do café brasileiro, em troca do compromisso de uma potência central comprar regularmente esse produto. Em troca, o mercado da consumação local absorve os manufaturados (industrializados) caros dessa potência – aqui tendo sido o papel tipicamente da Inglaterra, após a independência, isto é, ao longo do século XIX.
             A questão da industrialização local é historicamente reconstruída como a luta de um setor progressista-urbanizante contra essa junção de interesse internacional-progressista e interesse local retrógrado-latifundiário. O progressismo urbanizante só poderia portanto, ser ao mesmo tempo a construção de uma nacionalidade e de uma cultura nacional. O retrógrado latifundiário é a redução local à dominação cultural do Centro e os interessados na urbanização atrapalham os planos do latifúndio.
               Outra ala da esquerda, como em Paul Singer e Warren Dean, pelo contrário, como vimos, afirma que não há cisão de interesses do insipiente empresariado local e classe latifundiária. Como Frederick Jameson, pensam que uma revolução nacionalista progressista na base dessa oposição é um erro político do país pós-colonial, e que a revolução burguesa tem que ser conduzida como na Europa, em bases que possam ser descritas por uma perspectiva exclusivamente econômica.
                Para esse pensamento, não há algo como “problemas brasileiros”. Todos os conflitos decorrentes da transição e afirmação plena da revolução burguesa, definição de capitalismo, não seriam singulares, mas generalizados tais como os conflitos urbanos estudados em Singer. Seriam tais como os conceituados em estudos da cidade capitalista qualquer. Há como em todo processo capitalístico, a oposição campo-cidade, mas ela não é personificada por duas classes de interesses comerciais antagônicos, e sim por uma classe heterogênea composta por todos os interesses ligados à livre empresa, e uma aristocracia fundiária cuja função proprietária no campo não é compreensível sem seu papel social estruturante do poder da monarquia, ou como na expressão de Weber, na economia “patrimonial”. Havendo aristocracia não há qualquer livre empresa, porque a economia impede a iniciativa privada.
                Warren Dean acompanhou a biografia de alguns dos empresários proeminentes do início da industrialização paulista e acentuou dois fatores que aparentemente impedem uma tese da dualidade antagônica empresariado industrial-latifúndio:
 
            a) a aliança do capital. Alguns desses incipientes empresários começaram casando-se com moças de grandes famílias latifundiárias e tendo assim o seu negócio capitaneado pelo patriarca; outros casos são representações do próprio capital do latifundiário em interesses empresariais coordenados ao seu produto de cultivo; não há continuidade entre o capital do empresariado-industrial incipiente e a interessante figura do importador urbano que até aí concentra o capital comercial em São Paulo, como captador dos produtos de fora;
 
            b) a oposição ao proletariado; Dean mostrou que não havia qualquer continuidade de interesses de um setor urbano tal que ligasse o proletariado ao empresariado como um segmento único. Pelo contrário, o incipiente industrial brasileiro (paulista) foi tão explorador da mão de obra nas condições piores possíveis, nas décadas iniciais do século XX, quanto o que se sabe da super-exploração do operariado europeu no século XIX. Só não alcançou a mesma escala de utilização. Além disso, tendeu ao impedimento de organização da classe operária por meios de intervenção direta – como a organização de uma lista de ativistas, circulada entre os empresários, que punha fora da condição empregatícia os registrados.


       c) a defasagem de mercado: coforme Dean, não havia uma convergência de interesses da burguesia ao industrialismo. Pelo contrário, o mercado comprador se sentia lesado por qualquer política de impedimento de produtos importados em prol da mercadoria nacional.
               Mas a esse estudo de Dean podemos opor três fatores importantes. Primeiro, o fato de que há muito se conhece a situação ambígua do empresariado paulista de inícios de século, decorrente do êxito pela capitalização do cultivo, na lavoura do café, enquanto alhures este continuava dentro dos limites da agricultura insipiente do antigo escravocrata.
                Assim a questão operária não poderia ser tangenciada sem relação ao cenário político. Contrastando a documentação desse estudo de Dean sobre a industrialização paulista, e a História da burguesia brasileira, de Werneck Sodré, vemos que em Sodré a documentação é farta sobre o que estava ocorrendo em nível de legislativo e mais geralmente político, além de informação econômica (estatística) um pouco divergente com Dean.
              Há também a questão cambial. Tem sido ensinado como um dogma que os interesses na política cambial nacional, de latifundiário exportador de matéria-prima e empresariado produtor de manufaturados para um mercado interno, são antagônicos. A moeda forte não interessa ao primeiro, que recebe em moeda estrangeira, mas sim ao segundo, que vende em troca da moeda local.
              Dean desmentiu esse dogma, mostrando por meio de documentação que empresariado e latifundiários estavam de acordo em suas petições ao governo a propósito da política cambial. Tanto Dean como Singer são citados por autores de esquerda, interessados na alavancagem da revolução capitalística local, mas em prol da emergência do proletariado internacionalmente integrado como uma força unida em torno do mesmo objetivo de derrubada dos novos privilégios criados pelo capitalismo, se bem que quanto a estes, não mais os historicamente ligados aos da aristocracia.
           Conforme a tese marxista, o proletariado deve nascer como reação organizada aos privilégios da burguesia. Ele não poderia surgir antes dela.
           A tese assim chamada “asiocêntrica” – devido ao fato da revolução soviética não ter respeitado esse princípio e ter feito a revolução direto contra os privilégios de uma aristocracia agrária, de modo que essa variante histórica seria adequada aos países pós-coloniais – não entra na consideração dessa tendência, posto que a situação local, desde a independência/República, não é geralmente da aristocracia tradicional como na Russia, mas daquela aliança do latifúndio com o mercado internacional onde ele é exportador.
           Mas na verdade a razão mais provável é que não existe confiança numa força esclarecida local para precipitar a revolução sem o interregno iluminista como educação burguesa, pois os elementos localmente enraizados não são tipicamente o sujeito de cultura que é o europeu.
             O marxismo não me parece ter sido desconhecido aqui antes do século XX. O socialismo utópico, com toda certeza, não só era bem conhecido, como equacionado nas lutas anti-imperialistas - não só anti-império, como demonstrou Werneck Sodré - anteriores ao positivismo.
            Se o positivismo e o marxismo são inserções do determinismo teleológico da história, o vimos em Marx, é notável como sua proposta de estar começando a história local somente com a República se coaduna com a tendência que estamos examinando. Fora do determinismo histórico ou teleologia capitalista, não há cultura na acepção de racionalidade, portanto não há processo histórico relevante, não importando o que realmente se pode descrever ter havido em termos de conflitos políticos, étnicos, ou relativo à realidade social e cultural.
            Em todo caso, o que irei designar a tese do determinismo histórico, de Jameson a Singer e Dean, assim como da esquerda ortodoxa, ao confrontar o encaminhamento nacionalista da problemática, elide o essencial em termos de transformação histórica do capitalismo – isto é, uma vez que se a descreve a partir do processo pioneiro europeu, e também porque é interceptando-o em algum ponto a partir do mercado internacional que um país não-europeu desencadeia o seu processo capitalístico, nunca por si mesmo.
            Eles podem elidir esses elementos porque o conceito de modo de produção marxista é um universal sociológico. Como já assinalei, a sociologia posterior mostrou o equívoco desse conceito. Mas o importante aqui é notar que mesmo estando contra Marx em muitos pontos, até mesmo Foucault preservou a condição daquela lacuna. Entre o Antigo Regime e a “modernidade”, creio que se pode notar que de fato não houve uma mudança na hegemonia de classe, mas sim a transformação de uma sociedade estamental em uma sociedade de classes, com todas as profundas mudanças no campo do direito, que isso implica - nada menos que a emergência do sujeito privado como entidade jurídica.
              O contrário é o que ensina o marxismo, definindo a modernidade como mudança da hegemonia, dos aristocratas aos burgueses,  mas na verdade nós podemos ver que por esse procedimento, logo se vai esbarrar com a necessidade de equacionar transformações que são sociais e culturais, não especificamente de classe.
            Ora, o terceiro fator que podemos confrontar a Dean é justamente a equação da assimetria. O empresariado industrial no Centro está articulado desde o século XIX, ao comercial e principalmente, exportador em grande escala, como salientei. O fato de que na margem o que ocorre é o oposto, não só por alguma continuidade do capital latifundiário, mas porque não há aliança de comércio-indústria em ampla escala, é factualmente integrado ao modo como no Centro essa aliança foi montada.
          Desde o início do século XIX, para exemplificar com o Brasil, temos um impedimento ao comércio local desenvolver-se livremente, sendo que o Império foi patrocinado pela Inglaterra pelas razões óbvias ressaltadas de sua ingerência garantida como potência.
              Um dos tópicos das lutas por emancipação política dos autênticos elementos heterogêneos aqui, era a liberdade do comércio, restrito como estava ao colonizador. Na decorrência da independência como foi, nunca poderíamos ter tido uma política como a da industrialização-comercial paraguaia, e a frustração de Mauá pelo governo,  atestada como tem sido, não deixa dúvida sobre isso. Assim se rupturas profundas de interesses não pudessem ser demonstradas entre capital industrial e latifundiário, não só por isso decorre que não se possa articular estruturalmente o isolamento local do comércio (importador) ao quadro inverso do capitalismo central. Devemos lembrar que a república, após o pequeno interregno de Floriano, foi um estado de exceção tão violento quanto havia sido o império e pelas mesmas razões, a aliança oligárquica da máquina governamental.
 
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           Se o que houve na modernidade europeia foi a transformação de uma sociedade de estamentos para uma sociedade de classes econômicas –  a grande questão para Weber é como explicar que uma sociedade tenha surgido na histórica, possivelmente extratificada apenas na condição econômica, posto que evidentemente não é uma condição identitária estamental. 
           Todas as sociedades que Weber estuda, são identitário-subjetivantes a partir dos seus sistemas de estratificação social. Nelas, não há o sujeito pensado privado, porquanto o sujeito é função do estamento ao qual pertence - sua condição familiar de nobre ou plebeu, com exceção para a condição de sacerdote.
         Em todo caso, mesmo que não concordando com Weber que seja assim universalmente,  e suspeitando que ele tenha projetado esquemas identitários onde pode ser que se tratasse de outra coisa como nas sociedades aborígines igualitárias, não parece ter havido sociedades unicamente de classes econômicas fora do moderno capitalismo.
            Mas a partir daí, Weber limitou o campo do mesmo modo que Marx, ao juntar esses dois requisitos – estratificação de classes e capitalismo – como uma coisa só e assim lançar-se numa batalha a meu ver algo inútil, para provar que nunca houve capitalismo antes, apesar de que a empresa comercial e internacional, mais a indústria em grande escala, são realidades históricas desde a Antiguidade, e não só na Europa. Sua divisão em patrimonialismo e livre empresa depende dele colocar como algo apenas circunstancial o fato de que letras de câmbio e demais formas de documentos de transações impessoais, como a moeda, foram típicos do – assim chamado por Rostovtzeff – capitalismo antigo, dos impérios helenistas e depois romano.
          Weber comete assim formalmente a mesma falácia que Derrida imputou a Austin a propósito da literatura em relação à fala cotidiana:  afirmar como meramente circunstancial aquilo que só se justifica nessa posição por uma definição que, quanto a ela, depende de supor-se que o tal afirmado é meramente circunstancial.
            A documentação, como a mera existência, de transações econômicas impessoais, isto é, sem a chancela patrimonial de um símbolo de autoridade central como Imperador, monarca, ou todos os tipos de ocupação dessa posição conforme a cultura, seria para Weber a instrumentação do capitalismo a partir da sua equivocada conexão desse tipo de transação ao a priori nocional “classe social econômica”, cuja realidade histórica é o Estado contemporâneo.
          Ou seja,  onde o governo não tem poder sobre a livre iniciativa empresarial, apenas garante a legalidade das transações que vão ser feitas livremente entre os contratantes. Weber nem se dá o trabalho de explicar porque, sendo assim, existia antes, na Roma antiga, a letra de câmbio e as transações bancárias. Apenas diz que não importa, porque por outro lado havia a autoridade-símbolo central (Estado patrimonial).
           Ora, quando especificamos os elementos ligados à emergência da sociedade de classes – assim chamada “burguesa” - constatamos que se trata de uma transformação de magnitude tal como se possa avaliar a emergência do Sujeito pensável, já a partir de sua figura como referencial do direito contemporâneo. Até aqui o sujeito não é pensável – deixo de lado a complicada questão da filosofia grega não-platônico-oligárquica – na tradição assim designada ocidental, a partir de uma realidade social oligárquica.
              Atualmente tem sido, como vimos já em Jameson, corrente o equacionamento do capitalismo como surgimento do split público-privado. Isso é o que se tornou habitual na teoria feminista e pode-se ver também utilizado no Anti-Édipo. Em geral a rubrica histórico-literária do Romantismo imbrica os dois temas: emergências da expressão estilístico-temática do “eu” e ruptura do cânon (unidade) clássica da cultura, de modo que o “eu” é relativo ao locus da heterogeneidade cultural de sua proveniência formativa.
            Na minha tese do capitalismo como assimetria internacional do capital, a emergência do Sujeito pensável não é uma decorrência do que seriam os demais fatos da época. É a transformação capital que pré-ordena a época em termos de “modernidade' (“período contemporâneo”). Mas aqui devemos notar que na margem está ocorrendo a descolonização, e o sujeito só se torna pensável a partir do momento em que a cultura não pode mais ser fechada num universo único-centrado, o referencial clássico greco-romano europeu. O sujeito é a diferença intersubjetiva, e ao mesmo tempo o Ocidente começa a determinar-se como agente de um processo de civilização histórico (mundial).
                Pensar a sociedade como composta de sujeitos, unidades existenciais independentes, implica não mais abstrair sua heterogeneidade pessoal, em nível privado, quando se trata da esfera da cultura. Mas ela é essencial, não derivada como na dicotomia marxista – e como princípio gramatológico, nenhuma dicotomia fundamental-derivado se demonstra por si própria - porque é nela que os elementos materiais do exercício da cidadania de classes é composto: o livre pensamento, por não haver coerção estatal/estamental possível dos conteúdos de Saber, que está ligado ao universal do “esclarecimento” como educação generalizada em termos da instrumentação necessária à compreensão da condição de cidadania, a qual por sua vez implica estar num meio de mobilidade social, não numa pertença a priori da condição social inamovível.
              Ora, quando nos aproximamos do processo na margem pós-colonial, vemos que nenhum desses elementos se segue necessariamente. Pode ser que no Centro esses elementos devam ser efetivamente articulados numa escala variável de sua presença, entre zero e um não totalizáveis. Mas o discurso da sociedade de classes não pode subsistir sem eles, e é desse discurso que essa sociedade haure ao mesmo tempo sua legitimação interna, sua organização factual e sua centralidade geopolítica que estrutura a assimetria internacional do capital como algo que não pode ser para si definido em parte alguma – muito menos na margem – fora dessa legitimação.
             A centralidade é a exportação do capitalismo não como o que se impõe desde o centro, e por mais que se o imponha, mas como o que está sendo requerido vitalmente ser produzido localmente desde a margem como repetição do que foi feito no centro (“desenvolvimento”; “modernização”; “emancipação”). A chave, portanto, é “emancipação”, que une independência subjetiva em relação ao que ora se considera o “estamento” local – sem importar se a sociedade local, não-colonial, nunca foi estamental – à independência do sujeito econômico da livre empresa. Mas como vimos, esse sujeito da livre empresa local nunca surgiu como uma classe formalmente independente.
            O próprio Dean o demonstra, ao constatar a impossibilidade material - historicamente efetiva - de uma classe de livre iniciativa nacional, desatrelada das condições de impossibilitação do split público-privado, isto é, da manutenção desse constitutivo do capitalismo na margem, a “casta” do capital agrário, a qual para manter-se depende de que não exista mobilidade social, livre pensamento e sujeito privado de direitos. Assim também vimos que esse empresariado misto, por assim dizer, não acarretaria a emergência de um proletariado organizado.
                Há aqui um ciclo vicioso propriamente cultural, pois no Centro a organização do proletariado efetivamente está interconectado à produção do livre-Saber, como “ciência social” e “literatura”, lembrando que no século XIX o “marxismo” era quase nada quanto ao peso de influência factual, mas é nesse século, e já a partir dos anos trinta, que a organização das duas classes sociais está articulada sem dúvida.
             Não foi o rigor marxista que criou o proletariado, inversamente, foram fatores sociais tanto quanto econômicos que contribuem para uma consciência de classe – do problema social como super-exploração de classe, isto é, “Socialismo” – de que depende a emergência do marxismo. Asuper-exploração no centro foi desviada para a margem, com o neocolonialismo afro-asiático, desde a transição ao século XX, enquanto no Centro a organização social anti-exploração não foi somente de uma esquerda radical, mas da própria burguesia interessada no saneamento dos conflitos sociais - como na sociologia inglesa. Indagava-se nessa época na Europa,  sobre que seria do vocabulário da Revolução, se em certo momento as instituições sociais se mostrassem de equivalência de direitos entre as classes.
              Concomitantemente o neocolonialismo retalhava o continente africano em protetorados e regiões sob controle das nações europeias e na América Latina, o imperialismo estava tão bem sedimentado que era hábito dizer-se que o Brasil era uma colônia inglesa. Os reveses de guerra que arrebataram à Europa a supremacia econômica que se tornou norte-americana não alteraram nada dessa ordenação internacional-assimétrica.
        
              Dean não acentuou o estudado por Werneck como o cômputo que a sociedade esclarecida local e marcadamente socialista – interlocutora de vários focos importantes da teoria e literatura socialistas europeias, mas produzindo teorias sócio-econômicas originais, como em Antonio Pedro de Figueiredo - já fazia do enorme prejuízo econômico que é o sistema capitalista-agrário de dependência total à potência europeia.
              Contra essas exigências políticas da liberação do mercado interno, monopolizado pela manufatura inglesa, por que havia tamanho aparato governamental – a ponto do Império e da República Velha, definíveis como esse “contra”, terem sido na verdade estados de exceção policiais, antes que “estabilizações” políticas?
                As vantagens pecuniárias inglesas eram inimagináveis, por receber o café como apenas matéria-prima das mãos dos agricultores, e se tornar o agente comercial da distribuição desse produto no mercado internacional. O empresariado paulista nunca se tornou o comerciante do café lá fora.
            Assim, existe na economia e na sociologia do subdesenvolvimento, o locus tético da peculiaridade objetiva das economias da margem pós-colonial. A tese de Schumpeter é precisamente de que elas se caracterizam pela inexistência do livre-empresariado. O governo, nesse caso, ocupa o lugar da iniciativa privada, e os empresários devem seguir os planos governamentais, ao inverso do que ocorre nas nações desenvolvidas.
          A história pátria é exemplar quanto a isso. Wamireh Chacon aproveitou-se dessa característica para produzir uma leitura weberiana da história local. Seria a trajetória de um único Estado patrimonial, herdado da colonização, imbricando-se à tendência em história portuguesa de ver nela a singularidade da inexistência de feudalismo.
             O antigo regime europeu monárquico, típico da “época clássica” e pós-feudal nas nações mais historicamente representativas europeias, na verdade sempre teria sido o caso efetivo em Portugal, para esses estudiosos. Assim ele não se utiliza como proveitoso, de qualquer tese de uma originalidade da nossa sociedade colonial, e tende a minimizar todas as políticas efetivamente registráveis em prol da livre iniciativa e contra o monopolismo latifundiário-imperialista. Pensa que todas foram versões de patrimonialismo estatal. Mas assim ele não poderia explicar a conexão da peculiaridade histórica da ex-colônia lusa às demais economias pós-coloniais, como exemplificado em Schumpeter.
              Uma tese de igual importância sobre essas economias de margem é a exposta por Alpha-Chiang, de sua dualidade intrínseca. É a terminologia do “efeito-de-demonstração”. Um grupo social restrito concentra o papel de “ponto de contato” com o Centro industrializado, sendo o alvo da recepção de suas mercadorias importadas. Esse grupo é restrito por seu esclarecimento, sua cultura europeizada. O outro grupo é a “hinterlândia” cuja cultura, não sendo europeizada, o mais das vezes é avessa aos valores da industrialização – tais como a atração pela novidade antes que pela mera utilidade; a atribuição de status subjetivo a partir da afluência aos estilos da modernidade em vez de aprovação pela observância dos rituais tradicionais devidos ao papel social.
             Assim haveria um esquema pendular – pois a compra de muitos produtos industrializados aumentaria os débitos na balança de pagamentos, não obstante aquecerem o nível da movimentação comercial, endividando o país, enquanto a compra de poucos produtos implicaria a crescente defasagem local de algum porte econômico pela preponderância da hinterlândia, força de inércia.        
           Na verdade, como notou Hubbermann, o capitalismo não é em si atrativo. Ele o observou do ponto de vista do trabalhador. Se alguém puder continuar mantendo a posse de seus instrumentos de produção – artesanais ou agrícolas – por pouco que ganhe não vai se atrair pela fábrica super-exploradora.
           Ilustrou o fato com um investidor que munido de dinheiro e instrumentos, não conseguiu mão-de-obra numa região onde o pequeno agricultor não havia sido desterrado antes pela escalada de concentração fundiária. Mas além disso, o padrão do pobre não operário, longe da cidade, não é por si mesmo consumista.
             Um dos obstáculos que vários sociólogos apontam ao desenvolvimento local até a metade do século XX, também teimando ignorar as lutas já em trânsito desde bem antes, que testemunham da heterogeneidade local que seus esquemas implicam abstrair, é o que consideram conservação cultural dos costumes do senhorio colonial, com a “casa grande” repugnando todo contato com o exterior e valorizando somente o produzido no interior do assim generalizado “feudo”, pela escravaria e depois pelos dependentes dessa economia de subsistência a partir da lavoura monocultora-exportadora.
            É certo que essas teses são anteriores à globalização, onde uma das consequências da revolução tecnológica informática foi o descentramento da própria produção. Não tem mais validez fundamental o esquema de venda de matéria-prima e compra de industrializados, ou mesmo o esquema sabidamente desvantajoso, mas tido como sine qua non da modernização local, de importação de capitais que teve lugar como interregno, entre o pós-guerras e os anos noventa, protagonizado pelo novo agente imperialista, os Eua.
           É a própria fábrica que se exporta, na “globalização”, em troca das vantagens da mão de obra local e outras formas de exploração do situamento territorial – isenção de impostos, garantia de financiamento de instalações, penetração política irrestrita, etc. A multinacional com sede numa potência ou bloco econômico do Centro (Europa/Eua/ Japão) não precisa exportar a fabricação integral de um produto. A tônica é a fabricação de cada item da produção de uma mercadoria determinada, no local do mundo onde o custo for mais barato, a serem depois os itens reunidos para montagem em outro local igualmente calculado dessa forma economicamente estratégica.
           Além disso, a sociedade informatizada implica a necessidade das pessoas estarem integradas às mercadorias eletrônicas, porque do seu uso depende a integração informática. Não se trata do efeito de demonstração como mediação na crueza apenas da incitação à compra. Mas assim vemos como há dependência do investimento internacional local, em relação à situação política - invertendo o paradigma marxista.
             Quanto a Schumpeter, portanto, não há muita perda do potencial explicativo para o estado de coisas que continua vigente, dado que todos esses fatores de atratividade da fábrica multinacional dependem do governo local, e são o inverso da emergência de um empresariado livre local. Mas quanto ao efeito-de-demonstração, o curioso é que o capitalismo tardio, na margem, não elide o dualismo que estruturou o conceito. Isto é, pelo que tenho observado na vigência da globalização, não ocorre, do mesmo modo, a emergência do split público-privado tal que todos os elementos que apontamos estejam co-presentes.
          Pelo contrário, se nas ditaduras – a de Vargas e a militar - havia controle oficial do Saber, o controle de mercado pelo capital-midiático-informático  permite uma amplitude do Poder censório inimaginável antes. Sobre isso, torna-se importante o estudo de Stuart Hall sobre a intervenção cultural do neoliberalismo - ao contrário do que se apregoa como "Estado mínimo". Espero desenvolver mais esse tema oportunamente, à frente.
         Por ora a referência a Hall nos permite salientar que mesmo no Centro à sociedade a consequência do imperialismo é indesejável. Configura efeitos de Poder que são antitéticos à democracia - como podemos ver pelos protestos, ignorados pelo governo, de multidões norte-americanas contra as ofensivas ao Vietnã e mais recentemente, ao Oriente Médio. A releitura da história como construção discursiva de uma assimetria do Poder paralela à dominação econômica do terceiro mundo, e como crítica dos grandes relatos,  é assim não uma retórica revanchista ou radical de um ponto de vista unilateral.
 
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        Desde a emergência de um insipiente empresariado local, o agente econômico típico local como vimos é dependente da política governamental e misto de latifundiário e aplicador de capitais, portanto não obtém visibilidade conceitual desde a aplicação da teoria do capitalismo central, por que esta só conceitua o livre empresariado no centro. Assim, Dean conduz o estudo sobre o empresariado até o governo Vargas, para fazer desse ponto, nisso um pouco ao modo de Sodré, o clímax do relato de modo a se tornar compreensível o resultado histórico a que nenhum dos dois pode se esquivar, a solvência de todo espaço possível de uma livre iniciativa local num espaço de livre jogo do capital internacional, após Vargas.
            Naturalmente devemos lembrar que Vargas não almejou a princípio uma democracia, mas quando ele se torna representativo nessa acepção, a circunstância internacional que havia permitido historicamente o seu incipiente desenvolvimentismo havia cessado - havia sido o fator guerra mundial, aglutinando a atenção das potências centrais que assim deixaram o campo livre para a ação nacional. Quanto à dependência do varguismo a esse fator, não existe qualquer ocasião para dúvida.
             Mas enquanto Sodré trata esse capítulo do pós-varguismo como a “derrota” da burguesia nacional – que assim não chegou a formar-se não obstante toda a sua luta até aí  Dean interpreta como incongruente e improfícua” qualquer tentativa que porventura chegasse a ser feita, de relações públicas do empresariado local. 
           Como examinamos acima, segundo Dean ele não tinha contiguidade ao seu próprio mercado: desprestigiava-o, porque o comprador se sentia inferiorizado com o produto nacional, e “carregava-o”, porque assim como os latifundiários, aproveitava-se de todos os modos do governo para burlar suas obrigações públicas e auferir garantias do dinheiro público.
         Não havia portanto qualquer sentido histórico de separação de uma classe, ou revolução burguesa, nessa iniciativa insipiente de industrialização, na visão de Dean, contrariamente a Sodré.
             O que ocorreu, porém, com o governo Vargas é algo complexo do ponto de vista político, e as relações dessa complexidade com a questão econômica da industrialização não são esclarecidas por Dean. Ele apenas registra a decisão governamental de tornar o Estado ele mesmo industrial, construindo um parque estratégico nacional: eletricidade, petróleo, veículos, aços, química, conforme o recenseamento de Dean que emenda a isso apenas a transformação do capital circulante empresarial.
            Começa depois de Vargas, já em pleno pós-guerra e na euforia de um "ocidente" que renovou por esta o seu discurso liberal-civilizador,  a entrar o dinheiro estrangeiro no país, investindo nas empresas já existentes e tornando-as assim de capital misto.
          Logo obtém elas o controle do mercado produtor local. Dean não pensa que o empresariado nacional se sentiu insatisfeito com isso, afora uns poucos inexpertos. Pelo contrário, adaptaram-se rapidamente e esse contingente “se comprouve em receber novos recursos de capital e novos mercados”. Dean deixa em suspenso se isso representa um bem ou um mal para o país, mas obviamente esse é um recurso retórico, já que a causa desse resultado é a desarticulação total do empresariado incipiente, ou seja: seria impossível que houvesse um outro resultado. Afinal o governo – nem se diz qual – “se viu também obrigado, por falta de outra alternativa, a chamar o capital estrangeiro nas condições por ele impostas”.
                  Mas a história não é assim tão simples. Seja como for que se interprete a trajetória do comprometimento do governo ditatorial de Vargas ao longo da década de trinta, com a industrialização, o fato é que se tornou um projeto nacionalista de grande alcance político local quando do seu segundo governo eleito democraticamente a partir de uma aliança com as esquerdas, e inclusive com os comunistas.
             Wamireh Chacon e outros autores já notaram que o governo ditatorial varguista havia sido pragmático – entre as diplomacias do eixo e dos aliados, entre marcos alemães e dólares estadunidenses, apenas se esgueirando para obter as maiores vantagens sem comprometer-se demasiado, até que afinal houve a decisão de colaborar militarmente com os segundos. Mas o fato é que a aliança de governo e projeto industrializante era vantajosa a uma política de substituição de importações devido à ausência da oferta pelas potências durante a guerra.
           Ora, o governo Vargas havia sido estruturalmente a pioneira articulação de uma nacionalidade integrada na República. Até aqui, o insulamento regional devido ao poder oligárquico era insuperável. Por outro lado, estavam apenas os elementos socialmente inassimiláveis pelo discurso positivista, os negros e miscigenados – de forma espantosa, a maioria do contingente populacional.
            Entre ambos, oligarquias e povo, a expressão de uma classe esclarecida local remanescente dos projetos nacionalistas ao longo do período romântico, vindos de movimentos de libertação nacional autênticos que foram sufocados pelo dinheiro inglês sustentando o Império que oficialmente fez a independência, tem sido objeto da limitação histórica quanto à sua reconstituição.
          O modernismo, sem dúvida, tem aqui papel similar ao do Romantismo na Europa, sendo o porta-voz da afirmação da necessidade – quando não do exercício pleno – daqueles elementos formativos de uma sociedade de classes, atuando portanto como o porta-voz de uma incipiente burguesia, e ligada à iniciativa econômica modernizadora pelos laços do seu financiamento a partir das grandes famílias do empresariado paulista. Assim, a ambiguidade do capital paulista – empresário e cafeicultor – não chega a afetar essa aliança modernizante no sentido de expressar o seu desejo de modernidade e afirmação nacional como classe a gradualmente emancipar-se dos vínculos do dependentismo.
             A ditadura varguista interfere com o modernismo, certamente, sendo repressivo do seu liberalismo cosmopolita, e desdobrando-se a partir daí uma segunda geração “regionalista”, distanciada das rupturas essencialmente modernizantes – a estética do arranha-céu e da São Paulo nova “metrópole” - da geração pioneira.
            O Estado novo varguista produziu essa unidade sócio-econômica do país por meio de aparelhamento tradicionalista e culturalmente repressivo das diferenças, mas “culturalista” – o “departamento de imprensa e propaganda" (Dip) estava alicerçado em estudiosos sociais, como os dessa “segunda geração”, que procuravam integrar toda oferta cultural que pudesse ser glamourizada como nacional por estar isenta de termos teoricamente radicais. É a fase do "regionalismo", em termos literários, como recusa da via cosmopolita dos pioneiros.
            O Estado Novo por vezes comissionava para revistas estatais artigos daqueles mesmos intelectuais que perseguia por motivos políticos – como Graciliano Ramos. O “ideologema” por assim expressar, era nacional-identitário, o Trabalhador que agora integrava os antes impensáveis negro e miscigenado, na “racionalidade” da oferta empregatícia em nível nacional e urbano.
              O Vargas do governo posterior, democrático e esquerdista, reunindo gente que havia prendido antes, como os comunistas, ampliou os meios para o mesmo objetivo. Mas o suicídio de Vargas, devido à sua deposição imposta pelas forças armadas por ter ele se tornado assim progressita, tem sido sempre relacionado ao descontentamento da sua base conservadora e militar para com essa extensão agora autenticamente popular de sua política nacionalista.   
            Ele havia, antes, conseguido unir as oligarquias em torno de seu projeto de sustentação de todas por igual, dentro de uma base de controle sobre o elemento a assimilar do povo – paternalisticamente, o “pai dos pobres”, de um povo que não devia querer mais do que continuar na sua condição desigual, desde que alimentado - mas agora se tratava de um projeto de mudança social a partir da independência econômica do país, num cenário em que já isso implicava confronto com os interesses do Centro.
           Ou seja, mais uma vez trata-se da evidência histórica da conexão entre necessidade de uma mentalidade nacionalista para a consecução local dos elementos determinantes da mobilidade de classes e direito privado - com emancipação do Sujeito -  como garantias constitucionais reais. Vargas é uma figura complexa, cultivando Baudelaire na mocidade e sempre relacionado à capacidade de fazer convergir forças entre si antagônicas, mas não chega sua ação a ultrapassar os limites de uma ambição pelo Poder.
           O relato de Sodré conduz, portanto, até esse ponto definindo-o como deposição das forças progressistas pelas oligarquias militarmente amparadas. Isso implica ler a história como a deposição definitiva do capital nacional pelo capital estrangeiro que era o suporte dos interesses segregados dessa oligarquia – sem o qual ela não teria sentido de luta contra a tendência progressista
          A partir daí Sodré analisa com certa minúcia a realidade da penetração do capital estrangeiro – o fato de que as estatísticas não são disponíveis, quanto a remessa de lucros, para estudiosos, e quando são, mostram-se incongruentes. Mas também o fato de que o pouco que se pode haurir dos dados implica o mesmo quadro de grandes vantagens do capital estrangeiro contra enormes prejuízos da economia local que já se conhecia desde os tempos do café.
 
 
 
        
              Os outros livros de Sodré datam geralmente de após o golpe militar dos sixties. Com referência ao História da burguesia brasileira, contudo, é importante notar que ulteriormente ao desacordo quanto à economia nacional, é um estudo que converge com a intenção de Singer em fornecer uma releitura da sociedade colonial em termos de um cenário já de autonomia do interesse local - em ambos, o papel do vaqueiro como trabalhador livre suplanta o tradicional esquema do escravismo, como da casa grande do senhor da plantation.
          Vemos como até Chacon, inclusive, essa perspectiva era invectivada para manter a noção da ausência de história colonial pertinente. Em vez de um sujeito colonial singular, Chacon prefere a versão de Prado Junior, por onde além da plantation só havia trânsfugas trôpegos vagando pelo mato. Não creio que atualmente haja dúvidas sobre a validez da visão de Singer e Sodré.
         Mas mesmo esta deve ser ampliada. Na verdade, a colônia tem cinco ambientes: a minoritária plantation; o conjunto pastoril disseminado pelo território; as vilas e pequenas cidades onde se concentram profissionais liberais, artistas como Aleijadinho e Gregório, e funcionários públicos; os quilombos; as comunidades aborígines.



  (texto a revisar e paragrafar)

             Quanto às publicações de Sodré, além da História da burguesia, frequentemente retornam ao período que medeia os dois acontecimentos, a deposição do governo democrático de Vargas e o golpe, por onde se esclarece que após Vargas houve um interregno de intensa luta nacionalista contra os identificados – a partir das forças que derrubaram a aliança das esquerdas varguista – agentes da desnacionalização. Identificados agora como não apenas os latifundiários, mas todos os setores interessados na oferta de penetração do capital estrangeiro, cuja liderança se personificou no presidente Juscelino Kubitchek. Esse foi o governo que pioneiramente integrou o capital estrangeiro no projeto de modernização local – ou seja, atuando esse capital, guardadas as distâncias, do mesmo modo que à época da unidade latifundiária da economia.
Mas esse foi um entre os outros governos desse interregno, os quais estavam disputando justamente por um dos dois partidos da condução econômica. Assim, a antítese de Juscelino foi a eleição de João Goulart, nos sixties. Ele foi um dos mais votados eleitos da história do país, e representante típico da posição nacionalista que significaria a mudança social. Na noite da véspera do golpe, decretou no célebre comício da Central do Brasil (estação ferroviária do Rio de Janeiro), a reforma agrária e a equiparação digna do salário mínimo. Que essa revolução não era “comunista” é um fato, e nota-se que no Chile, Allende era pessoalmente comunista, mas seu governo não foi revolucionário nesse sentido, funcionando na base da legalidade institucional representativa em que havia sido eleito. O estudo de Rene Dreyfuss retraça os passos do general da Cia, Hasslocher, encarregado de promover no Brasil o discurso golpista entre as elites, principalmente na mídia, desde três anos antes do golpe militar. A princípio, não há razão para supor que os militares agiriam contra Jango, pois a eleição dele foi significativa da maturação das forças políticas nacionalistas culturalmente articuladas a movimentos sociais de grande envergadura em prol da mudança social – por exemplo, abrangendo adesão de grupos católicos.
Pessoalmente traumatizado, pois um dos perseguidos do regime e também um dos que mais apostaram naquilo contra que o regime se impôs, Sodré analisa em vários livros o período anterior ao golpe, e o que se seguiu. Ele mesmo era um militar, se bem que como historiador sempre envolvido com a causa nacionalista da emancipação econômica pela evidência de que não haveria outro meio para a mudança social. A produção cultural era o forte de sua colaboração ao projeto nacional. Articulou, com vários outros personagens importantes, instituições duradouras – como a Revista Civilização Brasileira, e a publicação da sua História Nova – pivô da perseguição do regime ditatorial por ser uma leitura nacionalista da trajetória do país desde a independência.
Não chegou a ser fisicamente prejudicado pelo processo, diferentemente de vários personagens de cujo tratamento abjeto ele mesmo testemunha, não com tanto impacto quanto Frei Beto e alguns títulos do cinema nacional. Essas publicações começaram a circular no período tardio da ditadura, o começo dos anos oitenta. O importante quanto as reconstituições de Sodré, vem a ser a manifesta ambiguidade a propósito do que seria o livre pensamento estruturante da revolução burguesa e/ou nacionalista local. Pois, o Saber esteve sempre, a partir do Positivismo e com exceção do modernismo pioneiro, na posição alienada de qualquer referencial da originalidade formativa da cultura em relação ao discurso de emancipação do Centro. Esperava-se que houvesse produção de ideias local, mas ao mesmo tempo já pressuposta a sua conexão discursiva.


4 )





É interessante notar a segmentação temática do texto weberiano sobre a Ética protestante. Ele exibe um falso começo explícito, mas depois um outro falso começo. Principia com o documento ético de Franklin, de meados do século XVIII : Hints to those that wound be rich; Advice to a young tradesman. Todo esse trecho está focalizado na oposição da moralidade pessoal protestante popular e da solidariedade de grupo greco-romano-católico aristocrática. Entre ambas, a diferença é entre a associação inusual entre interesse lucrativo e disciplina como característica da primeira.

A solidariedade de grupo não é oposta ao interesse do lucro. É apenas indisciplinada. Mas em sentido weberiano. Obviamente não poderia, nos termos assim equacionados, significar uma ganância privada, porque o indivíduo não age segundo interesses privados, mas conforme os do seu grupo. Mas essa ganância inspirada pela solidariedade de grupo não é limitável por valores ulteriores – o valor supremo é o bem do grupo. Então pode haver, assim como é inegável, em nível individual a ganância no sentido mais habitual, irrefreável impulso de posse e acumulação.

Inversamente, o ethos privado protestante é disciplinado uma vez que o desejo do lucro está associado aos meios pelos quais ele deve ser obtido, e esses meios são a disciplina mesma cristã do ascetismo, da vigilância sobre todos os aspectos da empresa, e da poupança em vez da ostentação.

A dificuldade que o trecho manifesta enfrentar não é aparente. Se há uma oposição tão nítida, historicamente demonstrável, porque se hesita perante a “definição final”(“deve ser deixada em suspenso”), com relação aos termos dados: “capitalismo” ou “tradicionalismo”? Quanto ao segundo, parece plenamente conceituado pelo que vimos. Mas de fato, quanto a “capitalismo” o texto oscila, pois se enfatiza um seu sentido estrito da empresa contemporânea, usa do mesmo modo o termo para a ganância e os negócios antes do período contemporâneo. Grafa também “pré-capitalismo”. O sentido da oposição é construído independente disso, e a cesura marcada pela hesitação que flagra como algo mais que perfunctório a sua própria oscilação se torna surpreendente.

O que torna compreensível a dificuldade, quando o texto a expressa em termos da inevitabilidade de sua indefinição terminológica, é que a transformação histórica não se tornou até aqui, ela mesma compreensível. Se em vez de weltanschauungen pertencentes a períodos diferentes, como é o caso em Weber onde a específica do capitalismo subsume “toda uma filosofia de vida, rica em conteúdo histórico”, sua intenção fosse como a de Parsons e se tratasse de definir “um padrão formal de valores como o padrão da 'realização universalista' “ que ele “coloca no centro da sua análise”, conforme o contraste acentuado por John Rex, então a dificuldade não teria sentido. Mas Weber está tratando algo que irrompeu na história, em vez de apenas uma combinação de fatores perspectivada como dada. Isso é algo importante. Pode demarcar com maior amplitude sua originalidade teórica.

Por exemplo, Errandonea, ao analisar os fracassos preditivos de Marx em relação ao capitalismo futuro, que sua “sociologia de la dominacion” já grafa como “neocapitalismo”, se expressa em termos de relativismo histórico. Marx observou um outro contexto histórico, assim não poderia compreender o nosso. Mas uma interpretação althusseriana de Marx iria, inversamente, se basear em que o conceito marxiano de “modo de produção” implica uma absoluta determinação do seu objeto. Mais coisas poderiam ser agregadas, em termos de circunstâncias históricas, mas não a ponto de alterar a substância da predição.

Jameson (“O pós-modernismo e o mercado”) pode acentuar a conexão muito mais visível desde o “capitalismo tardio” (“late capitalism”), entre sociedade industrial e “produtividade”, esta sendo definida como a racionalidade subjacente a toda busca de meios de satisfação das necessidades materiais humanas, e assim a economia de mercado sendo a etapa necessária de uma evolução universal da excelência da produtividade. Mas isso não altera o fato de que a profunda mudança de natureza da produção no capitalismo tardio em relação às formas de exploração capitalista até aqui, permanece analisável nos termos deterministas da ideologia, e isso tanto mais que o mercado tenha açambarcado todas as formas de produção cultural por um lado, e se culturalizado por outro lado, ao “midiatizar” toda produção e circulação de mercadoria.

Se podemos manter as coisas nesse esquema de causa ou agente, o mercado; e efeito ou produto, a esquizofrenização da produção cultural assim chamada “pós-modernismo”, conserva-se a inteligibilidade do modo de produção em todo o esperável potencial preditivo que nesse caso limita-se à explicitação da coisa ela mesma. Mas é considerável a estreiteza dessa unidade a todo custo, num cenário onde a cultura não se resume à midiatização, mas coloca uma ruptura epistemológica pelo conceito de heterogeneidade.

Errandonea, inversamente, está enfatizando que a exploração de mercado não esgota a questão mais ampla da dominação como restrição a alguns do poder decisório acerca do que afetará a todos, e assim lança mão da noção de “assimetria” entre grupos, de Stanislaw Ossowski, apenas para introduzir a necessidade do conceito de dominação de Weber vir a ser introduzido onde se limitava a problemática social à noção de exploração. Esse conceito de assimetria entre grupos é interessante aqui, mas não tem a abrangência estrutural que minha proposta da “assimetria internacional do capital” requer, e eu não a conhecia antes de ter formulado a proposta.

Ora, o que estamos constatando é que a sociologia de Weber não objetiva a princípio senão constituir categorias relativas a realidades que emergem historicamente. Como ela poderia servir como esquema classificatório de estados de coisas quaisquer e supostos homogeneamente dados?

Nesse ponto de cesura, o texto weberiano falseia, portanto, uma sua leitura possível, decorrente porém de um viés efetivo de sua escrita até aqui, o de ser um esquema classificatório assim. Mas então ele enuncia um novo começo, pelo que um grupo social real vai servir de amostra da mudança comportamental que realmente houve, tratando-se dos trabalhadores. Esse “começar por baixo”, em meio ao andamento já adiantado, conduz a um novo conceito, o de “racionalidade”. Este é obtido ao cabo de uma longa explanação que do ponto de vista da redação do texto, semelha apenas aprofundar as dificuldades tornando-as visíveis de um modo que poderia ficar desapercebido até aí.

Já não se pode imaginar um intuito classificação categorial, Weber se pronunciando decisivamente em torno do processo histórico. Há o foco no item “vocação” que distingue a relação pessoal do trabalhador protestante com o que ele faz, dotando o serviço de uma qualidade racional de concentração, contrastada à relação de simples utilidade salarial ou à contingência do condicionamento pela força a partir de políticas voltadas a tal fim, do trabalhador não protestante. Mas cedo isso se mostra frágil, porque não poderia explicar a hegemonia que uma dessas duas formas alcança – se pudesse ser demonstrada apenas a do trabalhador protestante como típica do capitalismo estrito, o que de fato o texto não obtém.

É “o espírito do capitalismo”, somente, o que pode ser associado à vocação como forma do trabalho protestante. Logo, dos trabalhadores somos conduzidos aos empresários como portadores desse espírito, mas tudo o que se consegue, novamente é o contraste entre uma atitude e outra.

A transformação é encenada. Uma empresa lucrativa tradicionalista, capitalista em sentido amplo ou pré-capitalista, ambos os termos aplicáveis, mantém todos nos seus devidos lugares, apenas compra de produtores e artesãos por um lado, e circula aos compradores interessados por outro. Mas um empresário capitalista estrito organiza uma fábrica, concentra os meios de produção, e opera na base dos princípios de “baixo preço” e “grande giro” que são típicos da racionalização dos negócios

O espírito do capitalismo, como unidade significativa, vemos aqui oscilar. Essa organização sugere que os fins ou objetivos foram mudados – não é mais a necessidade de ganhar dinheiro e garantir-se com os seus, como nas limitações tradicionalistas quaisquer, mas a perpetuação dos processos produtivos e lucrativos, o que passa a importar.

Nesse ínterim, contudo, as limitações tradicionalistas ventiladas não são mais qualquer solidariedade de grupo, pois se trata de distinguir o empresário imbuído de espírito do capitalismo dos empresários capitalistas historicamente atuantes como “aventureiros” obviamente não comprometidos com grupos de origem aristocráticos, mas muito ousados, intrépidos, e de uma disponibilidade gideana.

A associação da ganância individualista com o bem de um grupo a que se pertence é o que se inviabiliza a meu ver, para os exemplos dos parvenues emergindo no que Weber chama as “indústrias” desde o quinhentos, os quais não são justamente da classe dos grandes príncipes, aristocratas ou monopolistas que poderíamos juntar, nessa oposição, à empresa capitalista-tradicionalista com que Weber caracteriza o empreendimento de grande comércio inclusivo da exploração colonial (“o comércio ultramarino de épocas inteiras”).

O que Weber está acentuando, inversamente, é a independência dos elementos: o ethos seja qual for, e “a forma capitalística de uma empresa”. O modo como uma empresa é historicamente (factualmente) dirigida depende do ethos dos seus diretores, mas essa relação “de adequação” não é uma relação “de interdependência”, e parece que Weber, com isso, quer expressar agora que a recíproca não é verdadeira, e o ethos dos homens não predispõe que haja a forma capitalística – de um tipo ou de outro - de uma empresa. Não obstante, a grande empresa não poderia ser de outro modo que tradicionalista, enquanto não houvesse um fator histórico que mudasse as coisas.

Na verdade, ele afirma que o que houve foi o encontro feliz do ethos protestante com a “empresa capitalista”: enquanto nessa empresa o ethos encontra o horizonte mais adequado de sua atuação, naquele ethos a empresa encontra “sua força impulsora mais adequada”. Aparentemente, é aqui, em vez de na encenação da transformação organizacional da empresa, que se localiza a diferença como irrupção histórica, entre o capitalismo tradicionalista e o que virá a ser o contemporâneo, mas sendo o protestante do ainda modesto Franklin.

A dificuldade é entender a proliferação das empresas anterior ao capitalismo protestante, posto que não é mais o individualismo que a este diferencia. Além disso, não coincide a inversão de meios e fins provista pelo empresário imbuído daquele espírito que o induz a produzir “seu próprio capital e seu suprimento monetário como meios para seus fins, e não o inverso”, e o que se diz dos trabalhadores motivados pelo que seria a mesma mola espiritual, cuja “vocação” no entanto supõe um trabalho que deve ser executado como “um fim” ou objetivo “absoluto em si mesmo”.

A contradição se resolve como afinidade ética. Trata-se da mesma disciplina dos trabalhadores protestantes, que se traduz na fórmula do ethos de empresários “completamente devotados aos seus negócios” e introdutores da mudança decisiva .

Ora, a que essa mola religiosa-espiritual conduziu foi ao seu contrário, ao espírito aufklaerung liberal. Aqui a palavra nova é Weltanschauung – estando em tela, como que repentinamente, a visão de mundo desses empresários já liberais que desprezam qualquer fatores ulteriores à lógica dos negócios, em termos do que orienta suas decisões., isto é, desprezam fatores também religiosos

Mas o devotado organizador que os precede não era especialmente protestante. Nem os camponeses que ele transformou em operários. Em todo caso, a ideia motora do espírito do capitalismo é esclarecida como o encarar da atividade dirigida para lucros como uma vocação, para a qual o indivíduo se sentisse com obrigações.

Weber descarta como “insensato” que isso possa ser “reflexo suprerestrutural ideal”, mas nesse ponto mesmo conceitua a ideia motora como”racionalismo econômico”. É então que a verdadeira tarefa a que o texto se devota é enunciada, como o esclarecimento desse racionalismo. Vem assim o verdadeiro começo da exposição.

No trecho precedente, contudo, à construção textual foi fundamental dispor não só da encenação do anônimo e desconhecido organizador, mas precipuamente da Cena estadunidense, já que nela se antecipa segundo Weber, a vulgarização, a corrência social, do espírito do capitalismo. É lá comum desde muito o que na Europa permaneceu inaceitável até prevalecer a revolução laicizante oriunda do Iluminismo. Weber simplesmente associa Eua e protestantismo, o que é estratégico ao fato do capitalismo industrial no sentido mais habitual de contemporâneo (séc,XIX e XX) ser, de fato, como realidade europeia, apanágio das nações protestantes.

Mas os Eua são um processo social bem irredutível ao só fator religioso, dado o isolamento da comunidade branca local, poderíamos antepor. Além disso, o texto de Franklin coincide temporalmente com o que impulsiona o capitalismo industrial tornar-se corrente na Europa, o liberalismo aufklaerung.

Já no trecho em que a tarefa enunciada está sendo desenvolvida, ocorre o alinhamento como se houvesse sido precedentemente justificado, de protestantismo, ascetismo e espírito do capitalismo. O que no plano figurativo solve a diferença inter-continental e o “protestantismo” é agora a filosofia de vida inglesa. O texto focal torna-se a pregação de Baxter.

Nesse ínterim, ocorreu no entanto a desqualificação por Weber, de qualquer possível conexão de capitalismo contemporâneo e exploração colonial. Até aí, poderíamos pensar que ele, em linhas gerais, reproduz o esquema histórico de Marx por onde o capitalismo começa com a prática de enclosures na Inglaterra, ao mesmo tempo reativando o comércio e expulsando os servos do campo que assim se transformam em operários na cidade.

A meu ver, o modo de produção dos marxistas tropeça nesse ponto, porque se ele é o esquema que permite selecionar apenas o estruturante de um sistema social, fazendo assim da “história” apenas a redução do “histórico”, nada mais que um aparelhamento econòmico-sociológico, a sua acumulação primitiva é na verdade a conceituação de uma transição, ocorrendo entre os séculos XV e XVIII, não um capitalismo real, o qual é definido somente em função da sociedade industrial desde o século XIX. Mas na acumulação primitiva, como se pode estruturalmente opor, senão por uma petição de princípio, o monopólio colonial e a prática de enclosures?

Ora, o primeiro não é essencial ao modo de produção por vir, mas o segundo, sim. Nenhum deles pode, contudo, integrar o verdadeiro modo de produção precedente, o feudal. Por outro lado, transições são definidas somente como a presença de elementos pertencentes ao modo por vir, “nos poros” do modo presente. Formalmente não pode haver um modo de transição, e a época presente “de transição” é o domínio, ainda que assim desafiado, do modo precedente.

Os marxistas gostam de desfazer como a um mito, qualquer proeminência estrutural da transferência de capitais das potências coloniais à emergência do capitalismo na Inglaterra, o que teve lugar por expedientes engenhosos ingleses à exemplo do tratado de Metuen. Se a Inglaterra assim engana os lusos, que pensam ter obtido com ela um escoamento seguro dos seus vinhos, mas na verdade estavam se obrigando a comprar mais caro do que estavam vendendo, devido aos produtos ingleses serem manufaturados, por outro lado, como se fez ver, com isso a Inglaterra se obrigava realmente a não procurar noutra parte a mercadoria que tinha de vir dos portugueses, e ela poderia na verdade ter obtido maiores vantagens, sem a obrigação definida. O capital oriundo das colônicas não poderia assim ser um determinante extrínseco à Europa, do capitalismo. Isso não resolve o problema apontado, apenas isola mecanicamente os enclosures como o fator estruturante do capitalismo atuando nos poros do que seria o modo anterior.

Outra forma de contorná-lo é argumentar, agora por um viés weberiano, que o colonialismo não tem nada de novo em relação ao regime já operando na potência europeia – Portugal pode nunca ter sido feudal, posto que sempre vigorou lá o “absolutismo” típico do monopólio colonial. Em todo caso, esse “absolutismo” não se explica em termos marxistas como um modo de produção autônomo, e sim típico da transição designada “acumulação primitiva”.

O viés weberiano desse argumento se emprega para contestar que o subdesenvolvimento nas margens seja função de alguma dependência da exploração colonial-imperialista do capitalismo no centro, por definição desenvolvido. O subdesenvolvimento é apenas a perpetuação do patrimonial-absolutismo que marcou a colonização devido a ter sido ibérica. Mas como poderemos constatar, provar a desvinculação do surgimento do capitalismo com o fenômeno da exploração colonial é o que não se fez satisfatoriamente.

Ora, de fato Weber está operando a disjunção de dois capitalismos surgindo conjuntamente, o que chamou de “ 'aventureiro', político ou especulativo”, agora nem associável à ganância dos aristocratas, nem dos monopolistas coloniais, mas típico dos judeus como exemplos de aventureiros parvenues; e o da “organização racional do capital e do trabalho”, típica dos puritanos (protestantes ingleses).

O texto nesse ponto é bastante confuso. Trata-se de um giro rápido, tendente a evitar qualquer solvência da modernidade do ethos puritano em algo prévio, digamos, um cristianismo primitivo que estaria mais próximo do judaísmo que assim poderia ligar este à economia característica do mundo contemporâneo. Não é nada disso segundo Weber, que o justifica no entanto, apenas ao cabo de uns poucos parágrafos.

O aventureiro já havia surgido, como vimos, e nessa forma do “judeu”. Jacob Fugger citado como antítese exemplar de Franklin, é contudo bem conhecido nos anais da história econômica, por exemplo em Hubberman, onde se informa o verdadeiro vínculo das companhias das Índias ocidentais, como empresas da exploração colonial, com os países protestantes. Conforme ele, “Havia sete companhias das 'Índias orientais', sendo as mais famosas a britânica e a holandesa; havia quatro companhias das 'Índias Ocidentais', organizadas na Holanda, França, Suécia e Dinamarca. Companhias do 'Levante' e companhias 'Africanas' também eram populares; e de interesse particular para nós, na América, eram as companhias 'Plymouth' e 'Virginia' organizadas na Inglaterra”.

Ora, nada havia de diferente no regime absolutista “patrimonial” (= “tradicionalista”), inglês dessa época ou português desde sempre.

Fugger é associado, em Hubberman, à politica absolutista muito acentuadamente dependente da exploração colonial. Ali temos a descrição do já clássico em história “capital comercial”, em termos de fusão das empresas de exploração do comércio com o Oriente, multiplicado em seu potencial pelo franqueamento das vias marítimas, com a dominação colonial. Mas o importante a destacar em Hubbermann, contrastando fortemente com Weber, é o caráter impessoal das transações: sociedades por ações, letras de câmbio, todo o arcabouço do capital financeiro contemporâneo já está atuante antes da era industrial, o que Weber sempre desqualifica como descrição histórica relevante – é dogma seu, na História geral da economia, que o capitalismo racional só existe desde a segunda metade do século XIX, e que tudo o que há antes, no Ocidente e alhures ou é outra coisa ou foram “simples pródromos”.

Enquanto Hubberman enfatiza a natureza atual dessas instituições , salienta que a grande companhia nesse período colonial não é produto de grupos sociais orgânicos, mas formas impessoais de associação de capital porquanto as empresas de exploração requeriam investimentos acima dos valores individuais, sendo associadas ao comércio ultramarino de longa distância e grande periculosidade. Obviamente tratava-se de nada menos que a ocupação pela força de todo o hemisfério Sul, além da rotina de intercâmbio com os longínquos países orientais já conhecidos.

Weber, inversamente, salienta o “caráter embrionário” dessa sociedade anônima onde a participação individual era intransferível. Seu critério é que o capitalismo racional existe desde que o funcionamento da sociedade dependa de sua perpetuação. Considera que o capital comercial poderia ser desativado sem que a sociedade do antigo regime colapsasse – o que é impossível sustentar, pois a supremacia do Rei só ocorre de modo pós-feudal hegemônico devido ao capital dessa burguesia ante-industrial que financia seu exército, como se sabe, do contrário só existe o poder das aristocracias. Assim também argumenta que as empresas do capital comercial não tem continuidade com as empresas do capital racional. Chama agora de “capital irracional” a todas as formas de exploração lucrativa anteriores à ocidental contemporânea.

Hubberman mostra as grandes companhias de banqueiros, dentre as quais a de Fugger, sem relação específica com o fato de serem familiares. É o dono que importa, e não se espera que não tenha interesses na perpetuação do seu patrimônio, mas isso não seria algo totalmente desvinculado com a imagem contemporânea do empresário. O que importa em Hubberman é que não há uma natureza do grupo interferindo com o andamento ou constituição da casa bancária. Fugger é tão importante porque exemplar da associação da burguesia com o Rei, de que decorre o absolutismo como um regime centralizado, em que o Rei tem maior poder que sua aristocracia. O dinheiro de Fugger define a coroa de um país, e ele tem poder suficiente para cobrar o empréstimo, uma vez o seu financiado estabelecido no trono.

Por outro lado, as monarquias - como a inglesa - participam de forma não oficial das aventuras pessoais de especuladores e piratas, o que o irrita não por algum prurido ético, ao que parece, mas porque assim o fingimento da boa rainha Bess (Elizabeth) entra como componente dos negócios e ele já não tem o controle total da situação.

Em Weber, Fugger é citado de início, quando se trata de Franklin, e o tema do judeu-aventureiro retorna quando se trata de esclarecer sobre o racionalismo econômico nos termos do ascetismo por um lado, e da conexão do lucro disciplinado com o bom caráter, por outro lado. Vai-se mostrar que se ambos são típicos do ethos protestante, primeiro ilustrado em Franklin, não há nenhum “hebraísmo inglês”, agora todo o peso da ética protestante já estando transportado para suportar a associação histórica da emergência do capitalismo com a Inglaterra.

Esse retorno assinala a meu ver, o fato de que o texto de fato não progride, a partir dessa correlação básica. Mas pode ser que ele não tencionasse fazê-lo, como se verá a partir dos comentários associados.

Ora, até aqui toda sede de lucro do indivíduo“tradicionalista” era explicada como passível de ser fantasiada por ele como um meio tão bom quanto qualquer outro para se atingir o objetivo indeslocável como o bem do seu grupo, a família ou o Estado. Então Fugger, rejeitando como opção covarde qualquer aposentadoria, aferra-se ao trabalho como “expressão da ousadia comercial e uma inclinação pessoal moralmente neutra”, com que ilustra um “espírito” bastante “diferente” do protestante

A observação de Fugger se faz no contraste bem marcado do ethos de grupo que envolve o indivíduo, porém, na sua atividade particular mesma, e o ethos protestante somente centrado em si. A antítese com a moralidade dos motivos do aferrar-se no entanto à mesma coisa, de Franklin, é o importante. Por isso, não se percebe nesse início que Fugger não está de fato ilustrando a pertença ao grupo, mas somente à sua índole pessoal.

Mais à frente, porém, é pelo contrário, o judeu antigo, e não o apátrida moderno, que poderia por seu ascetismo aproximar-se do ideal protestante moderno, como alguns tentaram afirmar, ainda que a índole de ambas as escrituras, antiga e nova, não seja a mesma segundo Weber. Ele está pesando os prós e contras da afirmação, para negar que seja relevante, ainda que haja pontos de contato do antigo judaísmo com o moderno protestantismo.

Ora, o judeu moderno, isto é, praticante de um “capitalismo pária”, é somente o relevante, quanto ao papel dos judeus no “desenvolvimento do ethos capitalista” caracterizado, inversamente, como “organização racional do capital e do trabalho”. Fica ambígua a situação do judeu medieval, já que ambos, medieval e moderno, são citados como distando do antigo-palestino cujo traço essencial ao argumento é ser terra a terra o suficiente para das antigas escrituras o moderno puritano poder tirar algo que se adaptasse ao seu propósito racionalista.

Mas Weber não está opondo a pertença de grupo, por um lado, desses dois tipos de judeu, ambos sendo do mesmo modo apegados ao ethos de grupo e muito tradicionalistas.
Enquanto que, por outro lado, se é obviamente oponível o moderno, pelo caráter “pária” do seu “capitalismo”, ao antigo, fica obscuro o motivo do deslocamento de que decorre um tipo psico-social como Fugger, se não é seu desembaraço da moralidade tipicamente hebraica e talmúdica como observância da moral do grupo.

O problema aqui é que toda essa demonstração, que assim se mostra bastante frágil, na realidade poderia ser abreviada, como de fato tem sido, se em vez de “ascetismo” a ênfase de Weber fosse diretamente o “racionalismo”.

Como já se demonstrou, os países protestantes não tinham inquisições vinculadas especialmente à vigilância da produção científica. Mas um episódio como o do tratado de Metuem nos fornece uma pista bem mais valiosa quanto ao problema do contraste das trajetórias das potências coloniais (católico-latinas) e capitalistas (protestante-nórdicas). Precisamente a diferença tecnológica que condiciona a Revolução Industrial somente na ambiência das segundas.

Pois, se Portugal fez ou não um negócio normal com a Inglaterra, é todo o plano de desenvolvimento técnico que deixou de ser facultado a ele por via da motivação econômica nesse ínterim, já que estava restrito à produção agrícola. Sem esse aguilhão da economia, que mais poderia forçar uma mentalidade inquisitorial católica, onde o império escolástico é tão importante na universidade quanto a observância da moralidade na vida pública, a permitir a impulsão da pesquisa científica?

Que houve o impulso “renascentista” é historicamente comprovado pelo fato mesmo da imposição do jesuitismo barroco ter sido pontuada como um fato de repressão sobre políticas de liberação já em marcha nas instituições portuguesas, não apenas como uma continuidade automática das ordens medievais. Não obstante a Espanha ter sido mais afetada pelo Renascimento italiano, também lá o jesuitismo barroco prepondera. Mas a Italia não foi nem uma potência colonial, nem uma das nações nórdicas que organizaram comercialmente o empreendimento colonial para assim tornarem-se beneficiárias da transferência da renda meramente “metalista”.

O fator óbvio do desencadeamento do capitalismo é a junção da ciência empírica – a física “moderna” (Galileu) e a biologia “contemporânea” (Lamark-Darwin) - com a produção. Isso já está bem evidenciado por exemplo, em Rostovtzeff. Parece-lhe claro ter havido um capitalismo antigo, plenamente atuante no período helenístico, mas diferenciável, sem margem para dúvidas, do capitalismo moderno por não apresentar aquela junção. A questão do trabalho escravo é também importante, e isso é o que ressalto, já que o contraste é direto entre trabalho escravo e assalariado, não havendo para o manejo conceitual a necessidade do servo e da explicação de um processo de superação da condição servil. Mas o texto de Rostovtzeff denota um caráter estrutural da técnica, de que a diferenciação do trabalho não goza.

Ora, o problema apontado é que o único modo de contornar a evidência do caráter fundamental do capital oriundo da colonização à emergência do capitalismo clássico (tipicamente europeu) é centrar o fenômeno de sua emergência na liberação à disponibilidade econômica, da técnica oriunda do conhecimento científico. Por que Weber acentuou o ascetismo? É por esse motivo, seja qual for, que o judeu se torna importante nas suas considerações, porque o racionalismo e a inteligência científica evidentemente não é de forma alguma um traço ausente do judeu moderno, enquanto o é do judeu antigo e de toda conexão “bíblica” do cristianismo de tipo medieval.

O fato do processo ser histórico, e a irrupção precisar ser impulsionada por um fator novo é o que se mostra essencial a Weber. O protestantismo é novo, o judaísmo, não. Mesmo que se desfaça a ignorância do judaísmo como uma unidade, do mesmo modo que o cristianismo não é, as correntes da sua pluralidade histórica não demarcam uma ruptura de consequências tais como a dos protestantes em relação ao cristianismo medieval, segundo Weber. Mas nesse ponto, efetivamente ocorre uma petição de princípio, porque o judeu moderno deveria, sim, provir de uma ruptura tão considerável quanto esta, e igualmente influente na condução dos fatos da racionalização progressiva, e tanto mais que ele é aventureiro e pessoalmente interessado.

Então a correlação moralidade-capitalismo é que se torna central. Estranhamente, ela se define por oposição a um ethos de grupo, como individualização extrema, quando na realidade a pessoalidade da salvação do crente implica um ethos de revelação conexo à igreja e suas observâncias, ainda que não mais seus sacramentos.

É interessante que isso seja tão importante a Weber como o registro de suas notas permite considerar. Primeiro, o tema de Fugger implica essa raridade de Weber falar de Simmel – Abel diz que eles nunca falam um do outro, não obstante terem sido íntimos. Depois, Weber acentua que pesquisou pessoalmente a conexão do protestantismo americano com a mentalidade antigo-judaica. O ponto é importante pela semelhança da tese de Weber com a de Sombart, sendo que este colocou realmente os judeus naquela posição em que Weber havia posto os puritanos protestantes, isto é, como os agentes da mudança histórica em termos de introdutores de um “espírito do capitalismo” eivado de “prudência e racionalidade”. Contudo, se Dobb, que assim se expressa, os iguala como numa mesma escola “idealista”, é para mostrar que nenhum deles resolve o “enigma” do surgimento do próprio “espírito” na história, supondo que o espírito descrevesse suficientemente o capitalismo.

Weber refere-se a Sombart como pensando, diferentemente dele mesmo, que o aspecto ético empreendedor capitalista fosse um resultado do capitalismo, em vez de uma causa. Não é assim que aceitam Dobb e mesmo Parsons. Ambos atribuem um mesmo significado de capitalismo como um ethos racional específico a Weber e Sombart, mas Parsons sublinha o fato de que, como vimos, Weber também tem um conceito irracional de capitalismo, como qualquer empresa visando lucro, o que não ocorre em Sombart. Dobb cita essa observação de Parsons e concorda com ela. É importante notar que isso implica interpretar a categoria “capitalismo geral” ou irracional como puramente econômica, enquanto a de capitalismo racional seria uma categoria histórica.

Creio que a maior dificuldade enfrentada pela tese de Weber, é a que Robertson (“Aspects of the Rise of Economic Individualism”) permite apreender. Entre autores protestantes e católicos em suas atitudes quanto ao livre comércio, não devia haver real opção se o empreendimento monetário já podemos atribuir existente entre os medievos, isto é, antes da Reforma. Esse é o ponto em que o capitalismo irracional de Weber encontra eco em historiadores como Pirenne e Rostovtzeff, que sustentam ser o capitalismo vigente na exterioridade do período atual, mesmo que eles não concordem com a fixação dessa vigência, e Pirenne o pense apenas desde o século XII, a meu ver com menos consistência que Rostovzeff. Mas isso não significa aceitar a tese weberiana de ser esse capitalismo ante-moderno, um “irracionalismo”.

A resenha que Dobb procede no capítulo introdutório do seu A evolução do capitalismo, de que não seria oportuno registrar a valiosa extensão, é feita com a finalidade de justificar a posição marxista do autor. Ao menos deve-se notar que a resenha inclui os casos de rejeição – por alguns economistas e alguns historiadores – do conceito de “capitalismo” como relevante. A posição se justifica, após ter sido feita a defesa da relevância do conceito, devido a que Marx teria apresentado a conexão do fenômeno de transformação histórica da economia moderna e a diferenciação de classes, de modo que a própria noção de lucro se permite ser diferenciada, tornando-se agora exploração de classe. Ou seja, descrevem-se relações objetivas de produção, e elas são qualificadas historicamente. Outras formas de obtenção de lucro, que não pela defasagem dos salários dos operários em relação aos lucros dos donos dos meios de produção, não são capitalismo.

Mas a gênese teria que ser explicada, da mesma forma. Isso já vimos não ser possível por meio do modo de produção. Assim, por exemplo, em Hubberman, que parece-me bem claramente tendendo à teoria marxista, enfatiza-se como devido ao caráter de exploração da empresa colonial, citando aliás o próprio Marx sobre a brutalidade sem igual do processo na margem, mas ela não explicaria por si só aquele “algo mais do que o capital acumulado” necessário a que “a produção capitalista em grande escala pudesse começar”.

Aqui coincidem os relatos marxistas clássicos, pois se trata de mostrar os meios pelos quais os enclosures, na sua segunda versão a partir do século XVIII já contando com o apoio do governo e ressoando com mecanismos legais, expulsam os servos e por vários meios obtém a mão de obra “operária” para a superexploração – inclusive de mulheres e crianças, até as de dois anos de idade, como Hubberman mostrou vigente em Conecticut, Eua, ainda em 1934. Como se deve compreender, trata-se de fenômeno histórico de grande magnitude no cenário ocidental.

Foucault trata disso em termos da conexão com a população oriunda do grande internamento, todos os que à exceção dos loucos são agora, com a Revolução Francesa, liberados dos regimes de cárcere vigente desde o século XVII, para integrarem exércitos de trabalhadores enquanto a triagem encaminhará os loucos aos novos personagens médicos da psicopatologia.

Como Hubberman acentuou, esse capítulo é escrito, como extensamente em Dobb, na base de que os trabalhadores não iriam integrar tais exércitos de operários fabris por si mesmos. Eram condições de trabalho verdadeiramente deploráveis. Ninguém o faz enquanto puder conservar qualquer pedacinho de terra para cultivar, ou seus próprios instrumentos de produção artesanal para produzir qualquer coisa vendável por menor que seja o ganho em relação ao gasto. Era preciso por meios determinados, obrigá-los. Assim vem a força da interpretação de Marx a propósito da diferenciação social de classe como o cerne da transformação histórica contemporânea.

Mas Hubberman também não deixou de notar que a princípio, os enclosures não foram feitos com a intenção de se dispor de servos como operários. Não se pensou neles, mas somente nos fantásticos lucros provenientes do fechamento – se não fosse assim, não fechavam. Já no século XIX, até os soldados do governo entravam em campo para garantir a expulsão comandada pelo nobre, dos camponeses que secularmente formavam a comuna em suas terras, a fim de transformá-las em pastagens.

Por outro lado, a integração dos antigos artesãos nos sistemas fabril não foi repentina, massiva e violenta, mas gradual, tentada por meios muito diferentes, até que a “revolução industrial” estivesse a pleno vapor e o proletariado de antigos artesãos e servos das comunas estivesse geralmente concentrado na infecta cidade grande assim formada nessa época, com seus mocambos de moradia de paupérrimos trabalhadores e suas chaminés esfumaçando as anteriormente aprazíveis paisagens dos arredores.

O que desejo salientar é o descompasso entre o que ocorre em vários setores - o proprietário de terras, o organizador da fábrica, o servo e o artesão. Estes últimos encontram no organizador menos o explorador que os espera vir do seu comparsa proprietário de terras, do que a absorção socialmente mediada de sua disponibilidade. Além de todos estes, está o comerciante que não opera conscientemente essa disponibilização, mas está à cata de tecidos para distribuir enquanto por outro lado, também distribui especiarias e produtos do Oriente na Europa. Assim, creio que Weber trata esse assunto de forma que considero pertinente.

Ele não pensa que se trate, com o surgimento do capitalismo, de um conflito de classes, mas de uma transformação de classe. Ou seja, não há a estudar uma diferenciação substancial de dois grupos sociais antagônicos e essencialmente conceituáveis. E sim a transformação que fez dos representantes de uma sociedade, a ocidental cristã, pessoas capazes de aderir a um sistema de valores tal que nele todos os requisitos para a vigência da sociedade industrial se considerassem normais.

Por outro lado, se a sociedade desse modo parece sistemicamente reduzida, isto é, considera-se apenas o ideal-tipo da ação racional a partir do ponto de vista de um ator hipotético cuja identidade está sendo perspectivada somente a partir do foco na classe dominante, devemos notar que o proletário do próprio Marx deve considerar normal que os tempos modernos impliquem a sua consciência - ou evolução - de classe em termos dos mesmos valores de racionalidade industrial. Outra coisa é de que modo o controle social dessa produção deve decorrer.

Quando tomamos a sério a história do Brasil, vemos que nela ocorre uma sociedade cujos valores são totalmente incoativos a essa realização psíquica de tais valores como normalidade. Assim se explica ordinariamente o porque da escravização negra: os índios não se integravam no sistema do trabalho organizado da plantation, ainda que à custa da própria vida.

Mas a racionalidade do ideal-tipo é universal à sociedade considerada, e assim, se a decisão do controle importar no socialismo, não se seguiria que ele fosse pensado pelo proletário da sociedade industrial como nada menos que tão racional quanto pretende estar sendo o controle pelos proprietários do capital. Ninguém está disposto a retroagir ao antigo regime, ou à sociedade primitiva assim estereotipada como “irracional”.

Aqui importa que o ator hipotético tenha sido generalizado dos protestantes, porquanto eles eram mesmo, inversamente aos judeus, o estrato historicamente representativo da cultura das nações que lideraram a viragem à economia de mercado. Hubberman salientou isso, ao referenciar aprovativamente a “ética protestante e o espírito do capitalismo” de Max Weber, destacando o Poor Richard's almanack de Franklin, como exemplo do ajuste de retórica religiosa e as novas formas de arrancar dinheiro, que tinham de ser sancionadas por algum sistema de valores, já que haviam sido descobertas e estavam sendo praticadas pela classe dominante.

Mas Hubberman cita um tanto ironicamente, a meu ver, pois se trata para ele, sem sombra de dúvida, de mostrar que se “a poupança e o investimento, praticamente desconhecidos na sociedade feudal, se tornaram um dever na sociedade capitalista”, como forma de louvar a Deus, isso ocorreu porque “o mundo dominado pelos comerciantes, fabricantes, banqueiros exigiu um conjunto de preceitos religiosos diferentes dos do mundo dominado pelos sacerdotes e guerreiros”. Como Weber atribuiu a Sombart, ele inverte a ordem da causalidade que é a de Weber, porque sua problemática social não é a mesma que a deste.

Quanto à problemática econômica do capitalismo, então sim podemos pensar que restou intacta. Aqui já salientei que a meu ver nenhuma das posições consideradas tocou no cerne, que é a produção de mercadorias em escala imaginável até a modernidade, secundada pela tecnologia ou máquinas derivadas da aplicação sistemática da pesquisa científica. Por que não se fizeram simplesmente escravos, os antigos servos, já que aquelas classes dominantes podiam tudo, e com efeito o podiam na margem onde os negros estavam já escravizados? Pelo mesmo motivo que provocou, quando a escala da produção alcançou o patamar próximo de massas, a transformação do pensamento econômico, de mercantilismo em liberalismo. Não há uma classe de número irrestrito de compradores, é preciso aumentá-la. Mas a falência do capitalismo clássico se deu por isso. É irônico, assim, que na discussão de Rosa Luxenburgo e Lenin, sempre se diga que este a vencera, quando pode ser que as coisas não sejam tão simples.

Como se sabe, a discussão gira em torno do imperialismo, quando ninguém mais duvidava do seu caráter fundamental ao capitalismo atual. Para Rosa Luxenburgo, isso implicava um limite do capitalismo: algum dia, não haveria mais mercado neocolonial a açambarcar. Lenin respondera que o capitalismo sempre haveria de elaborar formas de perpetuar-se. Na verdade, o capitalismo não se perpetuou, como parece. O clássico realmente acabou, e o que temos hoje é o desenvolvimento das práticas neocapitalistas estadunidenses – e depois toyotizadas, robotizadas, etc. - que já vimos em todo caso irredutíveis à descrição tradicional do capitalismo primeiro europeu

A ruptura essencial se mostra exemplarmente quando da transferência do controle do petróleo iraniano, da empresa inglesa ao capital norte-americano. O que o imperialismo europeu já sabia, que era fundamental o acesso aos mercados do que hoje chamamos terceiro mundo, ele porém não podia de fato obter além de um certo limite, não pela limitação digamos geográfica dos continentes, mas porque mesmo gastando o necessário para manter nos governos das ex-colônias colaboradores conspícuos, ou os protetorados sob controle das potências centrais, seria inevitável que as forças produtivas localizadas se desenvolvessem a ponto de obter sua emancipação política dessas forças externas impostas como se fossem internas. Eis o quadro não somente da descolonização afro-asiática, mas de emancipação econômica quase assegurada na América Latina e OrienteMédio, após 1945.

Já o cálculo imperialista do neocapitalismo não é feito apenas sobre a oferta de matérias-primas da margem, em troca de industrializados, mas transfere a esta a incumbência do seu abastecimento energético em vez de suprir-se a si mesmo, não obstante o quanto possa pela natureza existente de suas reservas. Não foi apenas mais o governo formal do país, mas a própria estrutura do progresso econômico dele que o neocapitalismo assegurou tornar dependente de si.

Os empréstimos estadunidenses não eram oferecidos, desde então, à América Latina por exemplo, com vistas à permanência de um governo, como por exemplo, o capital inglês o era com relação ao império no Brasil do século XIX enquanto lhe foi interessante manter. Mas sim ora com vistas a todo planejamento do futuro local. Que as informações detalhadas desse planejamento e submissão do controle dele, com permissão de mudá-lo à vontade, pelos Eua, condicionam empréstimos e ajudas, está suficientemente documentado pelos historiadores, como em Romanova se especifica mais minuciosamente.

A globalização elevou essa forma nova e sistêmica de dependência a um limiar irreversível, pois agora se trata da implementação do próprio capitalismo pleno na margem, sem perigo de que ele seja concorrencial a sério ao capitalismo no centro, se ele lhe é estritamente complementar e controlado de lá por uma miríade de formas possibilitadas pela informática e midiatização do social – lembrando que as multinacionais não são realmente descentradas pelo mundo, mas centradas a partir de suas sedes, assim fala-se delas podendo ajuntar o complemento nacional conforme a localização de sua sede.

Entre o neocapitalismo e a globalização o fator determinante foram as ditaduras dos sixties, pois de forma alguma os Eua teriam assegurado a total perpetração dessa forma sistêmica de dependência sem a força bruta, apesar de tudo o que já havia obtido com a política dos empréstimos e ajudas condicionados, que exercitaram entre os anos quarenta e cinquenta.

Assim o neocapitalismo revela a conexão essencial de todo capitalismo com a consumação, o mercado receptor das mercadorias e/ou procedimentos, e a originalidade de Hubberman, mesmo mantendo-se na linha de Marx, se mostra pelo fato dele estar mais consciente desse fato. Assim ele percebeu claramente o limite do que estamos designando o capitalismo clássico, mas anteriormente ao rise do neocapitalismo norte-americano, limitou-se a especular a crise por vir a partir do cenário de entre-guerras. É fato que essas duas guerras foram motivadas pelo que parecia o meio de resolver o limite, assegurando a alguma potência – Inglaterra ou Alemanha - todo o controle dos mercados externos, de modo que nada escaparia ao seu regime de força, na margem.

Mas isso era improvável de se conseguir – e vimos que também Pierre George, no cenário de após essas duas guerras, continuou na mesma linha atrelando qualquer futuro do capitalismo europeu à unificação continental dos seus interesses. A força não seria suficiente, não obstante, pois mesmo em escala nuclear, ela só coloca a questão da permanência da própria humanidade. A força foi usada como condição sine qua non, como vimos, pelo neocapitalismo, mas para assegurar uma política viável que a superprodução dos anos vinte mostrou não ser o caso do capitalismo clássico europeu.

O cálculo de ajuste de um teto produtivo não deve ser feito apenas contra uma quantidade determinada de mercado de consumação, mas conta com os meios de reduzir os custos de produção, integrados esses meios, se eles são postos na margem, à própria condição sistêmica dessas economias periféricas que assim também se tornam dependentes no seu próprio caráter produtivo, do centro .

Assim, da obtenção de reservas energéticas, sabendo-se que elas não são apenas extração e que, pelo contrário, a extração fica por conta de toda a economia ocupada do país, enquanto é o refino e o tratamento tecnológico aquilo que assegura às “multinacionais” o controle local, foi a política estadunidense quanto a isso, secundada na globalização pela exportação fragmentária dos processos de fabricação planejados vir de acordo com o levantamento dos recursos aqui localizados. Isso pode ser obtido porque a indústria se desatrelou do que lhe era imprescindível no século XIX, os fatores de localização ditados pela proximidade de certas fontes de energia que agora se tornaram obsoletas ou postas a explorar na margem, condições territoriais de acesso à água e estradas, portos, etc. A indústria pode agora emergir em praticamente qualquer lugar, a não ser que seja de um tipo obsoleto. O avanço tecnológico não pode ser destrelado da consecução das políticas de neocapitalismo e globalização.

Mas tudo isso implica um novo alcance da teoria social. Ao marxismo, que vimos se aproximar o mais possível da questão conflitiva da exploração, repugna a transformação da estrutura do conflito, desde as classes no Centro à assimetria hemisférica, posto que isso altera todo o seu parâmetro histórico-explicativo. Por outro lado, nunca o pensamento “normal” – da sociedade de dominação centro-tecnológica- precisou tanto de parâmetros que fornecessem inteligibilidade e trânsito terminológico aos fatores de integração sistêmica. Mas a própria crítica social está defrontando uma realidade social de fato sistemicamente articulada. A questão importante se torna aquilatar o potencial crítico da influência de Weber, mas também apreender os fatores que implicam a limitação do pensamento europeu em apreender a constutividade a si, da margem.





6)




Os conceitos weberianos que devemos examinar agora induzem a aceitar que a exposição a propósito da ética protestante não limita a obra como uma filosofia da história. Trata-se de uma Sociologia.

Mas quanto à “filosofia da história”, de fato não é fácil a princípio, separá-la da “sociologia”. A exposição de Hubberman o evidencia. O trecho vale ser transcrito:



Que filosofia da história tem o leitor? Acredita que os acontecimentos históricos são principalmente uma questão de acaso, meros acidentes sem um tema de ligação entre todos eles? Ou acredita que as modificações históricas são devidas ao poder das ideias? Ou acredita que os movimentos históricos podem ser atribuídos às influências dos grandes homens? Se o leitor acredita em qualquer dessas filosofias,não é um marxista. A escola de historiadores que tem em Marx seu fundador e mais brilhante expoente explica os movimentos, as modificações ocorridas na sociedade, como resultado -consequência – das forças econômicas da sociedade.”



Outro aspecto que costuma ser entretecido ao exame de Weber é o epistemológico, isto é, propriamente filosófico. Como o ideal-tipo e o Verstehen são relacionáveis ao ambiente polêmico do pós-positivismo, diretamente relacionado ao contexto das humanities em sua transformação de época impulsionada pelos fatores que já ressaltamos, eles tendem a ser visados como uma teoria do significado. Alfred Schutz empreendeu toda uma interpretação da sociologia de Weber, como evidencia Robert Gorman, com base nesse pressuposto.

É que de fato a polêmica foi conduzida desde um horizonte bastante discernível em história da filosofia, a partir do neokantismo de Rickert e Dilthey. A tarefa seria depurar o kantismo de qualquer “razão prática”, mas quanto à razão pura, trazê-la para o âmbito da problematização do significado em termos de valor. Culturalizando o significado, no entanto, o próprio da filosofia é a condução à questão do sujeito, por um lado, e inevitavelmente alguma filosofia da história, por outro lado. Com alguma ousadia podemos pensar a história do ser heideggeriana como uma filosofia da história em que pioneiramente se a reduz a um a priori de sentido. Aqui não são os conteúdos de ideias evoluindo com o tempo, o que conta, e sim o estruturante de qualquer ideia possível o qual determina por sua vigência, a circunscrição de uma época.

Não é que uma redução esquemática não houvesse já sido feita, mas como assinalamos, se é o que demarca a emergência do positivismo-realismo, toda redução feita era um determinismo, ou ideal como em Comte, ou material-econômico, à exemplo de Marx.

Mas Weber exemplifica o requisito pelo qual se compreende a emergência de um estruturante como o heideggeriano. Ideia ou causalidade objetiva, essas coisas se apresentam como desde sempre dadas e compreendidas. Nós não temos em relação a ela nenhuma inquietude. São redutíveis ao que Kant – na sua tranquila cisão de puro e prático – chamaria o significado transcendental.

As humanities nesse ponto, fazendo aceder o Ocidente à confrontação da irredutibilidade cultural que não mais estava podendo ser anulada em relatos “evolutivos” lineares, afeta o transcendental. A irredutibilidade implica que ele não pode ser resolvido nos termos da objetividade (universal). Resta a questão de como lidar com os conteúdos de cultura não-ocidentais e não modernos, de modo que o significado envolvido nesses conteúdos não se sabe como definir não mais apenas em termos dos conteúdos, mas de como se estruturam para funcionar como sentido para os sujeitos de sua abrangência.






A crítica de Robert Gorman a Alfred Schutz, cuja sociologia fenomenológica copia a de Weber por meio da filosofia de Husserl, é pertinente a esse propósito, mostrando que o “mito da ciência social fenomenológica” pode ser assim caracterizado por que a crítica inicial ao objetivismo da ciência positiva afinal conduz à identificação de “receitas” socialmente aprovadas, que seria todo o conteúdo da consciência da pessoa normal, como o único objeto da sociologia. Essa orientação metodológica então é questionada por Gorman como sendo obviamente objetivista, e assim não haveria motivos para circunscrevê-la como outra coisa que o tão criticado positivismo. Mas devemos notar que a via de Schutz não é minoritária.

O estudo de Lyotard sobre “O pós-moderno” esquematiza o cenário atual ainda numa cisão tradicional entre perspectivas positivista e hermenêutica. Mas se a partir dessa pista quiséssemos ilustrar a via hermenêutica, um aporte bem referencial seriam Berger e Luckman que se baseiam explicitamente em Schutz para conservar a sociologia como tarefa de identificação dos elementos formativos da “construção social da Realidade”. Basicamente mostrar como as receitas sociais ou universos simbólicos são interiorizados por aqueles que assim se tornam identidades sociais. Nessa via, ambos consideraram a perspectiva estrutural um equívoco que começa posicionando-se apenas como um modelo esquemático, mas depois toma o esquema como lei universal. Não obstante, eles também assim criticam outros parâmetros funcionalistas, que diferem dos deles, por onde Schutz quer dizer a confluência natural do amálgama único proveniente de Durkheim e Weber. Ora, Lyotard está na verdade situando-se num parâmetro “pós-moderno”, segundo ele ulterior ao dilema entre positivismo e hermenêutica, ultrapassagem justificada por um motivo semelhante.

Os modelos “sistêmicos' (funcionalistas) que geralmente sob a influência da fenomenologia-hermenêutica começam por criticar a redução tecnizante dos positivistas, na verdade não escapam de ser utilizáveis pelos “tecnocratas”, posto que a ideia básica é a mesma, uma totalidade de funções sociais formadas por papéis de identidade em que se integra realidade dos indivíduos. Mas o marxismo não escapa ao dilema, segundo Lyotard. Não só pelo que poderíamos notar, o fato dele ser variamente influenciado ao sabor das “correntes”, mas pela prova histórica de que onde se o adota, em partidos ou na União Soviética, tende a coincidir com os objetivos do que nós chamamos ocidentalização, e Lyotard designa “os reguladores do sistema”.

Assim, o outro horizonte de remodelação do pensamento weberiano,alternativamente a Schutz é o próprio Parsons. Ele está referenciado assim, como “o” parâmetro funcionalista, e que chegou a beneficiar-se da cibernética, em Lyotard. Enquanto que o pós-moderno ulterior ao dilema seria a crítica da identidade como parâmetro do que realmente ocorre na interação social, e a posição da contínua negociação interpessoal e inter-institucional, junto à concepção do social sempre em devir, em vez de uma totalidade de fatores identificáveis. Essa concepção de negociação não reflete o universalismo racionalista da imagem de linguagem

Assim, para Lyotard, negociação pós-moderna não é buscar um termo identitário de maioria, mas forçar os limites instituicionais ao ponto de podermos jogar os jogos de linguagem que quisermos sem qualquer restrição institucional – cantar num tribunal é possível? Por que? O ideal do horizonte sempre franqueável do limite, contudo, se relativiza pelo fato de que na instituição nossa participação também é mediada pelos jogos nela correntes historicamente. Pode ser que essa posição requeira mais coisas para se consolidar, pois que é que interfere sócio-historicamente, com o fato de serem estes em vez de outros, os gêneros que ora transitam, sabendo nós que são históricos em vez de substanciais?

Nós estamos justamente examinando o modo como neocapitalismo e globalização se relacionam a uma problemática social onde o conflito não pode mais ser secundariamente tratado como caso de degeneração dos processos identitários “normais”, por outro lado restando o investimento da ciência social expressamente com intuitos reacionários ou puramente técno-empresariais – como quando se usa a psicologia para julgar o melhor funcionário.

Como o próprio Lyotard observou, por mais que a “teoria crítica” de Adorno e Horkheimer, ou o grupo Socialismo e Barbárie dele mesmo e Castoriadis, tenham preservado alguma linha do marxismo do destino de se tornar utilizado “à guisa de elementos na programação do sistema”, na verdade já se podia à altura da elaboração de “O pós-moderno” constatar que era “o pilar social do princípio da divisão, a luta de classes”, o que havia perdido a radicalidade.

Mas nesse trecho Lyotard é ambíguo. Ele afirma essa perda em função de que a luta de classes só podia agora ser uma utopia ou uma esperança, um protesto fosse em nome do homem, da razão, da criatividade ou – eis o ponto obscuro – de um improvável sujeito crítico a que se havia reduzido alguma categoria social como os estudantes ou o terceiro mundo. Não fica claro se a luta de classes se exaure porque não pode fornecer alguma inteligibilidade a esses conflitos, ou se são eles que não tem uma radicalidade tal que pudesse revitalizar o marxismo. De fato, essa é a opção que na esquerda, a emergência de conflitos ulteriores aos de classe social, suscitou.

Mas a índole do pensamento de Lyotard, que é desvincular todo conflito de uma pré-concepção macro-identitária do que nele se posiciona, parece vir ao encontro da opção que aderiu, em vez de rejeitar como contrária aos interesses da luta de classes, a essas lutas ulteriores à de classes, isso implicando não contar com o aparelhamento conceitual de Marx. Não obstante, nesse aspecto o “terceiro mundo” foi um item mais polêmico que outros como “mulheres” e “minorias étnicas”.







































                                                                       [continua]






         
        
      


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